Dois anos depois de ter lançado o álbum "Luz", Catarina Rocha regressa às edições discográficas com "VIDA", um álbum composto por dez temas, que incluem oito temas originais e dois dos temas que a cantora regravou e que fazem parte do repertório de Amália Rodrigues. Catarina Rocha é hoje minha convidada em "Discurso Direto". Portugal Rebelde - De que é nos falam as canções deste novo disco?
Catarina Rocha - O disco reflecte a nossa sociedade no que diz respeito a sentimentos mas também a vivências.Cada tema aborda um assunto diferente, por exemplo “Fado Abananado” fala-nos das casas de fado e fala de uma história engraçada entre a fadista e o dono da casa de fados, “O que o tempo nos dá” – refere que a nossa vida é efémera e o tempo é limitado, e deste modo devemos dar importância ao que realmente importa e a quem importa. “Renascer” fala-nos de uma relação um pouco “desgastada” em que reflecte as fases da vida dos casais. “Beijo, procura-se” - aborda uma fantasia, um sonho de alguém que procura o seu amor ideal. “Expresso da saudade”, - é um tema baseado numa história verídica de um casal que por força das circunstâncias passa muito tempo separado. “Não sabe amar” - fala-nos de uma relação que acaba por decisão de uma das partes, por não saber exactamente o que quer, e hesitar em relação ao outro. “Agora é que vai ser” - reflecte a força que necessitamos nos dias menos bons, e que não nos devemos preocupar com o que os outros dizem, mas devemos sim ser fiéis a nós próprios e seguir o nosso coração, por ser o melhor modo de conseguirmos alcançar o que mais almejamos. “Sem razão” – um dos poemas mais belos do nosso fado que nos diz que o amor é algo que não se procura e que aparece quando menos esperamos. No entanto, nunca sabemos a sorte que nos trará. “Não peças demais à vida” refere que devemos aceitar aquilo que a vida nos deu, aquilo que nos dá…e dará “Meu amor” – a balada mais profunda do álbum que fala da saudade do nosso amor que não está ao pé de nós e que nunca mais voltará.
PR - O álbum “Vida” é composto por dez faixas, que incluem oito temas originais e dois temas que regravou e fazem parte do repertório de Amália Rodrigues – “Sem Razão” e “Não peças demais à vida”. Há alguma razão especial para a escolha destes temas?
Catarina Rocha - Para mim é fundamental cantar poemas com o qual me identifique e que veja veracidade neles. Fiz um trabalho de pesquisa pelo repertório da nossa Diva Amália Rodrigues, pois queria temas que à partida ainda não tivessem sido gravados noutros discos, mas ao mesmo tempo que fossem mais “desconhecidos” e menos cantados no ambiente fadista. Achei que os poemas de ambos os fados me diziam muito e tocavam-me profundamente. Quis gravar e dar o devido destaque a estes dois fados.
PR -“Fado Abananado” com letra de Pedro Silva Martins foi o single escolhido para a apresentar o álbum “Vida”. Como é que surgiu a oportunidade de trabalhar com um dos maiores autores da atualidade?
Catarina Rocha - Sempre admirei a sua escrita, e quando estávamos a escolher e recolher material (poemas) para o álbum, manifestei interesse em ter um tema de Pedro da Silva Martins, até porque sempre considerei que ele tem um estilo de compor e escrever que muito se adequava ao meu estilo e à minha imagem. Falei com o Valter Rolo (Produtor do disco), que de imediato pediu a letra ao Pedro! Eu referi que queria um tema gingão com letra a condizer a preceito. O Manuel Graça Pereira (autor da música) é das pessoas mais criativas que conheço para compor este tipo de temas. Quando o Pedro da Silva Martins ouviu a música, respondeu logo a dizer que tinha adorado o tema e que já tinha uma ideia do que iria escrever. Enviou a letra logo no dia seguinte (com áudio cantada por ele e tudo!), achei de um enorme profissionalismo e quando li a letra disse logo ao Valter que era mesmo o que estava à espera para completar o disco. Durante as gravações toda a gente ficou “abananada” no bom sentido, pois o tema ficava facilmente no ouvido (acho que é isto que chamamos de um tema “orelhudo”).
PR - Neste disco podemos também encontrar quatro composições da sua autoria. Este é um “lado” que quer continuar a explorar nos seus trabalhos?
Catarina Rocha - Sem dúvida! Realmente é o disco em que mais se vê o meu nome como autora de temas e pretendo continuar a escrever e a compor melodias. Aquando da realização do disco, já tinha bastantes temas que poderiam entrar no "VIDA", e o Valter adorou alguns dos temas que lhe mostrei, e disse logo de seguida “isto tem mesmo que ser gravado”! A verdade é que a escolha é muito difícil, e ficaram muitos outros excelentes temas de fora que guardamos para um próximo álbum! Descobri que ainda tenho muito para dizer na minha escrita e muitas melodias pairam na minha cabeça. É um processo que me alivia a alma, o poder cantar o que escrevo é libertador. Inspiro-me sobretudo na vida, no que vejo, no que sinto, no que poderia ser….
PR - É verdade que o álbum “Vida” é sobretudo um disco com muita energia, mas também com a calma necessária e melancolia?
Catarina Rocha - O álbum chama-se vida, não só porque tem muita vida ( ou seja, tem dinâmica, altos e baixos, alegria e tristeza), mas também porque os poemas falam sobretudo das vivências das pessoas. O Fado é Vida, e a vida é sentir, é tempo, é ser feliz, é ser triste, é ter esperança, é amor…etc. Por isso o álbum é muito dinâmico tem a alegria de um” Fado abananado” ou de um “Beijo, procura-se!”, mas também tem a tristeza de um “Meu amor, ou "Não sabe amar”
PR - Numa frase como caracterizaria o álbum “VIDA”?
Catarina Rocha - É um álbum com a intensidade necessária para quem souber ouvir e sentir o pulsar da VIDA.
Com raízes no sempre pulsante e inovador movimento criativo da cidade do Porto, os LOLA LOLA formaram-se em 2014, fruto da junção de um trio já muito experimentado nas lides musicais: Tiago Gil (Guitarra), Miguel Lourenço (Baixo) e Hélder Coelho (Bateria), todos ex-Os Tornados, ao qual se acrescentou a desconcertante voz de Carla Capela, conhecida da noite portuense como DJ Just Honey e um pujante sax barítono, atualmente nas mãos do mestre Rui Teixeira. Numa edição Chaputa! Records, os LOLA LOLA editam amanhã 7' "Killed a Man in a Field", um pedaço da história da banda que querem partilhar.. Hoje em "Discurso Ditreto" recebemos os portuenses LOLA LOLA.
Portugal Rebelde - “Killed a Man in a Field” é a canção-titulo deste novo 7´. Que viagem é esta com que nos brindam neste quarto registo fonográfico?
LOLA LOLA - É uma viagem por uma larga paisagem de cor e infinito, desde as montanhas sagradas do Oriente ao deserto do Mojave, a pedir uma jornada pelo interior de cada um. “Killed a Man in a Field” é uma canção sobre a efemeridade da vida e a eternidade da paisagem. É uma história de amor trágico, de quem decide matar e mata, com a certeza de que vai morrer a seguir.
PR - Do outro lado disco oferecem-nos uma interpretação fulminante do indiscutível “Somebody’s always trying” de Joy Byers. Dança, será sempre a palavra que não nos sai da cabeça?
LOLA LOLA - “Somebody's Always Trying” de Joy Byers fez parte de muitas sessões noturnas de partilhas musicais, surgindo espontaneamente nas desgarradas dos ensaios, tornando-se repetente. Com pulsação para mexer a pista de dança, é a nossa homenagem à enorme compositora americana, mais conhecida pelo seu trabalho com Elvis Presley, tendo assinado sucessos, tais como "Please Don´t Stop Loving Me" do filme Frankie and Johnny de 1966, "C'mon Everybody" do musical Viva Las Vegas de 1963 e "Let Yourself Go" do filme Speedway de 1968.
PR - O universo musical das décadas de 50 e 60 continua a ser a grande inspiração para os LOLA LOLA?
LOLA LOLA - Sim, sem dúvida que são duas décadas que nos inspiram, principalmente pela música que normalmente consumimos, refletindo-se nas nossas composições musicais, no modo como gravamos os discos e na forma como nos expressamos artisticamente.
PR - As vossas canções têm sido destacadas um pouco por todo o mundo por djs de culto, rádios e blogosfera musical. Acreditavam que ia ser assim?
LOLA LOLA - Apesar de nunca termos pensado na exposição que os LOLA LOLA pudessem ter, a nossa missão é fazer música e depois, consequentemente, tentar divulgá-la o melhor que sabemos. O pacto que nos uniu passa por tocarmos o que gostamos, enquanto nos der prazer. Gravar as músicas que nos fazem vibrar, editando-as em vinil de sete polegadas. O que se mantém até aos dias de hoje. Quanto à exposição que temos conseguido, pensamos que se deve, também, ao facto de sermos suficientemente exigentes e bastante criteriosos com o que apresentamos, acompanhados em todos os processos por pessoas que admiramos, mas tomando as decisões sempre de forma independente e genuína.
PR - “No próximo dia 18 e 19 de outubro apresentam “Killed a man in a field” respetivamente no Sabotage Club (Lisboa) e no Barracuda Clube de Roque (Porto). O que é que o público pode esperar destes concertos?
LOLA LOLA - Tanto em Lisboa como no Porto iremos celebrar o lançamento do nosso quarto single com um alinhamento dirigido à pista de dança, com calor, suor e rock ‘n’ roll. Serão duas noites que irão durar até o sol raiar, uma vez que no Sabotage estaremos na festa atómica “Chills & Fever” e no Barracuda com os djs da Chaputa! Records (Esgar Acelerado e Themoteo Suspiro).
PR - Numa frase como caracterizariam este ““Killed a Man in a Field”?
LOLA LOLA - É mais um pedaço da nossa história que queremos muito partilhar.
A poucos dias de se apresentarem na Sociedade Harmonia Eborense, recebemos hoje em "Discurso Direto" a banda de rock progressivo Sopas de Chavalo Cansado, Portugal Rebelde - Mais que uma banda, os Sopas de Chavalo Cansado são um colectivo artístico. Querem explicar um pouco melhor esta ideia?
Sopas de Chavalo Cansado - A ideia de colectivo artístico prende-se com o facto de estarmos abertos a colaborar com artistas de outras áreas para enriquecer o nosso projeto. Dessa abertura surgiram colaborações ao nível da escrita (letras), realização de vídeos, fotografia, trabalho de estúdio, ou até mesmo pintura e desenho aplicados ao nosso merchandising. Basta pesquisar online para identificar os artistas do colectivo e ouvir o nosso trabalho para perceber a sua influência.
PR - A banda sofreu nos últimos anos algumas mudanças com a saída e entrada de novos elementos. De alguma forma isto abalou o processo criativo da banda?
Sopas de Chavalo Cansado - Abalou sim, mas positivamente. Se por um lado, estas mudanças abrandaram o desenvolvimento de novos temas, por outro, ajudaram a refinar o nosso som, a reflectir sobre os temas já feitos, elevando-nos para outro patamar. Hoje já nem pensamos nisso, estamos juntos há mais de 3 anos, já gravámos um álbum e só pensamos em gravar outro no próximo ano.
PR - Depois do álbum “Forte” lançado em 2018, já estão a preparar em novas canções?
Sopas de Chavalo Cansado - Sim, canções que preencherão o nosso próximo álbum. Com o “Forte", criámos uma identidade, agora estamos mais soltos e podemos compor mais livremente, o que nos tem dado bastante gozo. A amizade também tem aumentado e esse fertilizante só dá bons frutos. Em Évora, juntamente com o “Forte”, vamos apresentar três temas novos.
PR - Sentem que os Sopas estão mais maduros musicalmente?
Sopas de Chavalo Cansado - Acreditamos que sim. Ao longo destes anos temos vindo a aprimorar aquilo que apelidamos de “som Sopas”: uma sonoridade audaz e irreverente que, tendo como base estruturas musicais semelhantes à do rock progressivo, vai buscar influências às mais diversas derivações do rock, seja ele punk, post ou alternativo. Em cada música procuramos abordar assuntos e sensações diferentes, de forma, a que cada uma seja singular, tentando ao mesmo tempo que todas elas façam sentido dentro do mesmo universo musical. Por essa razão, tanto os instrumentais como as letras são pensados ao pormenor.
PR - “No próximo dia 21 de Setembro apresentam na Sociedade Harmonia Eborense (Évora), o álbum “Forte”. O que é que o público pode esperar deste concerto?
Sopas de Chavalo Cansado - Quem assiste a um concerto de Sopas vai sentir. Vai sentir que viaja, que é rápido mas apetece dançar, vai sentir letras que derretem aparências, vai sentir irreverência, vai sentir cumplicidade. Sabemos que Évora sempre foi um lugar de Cultura, por isso estamos bastante ansiosos por mostrar lá o nosso trabalho, ainda mais numa sala como a S.H.E. A somar a tudo isto ainda há aquele gostinho especial que sentimos sempre que tocamos fora da grande Lisboa. Resumindo, tem todos os ingredientes para ser muito bom.
A poucos dias do arranque da primeira edição do Lisbon Connection Fest, recebemos hoje em "Discurso Dierto" Pedro Gallhóz, um dos elementos da organização deste Festival, que se realiza nos próximos dias 27 e 28 de Setembro, no Palácio Baldaya em Lisboa.
Portugal Rebelde - O Lisboa Connection Fest é um Festival pensado para um público que se revê no espírito dos Blues, que aprecia songwriters e Folk Music?
Pedro Galhóz - O LCF nasce da necessidade de dar resposta a um público que tem vindo a perguntar o porquê de haver festivais de Blues & Folk em tantos locais e Lisboa não ter ainda o seu Festival. Com abertura de portas pelas 16.00h e concertos das 17.00h ás 23.50h, está criado um festival que dará certamente resposta a este publico.
PR - Para além dos artistas nacionais, o Lisboa Connection Fest conta com alguns talentos internacionais. Quer falar-nos um pouco dos artistas em destaque neste Festival?
Pedro Galhóz - Gostaria de começar por apresentar o Martin Harley que é atualmente considerado um dos melhores artistas de Acoustic Blues, tenho a certeza que será uma das grande surpresas do festival. O Chino & The Big Bet, já é conhecido de uma grande parte do publico de blues, pois já marcou presença em grande parte do circuito de festivais nacionais e internacionais de Blues, é sempre uma aposta ganha. Os Bayou Moonshiners trazem de Itália o espírito de New Orleans e tenho a certeza que vão meter toda a gente a cantar e dançar.
PR - Este evento, de alguma maneira faz a ponte para as celebrações do Dia Mundial da Música que acontecem no dia 1 de Outubro. As datas escolhidas tiveram este facto em conta?
Pedro Galhóz - Sem dúvida que sim, pretendemos aqui acima de tudo valorizar a música enquanto arte e os músicos enquanto artistas e protagonistas deste festival. O dia mundial da música é um símbolo importante para a arte de uma forma geral e poder celebrar este dia com um evento tão especial é um orgulho
PR - Os concertos do Lisboa Connection Fest vão acontecer no Palácio Baldaya. Este é o espaço perfeito para um evento desta dimensão?
Pedro Galhóz - Pretendemos que este seja um festival com ambiente familiar, e o jardim do palácio Baldaya é sem dúvida um dos locais mais apelativos de Lisboa para este tipo de evento. Não pretendemos tornar este festival num festival de grande dimensão e em conjunto com a Junta de Freguesia de Benfica elegemos este como o espaço ideal para os nossos objetivos.
PR - Para terminar, peço-lhe que me dê 3 boas razões para que ninguém falte ao Lisbon Connection Fest nos dias 27 e 28 de Setembro.
Pedro Galhóz - O facto de ser a primeira edição e simultaneamente uma resposta a uma lacuna que havia numa grande capital europeia. O cartaz artístico, que consegue fazer coabitar artistas consagrados, novos talentos nacionais e internacionais. O Bairro de Benfica assume-se como “O Bairro da Música”, portanto, para nós não existe melhor lugar para um festival que também celebra a música acima de tudo. O conforto e a singularidade do palácio Baldaya são sem dúvida um grande convite para todos virem viver a música e passar um bom bocado.
Chega amanhã aos cinemas VARIAÇÕES um filme que retrata a vida de António Ribeiro, barbeiro e figura da movida lisboeta no final dos anos 70, perseguindo o seu sonho de se tornar cantor e compositor, apesar de não saber uma nota de música. O filme foca o processo de transformação na persona de António Variações, artista excêntrico e popular cuja carreira fulgurante foi interrompida pela sua morte em 1984. O Portugal Rebelde partilha hoje uma entrevista realizada por Elsa Garcia a João Maia, realizador do filme VARIAÇÕES.
"Começámos a entrevista ao som de Golden Brown dos Stranglers e numa longa conversa João foi revelando toda a história por detrás de Variações e as nuances que levaram à criação deste grande filme que estreia amanhã nos cinemas."
Elsa Garcia - Tantos anos depois como é que te sentes ao ver o teu sonho concretizado? Foram oito anos certo?
João Maia - Comecei a escrita há 15 anos e estou muito feliz com o resultado. O filme é muito credível ao nível da época, as equipas de guarda-roupa e a direção de arte fizeram um trabalho fantástico, bem como gosto imenso da fotografia. Desta equipa o André Szankowski era a pessoa que eu conhecia há mais tempo e já tínhamos falado sobre o filme há mais de 10 anos. Depois concentrei-me nas personagens e após vero filme terminado sinto que mexe com as pessoas.
EG - Como surgiu o teu interesse por António Variações?
João Maia - Bom, eu queria fazer um filme sobre o que era o rock português nos anos 80, quando era ainda um adolescente e tinha amigos que tocavam em bandas, como por exemplo os Peste & Sida. Gostava muito de rock e interessei-me pelo Variações. Trabalhei durante muitos anos em lojas de discos, mas conhecia mal a obra dele e quando comecei a ouvir fiquei muito impressionado, até pelo facto de ele ter gravado o primeiro disco com 37 anos. E pensei: “o que é que este homem terá feito até aos 37 anos para ter gravado um disco com esta idade e ter morrido aos 39?” Ouvi tudo com atenção e comecei a minha pesquisa. Havia muito pouca informação, sabia-se que nasceu em Braga, que era barbeiro e que tinha vivido em Amesterdão. Portanto, eu andei meses e meses a pesquisar sobre ele, sem saber que história ia contar.
EG - Como é que foi o teu processo de pesquisa?
João Maia - Na altura inicial fui apoiado pelo ICA e fiz a minha pesquisa com Catarina Portas. Demorei dois anos a escrever a primeira proposta e estive a pesquisar durante cerca de um ano. Só na hemeroteca estive vários meses, todos os dias a ver jornal a jornal. Havia algumas informações que ninguém tinha encontrado. Por exemplo, dizia-se que ele tinha posto um anúncio a procurar músicos e eu encontrei esse anúncio. Essa parte foi também muito importante para me situar na época, o ano de 1977, quando ele regressa a Portugal. Fiz a minha pesquisa até 1985, tendo ele morrido em 1984, um pouco para perceber a espuma do que aconteceu após a sua morte. A Hemeroteca fez com que eu enquadrasse a época, porque em 1977 eu tinha nove anos. Depois fomos começando a entrevistar pessoas á medida que íamos construindo a sua cronologia. Quando as peças se começaram a encaixar foi quando eu comecei realmente a escrever a parte que me interessava: entre ele vir de Amesterdão e fazer o primeiro disco. No final não chegámos ao primeiro disco, foi um bocadinho antes, quando ele deu o primeiro concerto no Trumps.
RG - Falaste com a família dele logo no início do processo?
Sim, sim. Falei com os irmãos, a mãe tinha morrido recentemente, talvez dois meses antes. Eu lembro-me que os irmãos ainda se comoviam muito quando falavam dela. Seguidamente falei com alguns músicos que tocaram com ele, como o Pedro Ayres Magalhães, Vítor Rua e Ricardo Camacho, que também já morreu. Depois começámos a ir mais fundo e falei com os colegas cabeleireiros para saber como foi o percurso profissional dele quando chegou a Portugal.Até abrir o seu próprio salão. Sim. Ele era uma pessoa experiente mas muito desorganizada com o dinheiro. Gastava-o todo em viagens e abriu a sua própria barbearia para ter mais tempo para a música. Em determinado momento começou a investir mais na música, a comprar microfones, etc. Mas, no entanto, ele não tinha conhecimento musical, não sabia compor e não sabia ler uma pauta, uma realidade que transmites muito bem no filme.Sim, ele não tinha conhecimento musical a nível técnico, só tinha o intuito e aquele grande dom natural.
EG - Foram os Heróis do Mar, GNR e Sétima Legião que o ajudaram, certo?
João Maia - O single foi feito pelo Ricardo Camacho dos Sétima Legião e foi um sucesso instantâneo. Era inevitável fazer o primeiro álbum, Anjo da Guarda, em que Vítor Rua e Tóli César Machado, dos GNR estiveram envolvidos como arranjadores e produtores. Entretanto alguns desentendimentos levaram à saída de Vítor Rua dos GNR e as gravações foram retomadas mais tarde sob a supervisão de José Moz Carrapa. Já o segundo disco Dar e Receber foi feito pelos Heróis do Mar, uma banda que Variações gostava muito. Lembro-me de ele a cantar Povo que Lavas no Rio da Amália Rodrigues (a sua maior referência) e Estou Além na televisão. Mas antes disso ele já tinha as suas cassetes que mostrava a várias pessoas. Sim, as cassetes no fundo tinham apenas a sua voz. Ele tocava com alguns músicos amadores, que ia descobrindo, e havia cassetes que já tinham alguns arranjos musicais. Nas cassetes já se nota que,embora ele não tivesse um conhecimento musical técnico, tinha noções de ritmo e de como gostaria que as músicas ficassem como é exemplo O Corpo é que Paga. A voz era o seu instrumento e ele colocava a melodia toda com só com a voz. Algo também importante é o teu papel didático na formação de gerações mais novas que na verdade, não têm um grande conhecimento acerca de quem foi António Variações e sobre o que esta excêntrica personagem representou para a nossa cultura. Naquela época Variações fez a exceção. Sim, era uma personagem que fazia parte do mundo underground lisboeta e que só após a gravação do primeiro disco se tornou conhecida do grande público, das crianças aos idosos. Foi um sucesso, mas no entanto eu não estava à espera que tanta gente soubesse quem foi António Variações. Em algumas das zonas onde filmámos vários miúdos vinham ao nosso encontro dizendo que os avós eram fãs.
EG - E, como é que surge o ator Sérgio Praia?
João Maia - Este filme esteve em pré-produção há dez anos atrás e o Sérgio foi o primeiro ator do primeiro dia de casting, o que deixou um bocadinho em “maus lençóis” todos os outros que se seguiram. (risos). O Sérgio tem uma enorme semelhança com António. Sim, tem uma parecença muito grande e algo que prezei desde logo foi o timbre de voz. Desde o início que achei que ele podia cantar, embora o Sérgio não acreditasse, uma vez que nunca cantou na vida. Mas cantou no filme. Sim, e depois gostei muito da sua linguagem corporal, do dançar. Bom ele reunia uma série de caraterísticas que o tornaram imbatível desde a primeira hora. Na altura era um ator ainda recente e só tinha feito teatro.
EG - Como é que pensaste o filme formalmente?
João Maia - Uma das coisas que pensei desde logo foi na questão do ator principal cantar. Sempre achei que ia compor o filme e que teria peso. A ideia de alguém que passa o dia cantarolar, com uma música na cabeça, e que à noite chega a casa e não bebe, não fuma, não se droga. Esta era a base e eu nunca me quis afastar muito desta ideia. Sempre quis que fosse um filme muito simples e que desde muito cedo me perguntassem o que era o filme: “um barbeiro que queria ser cantor”.
EG - Falemos agora da cena do Trumps, uma cena particularmente impressionante não só ao nível estético, mas também ao nível de carga emocional pois afinal foi o seu primeiro concerto. Eu tive acesso a uma cassete com o concerto e pesquisei as descrições do que as pessoas disseram do concerto. Disseram que ele nunca teve verdadeiramente uma banda e que fez alguns concertos. Relacionado ainda com o Trumps, como descobriste a relação de António com Fernando Ataíde?
João Maia - Foi uma relação muito forte. Aliás até tenho uma pergunta sobre isso: o António que mente, foge e desaparece, mas que pede desculpa em simultâneo. Ele era muito solitário e tinha alguma dificuldade em ter relacionamentos. As duas únicas pessoas com que ele teve relacionamentos foram Jelle, o namorado holandês e Fernando. Quando iniciei a minha pesquisa a falar com pessoas que ele conhecia mais intimamente, todos me falavam de Jelle, Fernando Ataíde e Rosa Maria, a mulher do Ataíde depois de ele e António se terem separado. No filme apercebemo-nos de um certo trio entre António, Fernando e Rosa Maria. A Rosa fechava os olhos à relação deles, embora se apercebesse do que se passava? Mais ou menos. Ela era mais nova do que eles e apaixonou-se pelo Fernando. Os três faziam vida como se fossem familiares, iam à praia e faziam imensos programas. O António e o Fernando tinham vivido juntos uma série de anos e todos diziam que eles eram o amor da vida um do outro.
EG - No filme a história entre António e Fernando é muito forte. Como é que achas que a comunidade LGBT vai reagir ao filme?
João Maia - Acho que vai reagir muito bem. É uma história de amor muito bonita e sinto que o filme é muito comovente quando chega à parte final. Eu escrevi e reescrevi o guião várias vezes, mas há duas cenas que sempre mantive, a inicial quando ele corta a mão para sair da aldeia e as duas cenas finais.
EG - O início do filme começa com uma deslocação temporal do passado para o presente (uma analepse). Qual foi o teu objetivo?
João Maia - Achei que era importante logo no início do filme sabermos de onde é que ele vem. Importante também a forma como acaba com a digressão em que ele vai para a aldeia, onde nasceu, com o Fernando. Achei que seria muito forte filmá-lo novamente em Fiscal e desta vez a mostrá-la ao amor da sua vida.
EG - Achas que ele era inseguro?
João Maia - Sim, sim. Era seguro em algumas coisas, mas artisticamente tinha muitas inseguranças que se vêem exatamente no reportório que é muito honesto. A canção até podia correr mal, mas ele não estava a enganar ninguém.
EG - Em que cassete ou canção vês mais o António?
João Maia - No Visões Ficções.
EG - Vai agora sair um disco resultante do filme. Fala-me sobre Isso?
João Maia - Desde que percebi que havia a possibilidade de ser o ator a cantar os novos arranjos (executados por Armando Teixeira/Balla), achei que havia uma possibilidade de reinventar. O público está interessado nestes novos arranjos que Variações tinha na cabeça antes de começar a gravar, antes de ser famoso. São basicamente os arranjos do filme, mas com uma maior densidade de estúdio em músicas cantadas pelo Sérgio Praia. Vai ser editado pela Sony Music Portugal.
EG - Achas possível o ressurgimento de uma figura como António Variações?
João Maia - Possível é sempre possível. Nós fazemos o nosso destino. Portanto, alguém que ache que tem o sonho de fazer algo diferente, tem sempre essa possibilidade.
EG - Que ambições tens para o filme?
João Maia - Gostava que o filme tivesse muitos espetadores, para que as pessoas se apercebam da força de António. Ele foi muito forte, viajou imenso, tinha imenso jeito para a música. Não acho que fosse um génio, acho que era um tipo que sabia o que queria. Tinha jeito para trabalhar a melodia, as palavras, os refrões. Era uma pessoa comum, com uma sensibilidade muito grande e com um sonho para realizar. Quero muito que o filme lhe preste uma homenagem. O António foi um artista muito popular na época, e gostava que o filme fosse visto tanto pelos seus fãs como pelos mais novos. Portanto queria que a reação do público fosse transversal e gostava que tivesse alguma repercussão lá fora.
Depois de um álbum duplo cheio de convidados em Maio do ano passado, The Dirty Coal Train voltam 180 graus e apontam novamente agulhas noutra direcção: um LP em formato trio gravado maioritariamente ao vivo com overdubs de voz pontuais, em 2 dias em São Paulo, Brasil, durante uma das suas tours pela América do Sul. O duo levou algumas ideias para trabalhar com Marky Wildstone (Dead Rocks, uma das primeiras bandas surf rock do Brasil, e The Mings, projecto com o Holandês Dead Elvis e o inglês Hipbone Slim) e captar tudo do modo mais cru e direto possível por Luís Tissot (produtor e músico na cena lo-fi e punk de garagem brasileira e argentina: Backseat Drivers, Human Trash, Jazz Beat Committee, Jesus & The Groupies, Thee Dirty Rats, Fabulous Go-Go Boy From Alabama). Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues são hoje meus convidados em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - Como é que surgiu a oportunidade para gravar este disco em S. Paulo, no Brasil?
Dirty Coal Train - Durante a primeira tour no Brasil quando tocámos em São Paulo e dormimos no Caffeine aproveitámos logo para gravar uns temas que se viriam a transformar no 7" Spaceship to Cucujães". Gostámos muito do modo natural de trabalhar do Luís Tissot e ficámos a namorar essa ideia de gravar lá um álbum com esse feeling de "ao vivo em estúdio" com o Marky na bateria. O único tema que não foi gravado nessa onda foi o "dead end street" em que gravámos com caixa de ritmos e que serve para quebrar um pouco a homogeneidade do disco.
PR - O álbum “Primitive” é composto por 23 faixas, havendo espaço ainda para 4 versões (para originais dos The Shandells, Dead Moon, Thee Mighty Caesars e Murphy & the Mob).De alguma forma estas versões servem como “guia” para o universo deste disco?
Dirty Coal Train - Escolhemos sempre temas de que gostamos muito mas neste caso especifico são todos temas bem "primitivos", seja pela temática do próprio tema como é o caso do "go go gorilla" ou pelo som cru e primitivo das bandas como é o caso dos Dead Moon, de todas as bandas de Billy Childish (incluindo os Mighty Caesars) e dos Murphy & the Mob e as restantes bandas que integram os diversos volumes de "Back from the Grave". Para além de querermos abordar questões ambientais e politicas que se viviam no Brasil aquando da gravação e que se agudizaram muito entretanto, tentámos que o álbum espelhasse uma abordagem bem mais crua ao rock que a que fizemos no "Portuguese Freakshow". Um pouco como se fosse o reverso da medalha desse disco!
PR - Depois deste “Primitive” gravaram recentemente 3 temas que farão parte de uma compilação da Lux Records. Querem falar-nos das vossas escolhas para este disco?
Dirty Coal Train - O Rui da Lux convidou-nos para gravarmos 3 versões e nós decidimos aproveitar para irmos a 3 temas que gostamos muito e ao mesmo tempo fugir dos nomes do rock que todos estão sempre à espera que toquemos (a trilogia Cramps, Dead Moon e Stooges por exemplo). Não queremos revelar tudo mas podemos dizer que gravámos um tema de Captain Beefheart, um de Prince e um de José Mário Branco. São 3 músicos excepcionais de que gostamos e qualquer um deles bem fora do rock mais quadrado que é o cerne da nossa habitual base de trabalho. Embora tenhamos um gosto imenso em formulas simples também gostamos de alterar as regras de vez em quando e achamos que as coisas se forem espontâneas e feitas com gosto quase sempre resultam. Esperamos não ser esta a excepção!
PR - Um concerto para os Dirty Coal Train será sempre um momento de celebração, catarse e partilha?
Dirty Coal Train - Esperamos bem que sim! Por vezes já sentimos a idade a pesar um pouco ao fim daquela cambalhota ou depois de aquela queda mas não imaginamos um concerto nosso que não seja uma festa de amigos.
PR - Para terminar, o rock´n´roll continua vivo?
Dirty Coal Train - O punk morreu quando os Pistols acabaram ou porque uma banda de 77 assinou com uma multinacional? Mas se calhar foi nessa altura que apareceram os Crass e os Subhumans e ... e na 1ª vez que o rock morreu andavam por aí os Gories e os Oblivians e uns fedelhos nos concertos das 2 bandas que fizeram os White Stripes e os Strokes e.... ou seja: é uma questão de para onde olhar e do que a massa crítica/rádio jokeys/ malta que selecciona vídeos num canal/... achou de inovador. Um exemplo prático: qual o melhor álbum dos The Fall? É sempre uma "trick question": são todos do caraças, depende mais de quem ouve e quando! Se estás farto de ouvir the fall vais ouvir oura coisa, mas o disco que acabou de sair quando pegares nele com mais calma vais ver que está dentro do que sempre fizeram e nem por isso é pior que os outros! O rock quando muito deixou de ser mainstream como foi nos 70's, 80's e 90's. Mas "O rock morreu"? Só para quem nunca gostou ou para quem está a precisar de um tira-palato!
Moksha Sound Journeys é umprojeto musical criado em 2017, que tem como elementos base Ivan Cristiano, Bruno Teixeira, Flutist Sunil Pariyar e Hugo Edgar. Ao vivo, os concertos resultam num encontro entre a música, o movimento e a meditação, e visam alcançar uma outra forma de escuta, mais atenta, onde cada um de nós poderá observar e vivenciar níveis mais profundos de presença e consciência, através do poder do som e da viagem sonora. Hoje em "Discurso Direto" são meus convidados Moksha Sound Journeys.
Portugal Rebelde - Antes de mais, onde e quando é que os Moksha Sound Journeys começaram a dar os primeiros “passos” nesta viagem sonora?
Ivan Cristiano - Tudo começou com um convite que me fizeram para animar o Doming`out (evento que ocorria todos os Domingos no Parque Urbano Da Costa Da Caparica em 2017). O Bruno que morava em Gaia, vinha passar o fim de semana a Almada, ligou-me para me dar um abraço e falei-lhe que ia tocar com um “Rav Vast” à Costa Da Caparica, ao que ele me responde!! - Posso juntar-me a ti nessa jam??? Correu muito bem e duas semanas a seguir foi o Bruno que me levou a tocar com ele no “Being Gathering Festival” na Boom Land em Idanha-à-Nova, só com dois ensaios e meio, foi um sucesso. Nasciam então os Moksha Sound Journeys. Demos alguns concertos só os dois, mas mais tarde juntava-se a nós o Sunil, um flautista do Nepal que domina a flauta Bansuri como um génio. Mais recentemente convidámos Hugo Edgar, um “senhor” na guitarra portuguesa que veio dar um colorido tipo “cereja em cima do bolo”.
PR - Moksha, refere-se, em termos gerais, à libertação do ciclo do renascimento e à iluminação espiritual. É isto que procuram com a vossa música?
Bruno Teixeira - Nesta vida,o ciclo de renascimento e a iluminação espiritual, está relacionado com a libertação da ignorância, isto é, dos padrões auto-limitativos e com a inconsciência acerca da nossa identidade essencial. Sendo a nossa música mais um encontro que uma procura, diríamos que, do seio da nossa amizade, sinergia, sensibilidade e filosofia, surge o convite a quem nos ouve e sente, de se testemunharem e vivenciarem, inspirarem e libertarem de tudo o que contraria o encontro connosco mesmo, uns com os outros e com tudo em absoluto.
PR - A par deste projeto, o Ivan Cristiano é baterista na banda UHF. Como é que um homem do rock vive um projeto mais ligado à meditação?
Ivan Cristiano - Sou um homem do Rock, mas acima de tudo sou um homem da Música e não vejo a vida como uma barreira estereotipada com estilos definidos. Ser músico também é ser-se livre e “Moksha” é isso mesmo. À parte dos UHF não fazia sentido fazer outros projetos rock, nunca fez, aliás, recusei alguns…mas com os “Moksha” é diferente, acrescenta-me algo, é um extensão de mim que vem da alma, vive-se muito do improviso, tocamos para a Terra, par o Ar, para o Fogo e para a Água, não tocamos para a Rádio e isso alegra-nos.
PR - O que é que o publico pode esperar de um concerto dos Moksha Sound Journeys?
Ivan Cristiano/Bruno Teixeira - Uma viagem musical com múltiplos instrumentos exóticos acústicos desde Handpans, Rav Vast, Didgeridoo, Flauta Bansuri, Guitarra Portuguesa, Gatham, ocean drum, wind effects, Gongos, Cajon, Taças Tibetanas, enfim, uma parafernália de instrumentos que resultam num encontro entre a música e a meditação, e visam alcançar uma outra forma de escuta, mais atenta, onde cada um de nós poderá observar e vivenciar níveis mais profundos de presença e consciência. PR - Para terminar, há planos a curto prazo para a edição do primeiro disco?
Ivan Cristiano - Planos a curto prazo? A curto e a longo prazo. Dizemos uns aos outros em tom de brincadeira que isto é um projeto para a vida e para envelhecermos juntos. Em relação ao disco, ainda este ano vamos entrar em estúdio para depois editar em 2020. Estamos numa fase de novos arranjos, agora com mais um instrumento que é a guitarra portuguesa e que veio dar outra cor aos Moksha Sound Journeys. Em relação a concertos, vamos estar já amanhã no Darksky Alqueva party em Alqueva (Campinho) e no dia 31 de Agosto estamos na 15 edição do festival de DIDGERIDOO, FATT (Tavira, Algarve).
OMIRI é um dos projetos de reinvenção mais originais da música tradicional portuguesa. Fundado por Vasco Ribeiro Casais, OMIRI é uma mistura de folk tradicional com música eletrónica. Vasco Ribeiro Casais toca viola Braguesa, Gaita de Foles, Bouzouki Português, Cavaquinho e Nyckelharpa. O seu novo disco, "Alentejo Vol.I: Évora", é composto por 13 temas, criados por auxílio de pesquisas realizadas no concelho de Évora, e vem acompanhado por um livro de 80 páginas com textos dessas mesmas recolhas, das letras das músicas e de fotografias. Vasco Ribeiro Casais, o mentor do projeto é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - Antes de mais, como é que surgiu a ideia de dedicar este novo disco ao Alentejo e em particular a Évora?
Vasco Ribeiro Casais - A ideia deste disco surgiu de um convite por parte do Luís Garcia da Câmara de Évora para apresentar no Artes à Rua um espectáculo único. Com o desenvolvimento da ideia fazia sentido fazer um disco, um livro e um documentário tudo dedicado ao concelho de Évora.
PR - No álbum “Baile Electrónico” que antecedeu este disco, as recolhas foram feitas pelo Tiago Pereira da “Música Portuguesas a Gostar Dela Própria”. Em “Alentejo Vol.1: Évora” assumiste todas as recolhas. Queres contar-nos um pouco desta nova “experiência”?
Vasco Ribeiro Casais - Ao fazer vários concertos comecei a aperceber-me que não conhecia as pessoas que estavam nos vídeos e, comecei a pensar que seria muito mais interessante e genuíno se as conhecesse pessoalmente assim como as estórias que têm para contar. O Tiago grava muito bem, tanto a parte do video como o som e é difícil estar ao nível (acho que ainda vou levar alguns anos) mas, o que ganho em estar com as pessoas é muito mais. Foi realmente uma experiência muito boa e que é para continuar.
PR - Neste trabalho, recuperas várias tradições do Alentejo, que não apenas a música. Sentes que estas “tradições” ainda resistem em Évora?
Vasco Ribeiro Casais - Vão resistindo. Em Évora e em todo o lado as coisas vão mudando e é mesmo assim, cada vez é mais difícil encontrar um sapateiro sem máquinas ou um carpinteiro que pregue pregos com martelo mas, ainda há muitas tradições vivas.
PR - Podemos dizer que OMIRI de alguma forma “renova” a tradição?
Vasco Ribeiro Casais - A tradição renova-se a si própria com a mudança nas pessoas. O que faço é apenas dar a minha visão dessas tradições e de alguma forma levar essas tradições a públicos que se encontram distantes delas.
PR - O que é que Évora tem de especial para lhe teres dedicado este primeiro volume?
Vasco Ribeiro Casais - Évora tem tudo de especial. Neste caso foi a vida que me levou a este volume e o resultado foi um espectáculo de Évora para Évora e um disco/ livro de Évora para o mundo.
PR - Num próximo trabalho vais continuar a incursão pelo Alentejo?
Vasco Ribeiro Casais - Sim, se em Évora ainda fiquei com material para fazer mais um volume, imagina o que o resto do Alentejo tem ainda para nos oferecer.
PR - Para terminar, este ano vais estar presente na Festa do Avante. O que é que o público pode esperar deste concerto?
Vasco Ribeiro Casais - O concerto do Avante vai ser o primeiro desta nova fase de Omiri, com um palco novo e com os novos temas. Em Évora toquei o disco novo todo mas num contexto extraordinário, com os vídeos projectados nas fachadas dos edifícios da Praça do Sertório e com muitos convidados. No Avante vou tocar alguns temas mais antigos misturados com temas novos, alguns temas com arranjos novos e com novas abordagens aos vídeos.
Imaginem um triciclo no alto de uma duna, a ver o mar, a sentir o sol quente nas rodas pintalgadas de areia, com uma certa comichão no volante por causa da humidade salgada, e a pensar: “Apetece-me apanhar o próximo barco para Marte e desviá-lo até ao centro do Sol”. É mais ou menos isto que os Tricycles são. Uma coisa vagamente improvável, um conjunto de kidadults de rumo duvidoso mas com histórias para contar, cheias de pessoas que poderiam existir. E de facto existem, em calmas músicas prontas a explodir, lentamente, a mil à hora, com suavidade, ou em rugidos de guitarras zangadas e pianos falsamente corteses, de rudes baixos a conversar com educadas baterias. Os Tricycles são: o João Taborda (António Olaio & João Taborda), o Afonso Almeida (Cosmic City Blues, Sequoia), o Edgar Gomes (Terb) e o Sérgio Dias. Com um disco de estreia homónimo acaba de de sair, os Tricycles são hoje meus convidados em "Discurso Direto" para uma conversa que se deseja que corra sobre rodas e a diferentes velocidades. PR - Antes de mais, quando e porque razão os “tricycles” começaram a ser fabricados?
Tricycles - As peças juntaram-se em 2014. Ou seja, os tricycles começaram a ser fabricados nesse ano. Estamos em 2019 e as peças continuam as mesmas, o que significa que estão bastante mais oleadas e conseguem uma boa velocidade sem derrapar. A pergunta é boa, porque é possível de responder. Se nos perguntassem uma uma data de fabrico, não teríamos resposta. Quando é que uma banda está verdadeiramente fabricada? Nunca. Vai-se fabricando.
PR - Os tricycles assumem-se como uma banda de estúdio ou é no palco onde o público e a banda comungam raivas e melodias, se sentem realizados?
Tricycles - As duas coisas complementam-se. Realização é uma palavra muito forte. Mas temos um prazer grande em estúdio e no palco, embora de maneiras diferentes. No estúdio há uma brincadeira criativa que dá muito gozo, mas também uma enorme responsabilidade, porque sabemos que estamos a criar uma coisa que queremos que fique, que marque. A palavra “gravar” implica algo que fica para o futuro e, se é para ficar, que valha a pena. O palco é o momento, a partilha com os outros, a interação, o gozo de passear no abismo da exposição pública!
PR - Qual tema que melhor caracteriza o “espírito” deste primeiro disco?
Tricycles - Esta sim, é uma pergunta impossível de responder, num disco feito de muitos espíritos e fantasmas e reflexos. Para não te deixar sem resposta, vamos pelo óbvio, o “All the mornings”, simplesmente porque foi o que escolhemos para primeiro single, para primeira música do disco e porque, de certa forma, reflecte a heterogeneidade do próprio disco.
PR - Os Tricycles gostam de andar na estrada, como qualquer veículo digno desse nome. O que é que o publico pode esperar de um concerto vosso?
Tricycles - O que o público não pode esperar é monotonia.
PR - Para terminar, numa frase como caracterizariam este disco de estreia?
A big band Bixiga 70 é formada por destacados nomes da cena instrumental da cidade de São Paulo. A sua épica intensidade sonora, o bombardeio rítmico e as fortes raízes brasileiras misturadas com funk, samba-jazz, reggae e afrobeat, calcados em mix de metais, guitarra e percussão, fazem do coletivo um caldeirão sonoro. A energia contagiante rendeu ao coletivo o 25º Prémio da Música brasileira, na categoria “Revelação”, em 2014. Bixiga 70 lançou em 2018, o seu quarto álbum “Quebra-Cabeça”. O MIMO Festival Amarante é uma das próximas paragens do grupo. O concerto está agendado para o próximo dia 26 de Julho, no Parque Ribeirinho a partir das 21.30h. Daniel Gralha, trompetista da Bixiga 70 é hoje meu convidado em Discurso Direto.
Portugal Rebelde - Fortes raízes brasileiras misturadas com funk, samba-jazz, reggae e afrobeat, calcados em mix de metais, guitarra e percussão. É esta a “receita” do coletivo para o caldeirão sonoro que nos apresentam?
Daniel Gralha - Basicamente essa é a receita, mas o facto é que cada um de nós teve um percurso muito próprio dentro da música que se faz em São Paulo ao longo das últimas duas décadas e, apesar de muitas vezes os caminhos se terem alinhado e termos integrado projetos em comum, a gente sentiu que à partir do processo do segundo disco essa vivência individual de cada um passou a ser a referência maior pro nosso som. Bixiga 70 é o laboratório onde os 9 músicos dividem a síntese dessa pesquisa e dessa bagagem numa constante troca, de forma horizontal, e com total liberdade de expressão. quando nos fechamos para compor qualquer um pode sugerir o ponto de partida, ou um redirecionamento, uma ponte, uma parte B, uma quebra, de acordo com sua leitura. as ideias que mais contemplam o coletivo são as que perduram. É um método super caótico, intenso, rico e extremamente desafiador para cada um de nós. acredito que nesses processos sempre alcançamos o melhor de nós mesmos.
PR - A que se fica a dever a escolha de Bixiga 70 para nome da banda?
Daniel Gralha - O principal fator que torna possível a existência do grupo é o Estúdio Traquitana, onde fazemos nossos ensaios semanais e onde gravamos nossos 4 discos. Ele fica localizado na Rua Treze Maio - a mais famosa e importante do bairro, no número 70. o bairro é um caldeirão humano - nordestinos, italianos, africanos, povos latino-americanos, é uma bela fotografia do que é São Paulo. fora isso, nosso gosto em comum pela sonoridade das produções da década de setenta também pesou na escolha, é uma singela homenagem.
PR - O álbum “Quebra-cabeça” (2018) coloca uma vez mais o Bixiga no mundo e o mundo no Bixiga?
Daniel Gralha - Sem dúvida temos viajado muito nos últimos anos e dividido experiências incríveis longe de casa e isso acaba tendo um nítido impacto na nossa música, então acredito que "o mundo no Bixiga" seja uma colocação bastante verídica. colocar o Bixiga no mundo, e pelos quatro cantos do Brasil, é nossa luta quotidiana. Estamos tendo retorno muito satisfatório das pessoas que ouviram o disco e uma ótima resposta do público nos shows, então estamos confiantes.
PR - É verdade que o álbum “Quebra-cabeça” é ao mesmo tempo um passo natural no processo de amadurecimento do Bixiga 70 e um ponto de inflexão na carreira do grupo?
Daniel Gralha - A gente conversa internamente que é o nosso trabalho mais completo até agora. o método de composição foi o mesmo do disco "III" porém agora mais donos da própria linguagem, mais confiantes, e essa confiança nos permitiu arriscar um pouco mais, deixar algumas composições tomarem rumos menos comuns p´ra gente. Isso foi enriquecedor, ampliou nossos horizontes. Por essa ótica podemos sim dizer que é um ponto inflexão, mas também não podemos deixar de observar as mudanças que aconteceram no Brasil como um todo e o momento sócio-político que estávamos passando. essas questões tem uma profunda influência no nosso som.
PR - No próximo dia 26 de Julho apresentam no Festival MIMO, em Amarante o álbum “Quebra Cabeça” editado em 2018. O que é que o público português pode esperar da passagem da Bixiga 70 por este Festival?
Daniel Gralha - Um grande baile. Um show para se apreciar sem melodias e batucadas, mas principalmente uma música para se dançar, para se estar presente de corpo pulsante. Liberdade de pensamento é liberdade de movimento.
PR - Para terminar, que memórias guardam de quase 10 anos de canções?
Daniel Gralha - As memórias são muitas; shows históricos, viagens incríveis, roubadas monumentais também, figuras lendárias que tivemos o prazer de dividir o palco, grandes talentos da cena atual que pudemos conhecer de mais perto e experimentar vivências em comum. Mas a memória mais marcante talvez seja essa que se renova cada vez que subimos no palco, que é a do prazer imenso que temos em tocar juntos essa música que descobrimos em nós, e dividir isso com o público num espiral energético como foi desde o primeiro show, e como é em cada cidade que chegamos.
Lusitanian Ghosts é um coletivo de artistas que cruzam os cordofones populares portugueses (Amarantina, Beiroa, Braguesa, Campaniça, Terceira, e Toeira) com uma estética de rock n roll / singer-songwriter internacional, onde um artista sueco, Micke Ghost, toca viola Amarantina e um artista português, Omiri, toca também a Nyckleharpa, um cordofone medieval sueco. Os singles “Trailer Park Memories”, “Godspeed to You”, e “The World” antecederam o lançamento do disco debut do projeto. Hoje em "Discurso Direto" recebemos os Lusitanian Ghosts.
Portugal Rebelde - Antes de mais, como é que surgiu o projeto Lusitanian Ghosts?
Lusitanian Ghosts - Numa conversa com o meu Avô, o Mestre Adelino Leitão, em casa do meu irmão Tiago Leitão em Setúbal, ele revelou que tinha sido músico, tinha tido uma banda, Os Fatalistas, entre outros projetos; e quando ele faleceu herdei alguns cordofones… depois descobri a viola Beiroa. Comecei a tentar compor na Beiroa… criar algo mais localizado. Não me fazia sentido gravar mais um disco de rock n roll só, como já tinha feito em Toronto, Londres ou Estocolmo, mas sim um disco local, um projeto português. Comprei uma Amarantina e levei-a a Estocolmo, ofereci-a ao Micke Ghost… e aí tudo começou.
PR - Lusitanian Ghosts é um coletivo de artistas que cruzam os cordofones populares portugueses (Amarantina, Beiroa, Braguesa, Campaniça, Terceira e Toeira) com uma estética de rock n roll / singer-songwriter internacional. Estão contentes com o resultado final deste disco de estreia?
Lusitanian Ghosts - Este primeiro disco foi uma experiência - nunca se tinham cruzado todos estes cordofones num disco, muito menos num disco cantado em Inglês. O Gajo já estava a reinventar a Campaniça, o Omiri já distorcia a Braguesa, e o Abel já tinha usado a Terceira em gravações com o Guillermo, pós-Primitive… mas assim todas juntas não. Mesmo assim, começámos com uma base de “bedtracks” de rock, bateria, baixo e elétrica. Para o próximo disco, que vai ser gravado em fita evitando qualquer meio digital, vamos fazer ao contrário, começar com os cordofones mesmo. Claro que se não estivéssemos contentes não haveria “próximo disco”, haha. O Canoa e o Ricardo Ferreira fizeram um grande trabalho de gravação e produção.
PR - No passado mês de Abril, apresentaram as canções deste disco em concerto. Qual foi o “feedback” que receberam do público?
Lusitaniann Ghosts - Foi uma excelente noite. Foi a primeira vez que tocámos ao vivo, e funcionou muito bem. É uma verdadeira orquestra de cordofones, todos diferentes, com uma atitude de rock n roll, penso que surpreendeu muita gente que não sabia bem ao que ia. As críticas foram muito positivas. Estamos entusiasmados por ter conseguido, com tão poucos ensaios, apresentar tão bem o disco. Todos temos agendas complicadas para gerir, e para que Lusitanian Ghosts toque é preciso vir o Micke Ghost de Estocolmo. Esperamos conciliar agendas para tocar mais, mesmo que não seja sempre com todos os elementos do coletivo.
PR - Já confirmadas estão também atuações internacionais no Reeperbahn Festival, um dos festivais mais importantes para a indústria da música, que se realiza de 18 a 21 de Setembro, em Hamburgo, e a atuação no Live at Heart, um dos maiores festivais de showcases na Escandinávia, que se realiza de 4 a 7 de setembro, em Örebro, Suécia. Há algumas “surpresas” preparadas para estes concertos?
Lusitanian Ghosts - Todos os nossos concertos são verdadeiras surpresas! Ninguém sabe o que pode acontecer. Na Suécia contamos também com a presença do meu antigo baixista de Neil Leyton & The Ghosts, o Janne Olson. Não teremos por lá O Gajo nem Omiri, por causa dos seus próprios concertos. No Reeperbahn estaremos todos e ainda alguns potenciais convidados internacionais, por confirmar… e depois, cada concerto tocamos uma ou outra música nova, seja nossa, seja cover… em Benfica foi o “Thanks for Chicago Mr. James” de Scott Walker, que foi uma grande referência para nós em estúdio e que, entretanto, faleceu. Não sabemos qual será o setlist nem para a Suécia, nem para a Alemanha, e, entretanto, esperamos confirmar mais um concerto para Portugal.
PR - Qual é o tema que melhor caracteriza o “espírito” deste álbum?
Lusitanian Ghosts - Tema no sentido de música? Todas elas… talvez a "Past Laurels"? Ou tema no sentido de temática… vejamos, várias letras abordam uma certa mentalidade portuguesa, os tabus da nossa sociedade, a recusa em dialogar abertamente sobre o que foi na verdade a era dos descobrimentos: a escravatura. Há muita gente em Portugal com mentalidades muito fechadas…, mas as letras não apontam só o dedo às quintinhas e castelos: tiramos o chapéu à Wikipédia criticando por exemplo as velhas enciclopédias como a Britannica, que só contavam um lado da história - a dos vencedores. É um disco que espero possa incentivar o diálogo político, vá. Está na altura de defendermos a cultura, a Europa, o civismo, todos os valores humanistas que fomos conquistando ao longo do século XX e que estão mais uma vez ameaçados por este mundo fora. É um espírito positivo, afirmativo, humanista.
PR - Numa frase como caracterizariam este disco de estreia?
Lusitanian Ghosts - Uma espontânea experiência criativa inédita que promove os cordofones populares portugueses num novo contexto, para além das nossas fronteiras. Um projeto com raízes no passado, mas com uma visão futurista.
Cantora, compositora, pianista e diretora musical, Delia Fischer é dona de um currículo invejável. Com mais de 30 anos de carreira, atuou ao lado de importantes artistas brasileiros como Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Ed Motta, Marcos Valle e Pretinho da Serrinha. Delia Fischer constrói com esmero os seus álbuns a solo: foi assim com o álbum de estreia “Antonio”, em 1999, “Presente”, de 2010 e com “Saudações, Egberto”, de 2011. No próximo dia 27 de Julho, a cantora apresentará no Festival MIMO em Amarante o recém-lançado álbum “Tempo Mínimo”, onde instiga o público à discussão sobre o valor do tempo nos dias atuais, com canções que remetem à bossa nova e outros ritmos populares do seu país. Delia Fischer é hoje minha convidada em Discurso Direto.
Portugal Rebelde - É verdade, que o disco “Tempo Mínimo” acabado de editar, tem uma visão cronista?
Delia Fischer - Sim, eu diria que as crónicas aparecem em momentos diversos da vida, como na faixa “Ela Furou”, onde narro o desespero tragicómico de estar sem ajuda da acupunturista, que me esqueceu num dia de muita dor. Aparece também nos dias de carnaval, passados solitariamente na praia no “Samba Mínimo” ou na rua da infância, a que retorno, e que me reconhece nos passos da infância, na faixa “Mesmos Sons”. Diria que são crónicas poéticas, pois sempre penso na sonoridade e na musicalidade das palavras cantadas.
PR - Neste disco assina a maioria das letras. Como é que sentiu ao assumir este “papel”?
Delia Fischer - Para mim é um passo construído com muito tempo de maturação. Componho desde criança e passei por anos do exercício da musica instrumental onde o piano sempre esteve à frente do material composto. No entanto sempre li e escrevi poesia muito mais por paixão. Na escola, recebi prémios pelas redações e poemas (apesar de nunca ter me sentido segura para mostrar esse material). Durante muitos anos não via a possibilidade de juntar a letra com o som. Especialmente vindo de um país de gigantes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque e toda a tradição maravilhosa da MPB. Passei a maior parte da minha vida me aprofundando no exercício das diversas formas musicais, e nos meus primeiros álbuns de canções, trouxe grandes parceiros para carregar a palavra. Mas a canção me arrebatou e nasceu de forma totalmente espontânea nessas faixas, onde sons e palavras se casaram imediatamente sem me pedirem licença.
PR - Em Tempo Mínimo” partilha alguns temas com Ed Motta, Marcos Valle e Pretinho da Serrinha. Quer falar-nos um pouco destes duetos?
Delia Fischer - Marcos Valle é para mim um ídolo, não somente como o grande compositor e artista, mas também como ser humano. Ele me aponta sempre uma direção na forma de tratar a música, a carreira, e ainda cuidar-se e manter-se alegre e jovem, apesar dos mais de 70 anos. Marcos é um dos artistas mais joviais que já conheci, sempre em busca do novo em projetos e composições. Foi um grande encontro, como uma homenagem, mas também como inspiração. Pretinho da Serrinha me foi sugerido pelo produtor da faixa “Ela Furou” Rodrigo Tavares que, além de ter produzido, tocou também vários teclados nessa faixa. Rodrigo entendeu que eu queria que essa faixa tivesse humor e que fosse uma mistura forte com o samba e ninguém melhor que o genial Pretinho para trazer o cavaquinho, que fez a música decolar, e ainda cantar, trazendo toda a personalidade do samba. Ed Motta é meu querido amigo e irmão de muitas décadas. Tive a honra de ser sua professora de piano, de ter tocado com ele e de ter feito orquestrações para algumas de suas composições. Ed é um músico fenomenal, que não tem limites para criar nem para cantar. E esse dueto reflete a parceria, a amizade e a enorme afeição. A faixa foi escolhida por ele. “Feliz por um Triz” fala do tempo de uma emoção, da alegria momentânea, do eterno presente, passado no tempo da voz, que leva uma música à frente, e desse amor.
PR - ”Mercado”, single lançado em 2018, foi premiado Best Latin Song e Vox Populi no The Independent Music Awards, em Nova Iorque. De que é que nos fala este tema?
Delia Fischer - Essa música teve seu primeiro registo no meu álbum “Presente” e sempre achei que se mantém muito atual, justamente por falar de compra e venda, não apenas de coisas e objetos, mas dos nosso sonhos, ansiedades e amores. Nosso mundo capitalista de certa forma nos torna todos artigos de compra e venda. Revistas que vendem o sonho de se tornar magra, bela e sensual. O sonho de poder, com essas compras, conseguir conquistar o amor, aquele amor da novela e do sonho romântico. Ao mesmo tempo que faz a critica a quem quer vender tudo isso, até a própria alma. Um mercado de itens muito maiores e profundos nas nossas vidas e que não estão à venda, apesar do comércio nos querer vender essa fórmula de alegria e felicidade. Então regravei essa música, inicialmente como single. O prémio em Nova Iorque me fez perceber que essa música realmente ganhou fôlego e que merecia então entrar, pois está totalmente coerente com o tema do álbum .
PR - No próximo dia 27 de Julho há tempo para apresentar em Portugal, no Festival MIMO Amarante, o seu mais recente disco “Tempo Mínimo”. O que é que o público português pode esperar deste concerto?
Delia Fischer - Quero mostrar toda a alegria e profundidade por trás dessas faixas, que representam na verdade muito da minha trajetória na música, incluindo músicas que cantei nos musicais em que atuei e fiz a direção musical. Estarei ao lado da minha banda dos sonhos com Antonio Fischer -Band (guitarra, teclados, bateria, eletrónicas) e Matias Correa (Chapman stick, voz, percussão vocal). Com eles eu vivo e com eles escolhi fazer o som desse álbum nos palcos. Antonio é meu filho e Matias meu marido.
PR - Para terminar, que memórias guarda de 30 de anos de canções?
Delia Fischer - Acho que o som e a memória dos sons é o que me leva ao novo, então acho que isso é só o começo. Na verdade, o que me move é criar, inventar misturar no filtro dessa memória e gerar novas músicas, ideias e caminhos. Espero pelos próximos 30 anos para ficar cada dia mais ousada criativa e de certa forma jovem, porque a arte segue à frente do nosso passo, sempre à frente do que acontece. Quero que a música que trago comigo desde a infância me leve a caminhos cada dia mais intensos e profundos, contemporâneos e novos!