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16/02/2026

MARIA LEÓN | Discurso Direto

Maria León regressa em 2026 com o seu terceiro álbum a solo intitulado Brumas do Luar – Lisboa, Mar e Alma, com uma sonoridade dentro da esfera da World Music (Músicas do Mundo), dando ênfase aos instrumentos acústicos nela inseridos. Um trabalho que surge no seguimento da expressão da sua maturidade artística e procura da autenticidade. Maria León é hoje minha convidada em "Discurso Direto".

Portugal Rebelde - A que se fica a dever a escolha de “Brumas do Luar – Lisboa, Mar e Alma” para título deste novo disco? 

Maria León - Este título nasce muito do meu imaginário noturno, dado que a maior parte das canções foram compostas à noite. As “brumas” representam precisamente essas músicas, que vivem na sombra, num lugar mais interior e contemplativo. Lisboa tem a ver com as minhas origens, ao lugar onde nasci, e também a esse romantismo literário tão próprio da cidade. Independentemente de onde vivamos, o lugar onde nascemos marca-nos profundamente e faz parte da nossa identidade.O mar surge como um elemento central; fascina-me pela sua força enquanto metáfora poética que nos atravessa ao longo dos séculos. É uma presença ligada à contemplação interior e simboliza não só a nossa nacionalidade, mas também a nossa totalidade enquanto portugueses, num movimento permanente entre o sonho, a saudade e o imaginário coletivo que herdámos da nossa história e das descobertas feitas através do mar. A alma, é essa identidade mais profunda a que nos acompanha também ao longo dos séculos, esse sentir puramente português que oscila entre a melancolia, a tristeza e a alegria, emoldurada pela saudade, fé e inquietação, ilustrando também essa insatisfação permanente, como uma esperança lírica quase onírica, sobre quem somos afinal na realidade atual e quem seremos no futuro enquanto nação. Daí que quis trazer todos esses estados emocionais para o disco como pequenas histórias, quase como personagens literárias, onde o amor, em sentido figurado, é sempre o centro da poesia cantada. 

PR - No alinhamento do álbum destacam-se colaborações com Carlos Maria Trindade e Rodrigo Leão. Quer falar-nos um pouco mais dessas participações? 

Maria León - Estas participações não surgem ao acaso. Nasceram de uma vontade muito consciente de trabalhar com artistas e criadores de exceção, pessoas que conheço há muitos anos e com quem partilho afinidades humanas e artísticas. Sempre senti que compreenderiam naturalmente a linguagem estética e emocional que queria dar a este disco. O Carlos Maria Trindade assumiu a responsabilidade da maioria dos arranjos e participou também como autor/compositor de dois temas. Sou grande admiradora do seu percurso, e quis trazer para este trabalho o seu lado mais clássico e contemplativo, um lado autoral menos conhecido, mas que se encaixa perfeitamente neste universo feminino e de “alma portuguesa” que atravessa o disco. Houve uma grande sintonia emocional na forma como estas canções foram trabalhadas. Dai que nesta sequência de cumplicidades de longa data, convidei Rão Kyao, um ícone da nossa portugalidade mais tradicional, para dar um encanto especial também a um dos temas de Carlos Maria Trindade” E tão imóvel me deixo “ trazendo uma dimensão poética e intemporal acrescentando uma respiração ilustrativa muito própria no universo deste tema, assim como a participação especial de Pedro Jóia, dando uma sonoridade clássica e ibérica ao segundo tema autoral de Carlos Maria Trindade, “Ao Deus Dará”. Com o Rodrigo Leão foi, de facto, um sonho realizado. É um artista profundamente conceptual, um condensador de universos estéticos intemporais, sempre com uma portugalidade muito presente, desde a mitológica, clássica e urbana. Inicialmente eu queria interpretar um tema seu, mas acabou por surgir a oportunidade de trabalharmos juntos em coautoria, o que tornou tudo ainda mais especial, onde surgiu o tema “ Miragem” . Trabalhar dentro do seu universo, foi muito livre e inspirador, e os arranjos do Carlos Maria Trindade, criaram sem dúvida, uma belíssima simbiose artística entre estes dois mundos. 

PR - Neste álbum apresenta também temas em parceria com o seu irmão Pedro León. De que nos falam essas canções? 

Maria León - Estes dois temas escritos com o meu irmão Pedro León, canções são um pequeno espaço no disco que eu reservei ao mundo da MPB, chamado Lisboa Bossa, como regressando um pouco às origens, representando os tempos em que eu e o meu irmão vivíamos em Lisboa, em casa dos meus pais e onde ouvíamos muita música diversa, e onde um dos géneros era MPB. O meu irmão sempre teve uma ligação muito especial a esse universo, continuando, ainda hoje, a tocar muitos dos clássicos. Os dois temas falam de um amor frágil de quem se sente num estado mais frágil, quando parece que um ama mais que o outro, amores não correspondidos na mesma medida. São quase pequenos poemas narrativos, como capítulos de um livro que se têm de fechar, onde coexistem saudade, desamor e despedida. 

PR - Este disco é apresentado ao vivo no Coliseu Club, no próximo dia 15 de abril. O que é que o público pode esperar deste concerto? 

Maria León - Neste concerto quero, acima de tudo, reproduzir o espírito do disco: as emoções, os sentimentos e uma ligação direta e próxima com o público. Será um concerto intimista, onde a palavra é cantada como poesia e cada frase tem um peso emocional. Quero que o público sinta que estas histórias também poderiam ser suas, como quando se lê um livro ou se bebe um café no seu espaço privado. É um disco português, para portugueses, pensado num sentir português genuíno, sem grandes artifícios, onde os instrumentos soam de forma orgânica e natural, sem excessos de produção, privilegiando a autenticidade da nossa realidade. A sonoridade assenta na naturalidade da voz e dos instrumentos, tendo o piano clássico e o violoncelo como principais motes estéticos e instrumentais deste trabalho. Acompanham-me em concerto: Emanuel de Andrade ( Piano e direção musical) Carlos Tony Gomes ( Violoncelo) Thomas Zellner ( Guitarra Acústica) Leopoldo Gouveia ( Baixo) Sebastian Scheriff ( Percussões) - Convidados confirmados para este concerto: Carlos Maria Trindade, Pedro Jóia e Pedro León.

12/01/2026

FIRST BREATH AFTER COMA | Discurso Direto

Depois de nascer numa residência artística intensa na Casa Varela, em Pombal, e de se apresentar em dois concertos esgotados no Teatro-Cine da cidade, o projeto A Residência, criado por First Breath After Coma e Salvador Sobral, entra agora numa nova etapa. Depois da enorme procura pelas duas datas em Lisboa, agendadas para 13 e 14 de janeiro no Teatro Maria Matos, A Residência segue agora para Leiria. A cidade que viu nascer o percurso dos First Breath After Coma recebe o espetáculo no dia 17 de janeiro, às 21.30h, no Teatro José Lúcio da Silva, numa nova oportunidade de viver este encontro tão íntimo entre a banda e Salvador Sobral. Os First Breath After Coma, são hoje meus convidados em Discurso Direto. 

Portugal Rebelde - Salvador Sobral descreveu a residência como “uma experiência de liberdade criativa que não tinha sentido antes”. Querem falar-nos um pouco mais da importância desta residência artística que passaram no Pombal, durante duas semanas? 

First Breath After Coma - Para nós, foi uma experiência muito especial, sobretudo porque nos libertou de várias amarras habituais do processo criativo. Estivemos a trabalhar num contexto muito específico: um espaço de tempo curto, um lugar fora da nossa rotina e a colaboração direta com outra pessoa, neste caso o Salvador. Esse enquadramento obrigou-nos a compor de forma diferente, a tomar decisões mais rápidas e a confiar mais na intuição e no diálogo criativo. Acabou por nos forçar a reinventar a nossa maneira de fazer música, a sair de métodos já consolidados.

PR - Nos dias 13 e 14 de Janeiro, o espetáculo apresenta o resultado dessa residência artística: a recriação em palco da intimidade e da energia dessas duas semanas. O que é que o público pode esperar destes concertos? 

First Breath After Coma - A ideia, desde o início, foi recriar em palco uma espécie de sala de ensaios improvisada — um espaço íntimo, muito próximo daquilo que vivemos durante a residência. Foi nesse contexto que partilhámos não só momentos de criação musical, mas também o quotidiano: refeições, conversas, tempo passado juntos. O que quisemos foi transportar um pouco dessa vivência para o palco, quase como se estivéssemos a abrir a porta desse espaço e a convidar o público a entrar. Mais do que um concerto tradicional, é uma partilha de processo e de intimidade, onde as pessoas são convidadas a experienciar connosco esse ambiente de proximidade e criação.

PR - A colaboração entre a FBAC e Salvador Sobral esgota-se nestes concertos e no disco, ou poderemos esperar por novas colaborações?

First Breath After Coma - Para já, o nosso foco está totalmente nestes concertos e na apresentação pública do trabalho que resultou da residência. É isso que queremos viver e partilhar neste momento. Dito isto, uma experiência tão intensa e com resultados tão positivos cria naturalmente vontade de continuar. A ligação artística e humana que se formou entre os FBAC e o Salvador foi muito forte, e esse tipo de relação raramente se esgota num único projeto. Por isso, sem promessas fechadas, é algo que pode vir a dar frutos no futuro.

17/09/2025

GUI GARRIDO | Discurso Direto

De 19 a 21 de setembro, o Castelo de Leiria transforma-se novamente num lugar de encontro e criação. Entre muralhas onde o tempo ecoa, o ÁGORA instala-se com uma programação intensa, condensada em apenas 3 dias. Uma programação livre e multidisciplinar, onde se cruza a música, performance, instalação e o património histórico-cultural da cidade de Leiria. Tal como nas edições anteriores, o bilhete habitual do Castelo de Leiria garante o acesso às atividades do ÁGORA, com lotação limitada à capacidade dos espaços. 

O acesso ao castelo é gratuito para residentes no concelho de Leiria, mediante apresentação de comprovativo de morada e identificação. ÁGORA é um projeto cultural, que ao longo de três dias, propõe um programa de música, artes performativas, instalações artísticas e ativa uma fruição e reflexão do património (i)material no seio do Castelo de Leiria. Gui Garrido, Curador do ÁGORA é hoje meu convidado em "Discurso Direto".

Portugal Rebelde - De 19 a 21 de setembro, o Castelo de Leiria transforma-se novamente num lugar de encontro e criação. Entre muralhas onde o tempo ecoa, o ÁGORA instala-se com uma programação intensa, condensada em apenas 3 dias. Encontro e criação são a "chave" para mais uma edição do ÁGORA? 

Gui Garrido - Acreditamos que a criação de lugares e espaços de encontro são sempre a base para o desenvolvimento dos nossos projetos, e é a partir desse tempo em conjunto, que nascem novas formas de estar, escutar, dialogar e consequentemente, continuar a fazer. São diversas as propostas de criação que fazem parte do programa, proporcionando aos artistas e público, lugares de intimidade para a partilha das mesmas, e acreditamos que é nessa escala de proximidade, que se potencia outras formas de encontro durante os três dias do Ágora. A criatividade, o pensamento crítico, a multiplicidade de linguagens, a generosidade de tanto o público como os artistas, são premissas fundamentais para que consiga fruir o Castelo de Leiria e o Ágora na sua plenitude. 

PR - Uma programação livre e multidisciplinar, onde se cruza a música, performance, instalação e o património histórico-cultural da cidade de Leiria. Quer falar-nos um pouco sobre o que vai acontecer de 19 a 21 de setembro no ÁGORA? 

Gui Garrido - A visitação ao Castelo de Leiria, é por si só um programa cultural carregado de histórias e que nos leva por distintos caminhos, espaços e tempos. Tentámos criar um programa com diversas propostas artísticas que nos permitam viajar por diversos lugares emocionais, dentro das micro realidades que encontramos no Castelo de Leiria: as vistas, as muralhas, a vegetação, a acústica, a arquitetura, todos estes elementos dialogam com os artistas e com o público, criando espaços de proximidade, reflexão e de nos permitam vislumbrar horizontes de esperança e resiliência, que tão necessários são no momento atual do mundo. Estamos muito felizes por ter nomes como Abdullah Miniawy, que apresentará o seu novo espectáculo “The Evens, Rhama”, a artista indo-americana Sheherazaad, que criou novas roupagens para se despedir do seu disco “Qasr” (que quer dizer fortaleza), ou Lyra Pramuk, com o seu último trabalho “Hymnal”. Desejamos que o público possa fruir deste programa multidisciplinar de 3 dias, carregado de histórias de diversas partes do mundo, que cruzam discursos e linguagens, e que possam enriquecer o património imaterial que é estarmos aqui no agora, com vontade de criar um presente e futuro melhor. 

PR - Tó Trips & Fake Latinos, Memória de Peixe, o percussionista Pedro Almiro, e Raquel André, são as grandes apostas da produção nacional? 

Gui Garrido - O programa conversa entre ele como um todo, com as propostas nacionais e internacionais a criarem um discurso plural e diverso. Aos nomes mencionado, juntam-se também a Joana Guerra e Yaw Tembe, que irão também apresentar o seu novo disco “Orogénese”, e convidámos a artista visual Bárbara Paixão e o sonoplasta Artur Pispalhas para criarem uma instalação artística nas cisternas do Castelo. Acreditamos que estes artistas, de diversas geografias do território nacional e de gerações distintas, têm um trabalho que se enquadra na dramaturgia do Ágora, de forma a consolidar a nossa proposta de fruição para o público que irá ver, ouvir e sentir todas as manifestações artísticas, no especial património que é o Castelo de Leiria. 

PR - Para terminar, indique 3 razões para marcar presença na edição 2025 do ÁGORA? 

Gui Garrido - Ter como cenário para este programa artístico, o Castelo de Leiria, é sem dúvida uma das maiores razões para subir a colina e marcar presença no Ágora. Gostamos sempre de acreditar na generosidade e curiosidade do público, que dão o seu bem mais precioso, o seu tempo, para descobrir e viver novas experiências, serem confrontados com outras linguagens e fazer parte desta descoberta conjunta. E por fim, dizemos que acreditamos profundamente que a arte e a cultura, são ferramentas essenciais para ocorrer transformação e mudança, e no momento atual do mundo, é fundamental que consigamos operar mudanças para criar um mundo mais diverso, plural e empático. Importa também dizer, que cabe a cada um encontrar as suas razões, perceber o seu lugar como indivíduo no coletivo, para que possamos continuar a trilhar caminhos em que construímos mais pontes do que muralhas.

18/08/2025

RICARDO ROMERO | Discurso Direto

De 16 a 24 de agosto, Figueiró dos Vinhos transforma-se novamente num palco vivo de arte e comunidade com a chegada da 7.ª edição do Fazunchar, o festival que tem vindo a afirmar-se como uma referência nacional na arte pública e no envolvimento do território. Este ano, o Fazunchar 2025 reforça a sua identidade multidisciplinar com uma programação que cruza arte urbana, escultura, música, escrita, vídeo, fotografia, artes performativas e oficinas, sem nunca perder o foco no essencial: a ligação humana e a valorização do património cultural e social da região. Ricardo Romero, curador do Fazunchar é hoje meu convidado em "Discurso Direto".

Portugal Rebelde - Figueiró dos Vinhos volta em 2025 a fazer da arte um lugar de encontro. Que momentos destacaria desta 7ª edição do Fazunchar? 

Ricardo Romero - Não destacaria apenas um momento desta 7ª edição, mas sim o conjunto que, somado, dá forma à experiência. A programação começa com a inauguração da obra fotográfica entrelaçada de Raquel Beli, passando pelas pinturas murais de Daniela Guerreiro, Bordalo II e do vencedor da nossa open call, Restless, bem como pela escultura de Robert Panda. Contamos ainda com residências artísticas de Inês Fouto, nas artes performativas, Ricardo Azevedo, na música, e SF Godinho, na literatura. Na música, os concertos ficarão a cargo de Pedro Carvalhosa e James O’Reilly, A Garota Não e DJ Kwan. 

PR - Este ano, o Fazunchar 2025 reforça a sua identidade multidisciplinar com uma programação que cruza arte urbana, escultura, música, escrita, vídeo, fotografia, artes performativas e oficinas. O foco no essencial continua a centrar-se na ligação humana e a valorização do património cultural e social da região? 

Ricardo Romero - Sim. Para nós, partindo da premissa do evento — “onde a arte envolve a comunidade” — o essencial continua a ser o diálogo constante entre quem cria e quem observa. Não deixamos de lado a forma como cada intervenção se inscreve no espaço público, trazendo à luz ideias e valores próprios da região, onde o naturalismo ocupa um lugar central. O que realmente marca é o conjunto das vivências, que se complementam e se fortalecem mutuamente. A diversidade de expressões artísticas mantém um papel fulcral, com destaque para as oficinas e visitas guiadas, que são peças-chave desta ligação entre pessoas, território e património. 

 PR - Em termos musicais, o grande momento de celebração acontece no sábado, 23 de agosto, com a atuação de A Garota Não e um encerramento em festa com DJ Kwan. Quer falar-nos um pouco sobre estes momentos? 

Ricardo Romero - A programação musical começa a 22 de agosto, com Ricardo Azevedo a subir ao palco acompanhado por um grupo de crianças do concelho, apresentando o resultado do trabalho desenvolvido ao longo da sua residência artística. Já no sábado, dia 23, esperamos que o acolhedor Museu e Centro de Artes receba muitos visitantes para desfrutarem da música envolvente de A Garota Não e encerrarem a noite ao ritmo contagiante do DJ Kwan. Importa lembrar que todos estes momentos têm entrada gratuita. 

PR - Para terminar, indique 3 motivos para que ninguém deixe de marcar presença na edição de 2025 do Fazunchar. 

Ricardo Romero - Primeiro, pela possibilidade de experienciar de perto uma programação artística diversificada. Segundo, pela ligação genuína entre artistas e comunidade, que transforma o espaço público num cenário vivo de partilha, identidade e criatividade. E, por fim, pelo ambiente único e acolhedor de Figueiró dos Vinhos, que convida a explorar o seu património cultural e natural, com todas as atividades abertas ao público e de entrada gratuita.

22/05/2025

JAVISOL | Discurso Direto

JAVISOL, a força emergente do rock português acaba de apresentar o seu álbum de estreia. O LP já se encontra disponível em todas as plataformas digitais. JAVISOL são hoje meus convidados em "Discurso Direto"

Portugal Rebelde - "É uma paisagem onde o sol nasce quando a noite se põe". Podemos definir desta forma a música dos JAVISOL?

JAVISOL - É verdade, muitas vezes desabafar ou mostrar o que sentimos pode parecer sinal de fraqueza. Mas, na realidade, quando deitamos tudo cá para fora, estamos a dar um passo para fazer as pazes connosco próprios. É quase como encontrar aquela luzinha ao fundo do túnel, mesmo quando tudo à nossa volta parece escuro. 

PR - De que é que nos falam as canções deste disco de estreia?

JAVISOL - As músicas deste disco contam a jornada de alguém que decide olhar para dentro, tentar perceber quem realmente é. Mas isso vem com o pacote completo — é preciso enfrentar não só o que gostamos em nós, mas também aquelas partes mais difíceis de aceitar, aquelas ideias menos boas que às vezes temos sobre nós próprios. 

PR - Qual é o tema que melhor define o "espírito" deste JAVISOL?
 
JAVISOL - Várias músicas podem mostrar os vários espíritos dos JAVISOL. No entanto, se tivéssemos de escolher uma música que resume o "espírito JAVISOL", diríamos que é "Na lama". Tem aquela energia que nos puxa, mas sem perder o lado emocional. É uma canção que dá vontade de curtir, dançar até, mas que fala de um sentimento que todos conhecemos — o medo. 

PR - No próximo dia 23 de maio apresentam as canções deste álbum na Casa do Artista Amador, em Louro. O que é que podemos esperar deste concerto? 

JAVISOL - O dia 23 de maio vai ser especial, porque é a nossa primeira vez a tocar em Louro! Estamos mesmo entusiasmados por levar a nossa música a mais gente. E claro, adoramos tocar no norte — sentimo-nos sempre super bem recebidos por lá.

18/09/2024

NUNO DA CÂMARA PEREIRA | Discurso Direto

Foto: José Carlos

Num anúncio muito aguardado por todos os entusiastas de Fado em todo o mundo, Nuno da Camara Pereira, o reverenciado artista multi-platina, acaba de lançar a sua mais recente obra-prima musical, intitulada "FADO! Tal Como o Conheci". Este álbum aponta para um marco significativo na ilustre carreira do artista, que se estende por mais de quatro décadas, e está pronto para cativar o público com as músicas comoventes e narrações evocativas. Nuno da Câmara Pereira é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
 
Portugal Rebelde - "Fado! Tal como o conheci" é a culminação da sua dedicação ao longo da vida ao Fado? 

Nuno da Câmara Pereira - Este álbum apenas pretende ser testemunho de toda uma experiencia, conhecimento e evolução ao longo de uma vida dedicada ao Fado, aonde partindo desse mesmo lugar, a ele voltando, aqui se afirma o verbo fadar. 

PR - Entre temas revisitados, originais e algumas surpresas, com que “viagem” o ouvinte pode esperar? 

Nuno da Câmara Pereira - O ouvinte poderá viajar no tempo e reencontrar a genuinidade do Fado desde tempos imemoriais até hoje, aonde se sentirá embalado por emoções e experiências vivas em que o Fado e só ele consegue vivenciar e devolver razão e verdade. 

PR - O disco conta com a produção do guitarrista Mestre Custódio Castelo. Quer falar-nos um pouco deste encontro com Custódio Castelo? 

Nuno da Câmara Pereira - Custódio Castelo deu comigo seus primeiros passos na guitarra, sua eterna companheira. São mais de 30 anos aonde noutros álbuns com ele gravados "Só à Noitinha" com a orquestra sinfónica da Lituânia e com o álbum "Lusitânia" mais que a sua excelência e dedicação, a amizade e cumplicidade provaram não ser possível fazer Fado de outra forma. 

PR - “Fado! Tal como o Conheci”, vai ter uma edição especial em vinil com edição agendada para o próximo dia 27 de Setembro. Fãs e aficionados por música podem esperar uma experiência auditiva sem igual? 

Nuno da Câmara Pereira - O som e o próprio Fado de hoje prostitui-se na senda do êxito comercial, misturando-se e confundindo-se por gestos e razões que nem só a verdade consegue explicar. Com esta edição pretende-se evocar e relembrar sonoridades e temas, que ainda hoje podem ser ponto de partida sem necessidade de chegada.

PR - Para terminar, que memórias guarda de mais de quatro décadas de intensa paixão pelo Fado?
 
Nuno da Câmara Pereira - Guardo a memória dos meus amigos, músicos, desaparecidos e que fizeram jus a toda esta longa caminhada, sempre registada pelas múltiplas edições e minha saudosa recordação deles próprios, hoje continuada inspiração por mim sempre encarnada. Pedro da Veiga, Fontes Rocha, Joel Pina, Carlos Azevedo, Raimundo Seixas ,Carlos Velez e Filipe Vaz da Silva. A minha voz sempre os evoca e saberá deles ser viva e sentida memória. São eles a razão de minha indelével paixão no Fado.

06/09/2024

JÚLIO PEREIRA | Discurso Direto

“Rasgar” é o título do novo trabalho de Júlio Pereira, (25º) incluído num livro com 260 páginas ilustradas, em formato 19x19cm, evocativo dos antigos EPs de vinil. Ao longo das páginas do livro podemos inteirarmo-nos da prática do cavaquinho, desde a atualidade até informação mais remota do instrumento, passando pelos momentos em que se cruza com o próprio autor numa historiografia inédita da trajetória do músico, enquanto executante, compositor e promotor do cavaquinho. Hoje em "Discurso Direto" é meu convidado Júlio Pereira.

Portugal Rebelde - “Rasgar” é o título deste livro/disco. Este rasgar, vai muito para além da técnica de fazer deslizar os dedos da mão direita sobre as quatro cordas do cavaquinho? 

Júlio Pereira - Rasgar é nome de uma técnica que utilizo no cavaquinho tipo minhoto desde que toco este instrumento. O que este disco contém – e fugindo ao critério, como compositor, que usei noutros discos – foi uma preocupação clara de compor para cavaquinho rasgado a pensar nos outros. Contribuir para um reportório que futuramente seja útil a quem queira e goste de tocar cavaquinho. 

PR - Ao longo das páginas do livro podemos inteirarmo-nos da prática do Cavaquinho, desde a atualidade até informação mais remota do instrumento. Este estudo é essencial para o conhecimento atualizado do cavaquinho? 

Júlio Pereira - Este estudo é essencialmente a atualização da história (ou histórias) que até hoje conhecíamos. Baseado numa cronologia de acontecimentos – fotos datadas, rótulos de cavaquinhos (que permite dar a conhecer construtores, datas e lugares), o paralelismo da produção e prática no continente e nas ilhas, a influência negativa do Estado Novo na prática dos instrumentos musicais regionais (de que o cavaquinho também foi vítima), a fabricação do cavaquinho nas importantes cidades do Funchal, Braga, Porto, Coimbra e Lisboa – sendo que nesta, existiram mais que 20 violeiros que construíam cavaquinhos! Toda esta informação narrada e documentada por Nuno Cristo faz-nos entender, pela primeira vez, e poder observar as várias versões que o cavaquinho foi tendo ao longo do tempo. 

PR - O livro é editado numa versão bilingue, em português e em inglês. Esta é também uma aposta na divulgação deste instrumento junto da comunidade internacional? 

Júlio Pereira - Foi sempre desde que fiz discos com o cavaquinho. Sempre procurei meios de documentar este instrumento. E à medida que vou tendo um maior conhecimento sobre ele através dos estudos que paralelamente vão sendo publicados (sobretudo na última década), mais tenho a noção que a história de vida desta tradição continuada de construir e tocar cavaquinho, mais cedo ou mais tarde será internacionalizada. 

PR - O álbum conta com alguns temas especificamente compostos para tocadores de cavaquinho, rasga, igualmente os mares da lusofonia, e conta com a colaboração das vozes da brasileira Luanda Cozetti no tema “Boda Atlântica”, que navega algures entre o Marão e o Sertão e da Moçambicana Selma Uamusse, na belíssima “Terra d'Água”. Queres falar-nos um pouco destes contributos? 

De facto, a lusofonia – a “ritmofonia” – sempre estiveram presentes nos meus discos. José Afonso e Fausto foram os primeiros músicos portugueses com quem trabalhei que também tinham uma “alma preta”! Mas para uma experiência mais vivida e completa nada como tocar com africanos! E aqui tenho de referir os Timbila Muzimba (de Moçambique) com quem fiz (em 2004) uma tourneé pelo país promovida pelo José Rui da ACERT. Neste disco convidei a Selma Uamusse com quem tive há pouco tempo em Tondela, uma surpreendente e belíssima experiência em palco. Por outro lado, e dado que tinha composto uma música que tem que ver com o Brasil – aliás, que tem que ver com as novas relações humanas que em Portugal vão surgindo face à co-habitação com brasileiros, não haveria melhor escolha que convidar a Luanda Cozetti. 

PR - O reconhecimento da prática do cavaquinho em Portugal, fica-se muito a dever ao trabalho da Associação Cultural Museu Cavaquinho? 

Júlio Pereira - Desde 2013 que o objetivo da AC Museu Cavaquinho é documentar, preservar e promover a história e a prática do cavaquinho em Portugal. E assim caminhámos, publicando estudos, fazendo inventários de todo o universo que gira à volta deste instrumento, editando livros, discos e estudos, até sermos a entidade responsável pelo pedido de registo no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial que proporcionou o facto de a construção do cavaquinho ser hoje Património. 

PR - Agora que a construção do cavaquinho é Património Nacional, o processo para a candidatura da prática do cavaquinho à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade é o grande objetivo da Associação Cultural Museu do Cavaquinho? 

Júlio Pereira - Sim é. Faz parte de uma das missões desta Associação. A maioria dos portugueses não sabe que, de algum modo, estamos em dívida com vários países do mundo. E atenção… é uma enorme fatia do mundo! Países que têm também a prática das chamadas “pequenas violas” como o cavaquinho, o ukulele, o keroncong – e que até hoje insistem em atribuir a sua origem portuguesa. Já é hora de agradecermos a gentileza. Como? Lembrando as palavras sábias do nosso eterno Eduardo Lourenço: “… Num País em que o povo parece continuar a esconder dele próprio a situação de sujeito histórico…” resta perder o medo e mostrar ao mundo o que somos, o que temos e o que fazemos com o nosso cavaquinho.

05/09/2024

SARA VIDAL | Discurso Direto

Cruzando a música tradicional e de autor, alusiva ao mar e à pesca, com a videografia e a literatura portuguesa, MARÉ é uma criação da Sons Vadios, estrutura artística e editora sediada na Nazaré, com interpretação de Abílio Caseiro (cavaquinho, bandolim, guitarra portuguesa, guitarra eléctrica), Celina da Piedade (voz, acordeão), Quiné Teles (percussão, voz), Sara Vidal (voz, harpa celta), Zé Francisco (guitarra, voz), João Espada (videografia) e Sónia Pereira (literatura portuguesa). Sara Vidal apresenta hoje no Portugal Rebelde o projeto MARÉ.

Portugal Rebelde - O livro/disco MARÉ é uma homenagem à vida e ao trabalho árduo dos pescadores de todo o país? 

Sara Vidal - Em 2022, a Mútua dos Pescadores quis assinalar de forma especial o seu 80º aniversário e fez uma encomenda artística à Sons Vadios para concebermos um espetáculo original e especial para a ocasião. Naturalmente que teria de ser alusivo aos pescadores, ao sector da pesca, ao mar e às suas gentes... e foi assim que surgiu MARÉ, que é um espetáculo que reúne músicas tradicionais e de autor de todo o país, aliadas à videografia e à literatura portuguesa, e que se assume como uma homenagem a todas as pessoas que vivem e trabalham da pesca, do mar e da indústria marítima. A edição este ano do digibook é o resultado consequente do espetáculo, daí ter o mesmo nome, porque a nossa preocupação também é que este património imaterial e estas músicas sejam divulgadas, valorizadas e que mais pessoas as conheçam e se apropriem delas. 

PR - Esta edição contou com a participação especial do Coro Mútua, constituído por pessoas ligadas ao setor das pescas. Como é que surgiu a ideia? 

Sara Vidal - O Coro Mútua já tinha participado na estreia do espetáculo, em Novembro de 2022, precisamente no 80º aniversário da Mútua dos Pescadores, por isso quisemos contar novamente com a sua participação na gravação disco, não só porque enriquece musicalmente as músicas em que o coro participou, mas porque também desenvolvemos uma relação afetiva e próxima com as pessoas do Coro e da Mútua. Do ponto de vista simbólico e conceptual, a sua participação faz todo o sentido. 

PR - A par das músicas, há também o contributo literário de João Delgado, Manuel Rocha e Abel Coentrão. Quer falar-nos um pouco deste novo "desafio"? 

Sara Vidal - Não queríamos que este trabalho fosse apenas mais uma edição musical, mas que plasmasse o espectáculo no seu todo, com as três componentes da música, da videografia e da literatura portuguesa. Por outro lado, também queríamos que este trabalho fosse, de alguma forma, mais aprofundado com a perspetiva de quem conhece e trabalha no sector pesqueiro, daí termos o contributo do João Delgado, atual presidente do Conselho de Administração da Mútua dos Pescadores. Aliás, ele foi um dos grandes impulsionadores deste espectáculo, viabilizando o apoio fundamental da Mútua desde o primeiro momento. Outro contributo importante, e que nos pareceu fazer sentido, é do Abel Coentrão, que tem uma forte vivência pessoal e familiar com a realidade piscatória de Vila do Conde, desenvolvendo vários trabalhos jornalísticos sobre a temática e também é fundador da Bind'ó Peixe - Associação Cultural, cuja missão e ação incide precisamente sobre divulgar, valorizar e preservar a memória histórico-social das comunidades piscatórias deste território, em particular, mas que têm feito um considerável trabalho para além de Vila do Conde, por isso também considerámos ser interessante e pertinente o seu olhar sobre o trabalho que desenvolvemos na Maré. Por fim, queríamos ter uma visão mais artística e de alguma contextualização musical, e o primeiro pensamento sobre quem poderia dar um contributo interessante a esse nível foi para o Manuel Rocha, que para além de ser um profundo conhecedor da nossa tradição musical, também tem o dom da palavra e sabíamos que nos traria uma boa reflexão sobre o tema. 

PR - Durante este Outono a Maré vai encher com a agenda de alguns concertos, a saber: 7 de setembro (Vila Nova de Famalicão), 29 de setembro (Santa Luzia, Tavira) e 16 de novembro (Peniche). O que é que o público pode esperar destes espetáculos? 

Sara Vidal - Fundamentalmente, uma grande celebração da música portuguesa de raiz e da cultura piscatória. Quem conhece a realidade das gentes do mar e da pesca, revê-se no espetáculo e fica muito agradecido com a homenagem que fazemos, e quem não é assim tão afim passa a conhecer, pelo menos um bocadinho melhor, uma realidade de vida e de trabalho que é muito dura e que, sem dúvida, merece toda a nossa consideração e respeito. Maré não é um espetáculo etnográfico, mas sim artístico.

02/09/2024

NUNO LEOCÁDIO | Discurso Direto

O Karma é... a Rua do Carmo. Após várias edições em locais distintos como na Mata do Fontelo; no Skate Park e de uma edição de inverno em espaços fechados, a 6ª edição do Karma é... é num sítio muito especial, a Rua do Carmo. A rua será epicentro da sexta edição do evento Karma é... é a rua onde mora o promotor há nove anos, e é também a Rua que lhe dá nome, o espaço de intervenção cultural, Carmo81. Nuno Leocádio da organização do Karma é, é hoje meu convidado em "Discurso Direto". 

Portugal Rebelde - Após várias edições em locais distintos como na Mata do Fontelo; no Skate Park e de uma edição de inverno em espaços fechados, esta 6ª edição do Karma é... a Rua do Carmo. A que se fica a dever esta nova aposta? 

Nuno Leocádio - O Karma é o reflexo da atividade do Carmo81, reflete o ano que passou e antecipa o próximo ciclo de programação deste espaço de intervenção cultural. O Carmo81 promotor deste festival está sediado na Rua do Carmo no número 81 há nove anos. É a Rua que compreende todo o incomodo provocado pela nossa atividade, é a rua que nos acolhe e suporta ao longo do ano. É já uma tardia homenagem realizar o nosso maior evento o Karma na Rua que nos acolhe e dá nome. Esta opção só peca por tardia. Esta é uma rua do centro histórico de Viseu que vive ensombrada pela decadência permanente e comum a vários centros históricos e por ruas contiguas com maior movimento e comércio, pelo que promover a história e memória da rua do Carmo, celebra-la e dinamiza-la será sempre uma obrigação nossa. É na rua do Carmo que temos relações próximas com vizinhos e comerciantes e por isso é nossa vontade colaborar com todos e em conjunto realizar a maior festa que esta rua já viu. 

PR - Quais são as grandes apostas desta 6ª Edição do Karma é? 

Nuno Leocádio - Os Vizinhos e o espetáculo de criação Fenótipo Musical Extra são os dois problemas que centralizam a nossa atenção. Todos os anos o Karma (espelho da ação do Carmo81 ao longo do ano) preocupa-se em misturar artista emergentes com artistas consagrados, para nós é tão importante receber os Miss Universo como os José Pinhal Post Mortem Experience, são ambos artistas dos quais gostamos e com os quais nos identificamos de igual forma. Não nos preocupamos com os típicos cabeças de cartaz, preocupamo-nos com a qualidade e performance de cada artista. Mas apesar de tudo isto há uma clara aposta no bairrismo positivo de valorizar uma Rua os seus vizinhos e os seus comércios. Há ainda a preocupação de alimentar bom Karma ao realizarmos projetos de criação próprios como já foi o exemplo de edições passadas com projetos como o Senhor Jorge https://www.youtube.com/watch?v=wUJFIqSRI3g . Este ano em parceria com a AvisPT21, do Teatro Viriato e da companhia de dança Dançando com a Diferença e com o financiamento da Direção Geral das Artes conseguimos realizar um espetáculo que pretende ter continuidade. O Fenótipo Musical Extra, é um grupo de pessoas portadoras de trissomia 21 que está a aprender música com o objetivo de musicar ao vivo outros objetos artísticos. Desta feita contam com a participação da Dançando com a Diferença, será um espetáculo que será apresentado no dia 5 de Setembro e que abrirá o festival, na Quinta da Prebenda, um espaço único situado junto à rua do Carmo uma quinta que em pleno cento histórico tem um jardim de 8000m2 e que é um segredo para tanta gente. Além de um espetáculo único podemos dizer com toda a propriedade que será apresentado num local único. Este é um projeto ao qual queremos dar continuidade, continuar os ensaios de Fenótipo Musical Extra é um objetivo e continuar a formar artistas e encontrar através das artes motivos para valorizar estas pessoas e fazer das suas deficiências o problema menor deste grupo. 

PR - Este evento esforça-se pela descentralização da oferta cultural, com programação e criação marcante na realidade cultural local e nacional? 

Nuno Leocádio - Esforçamo-nos por isso mesmo quando damos palco a artistas que estreiam aqui os seus trabalhos quando damos espaço de ensaio para as suas criações, promovemos sempre o aptidão de alguns artistas para que possam desenvolver os seus trabalhos. Mas além de espaço de criação procuramos programar no Carmo81 e no Festival Karma novas propostas de uma cultura que não é dominante e conseguir apresenta-las ao público de Viseu. Artistas como o Tiago Sousa, Miss Universo, Coletivo Polyester, os Unsafe Space Garden, Pedro da Linha, Fanfarra Kaustica ou José Pinhal Post Mortem Experience seriam artistas que não teriam palco em Viseu se não fosse a nossa ação. Procuramos portando colaborar na descentralização dessa oferta cultural. 

PR - Para terminar, indique três boas para estar presente nesta 6ª edição do Karma é. 

Nuno Leocádio - O Karma será Bairrista. O Karma será na Rua do Carmo e, portanto, gratuito. O Karma é sempre inclusivo.

13/06/2024

OCTÁVIO FONSECA | Discurso Direto

O livro Os Primeiros Anos - Correspondência José Afonso/ Rocha Pato (1962/1970), da autoria de Octávio Fonseca, um dos mais conceituados estudiosos e conhecedores da obra de José Afonso, retrata a troca de cartas havida entre José Afonso e Rocha Pato durante os primeiros anos da carreira do músico. Uma obra emocionante e privilegiada que lança luz sobre o autêntico "Big Bang" artístico de José Afonso. Uma leitura essencial para os amantes da música e da cultura portuguesa. Octávio Fonseca, é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
 
Portugal Rebelde - O que é que o chamou mais a atenção na leitura que fez da correspondência entre José Afonso e Rocha Pato durante os primeiros anos da carreira do músico? 

Octávio Fonseca - A primeira grande surpresa que tive ao ler as cartas foi sem dúvida perceber o papel fundamental que Rocha Pato teve no lançamento da carreira de José Afonso. - José Afonso achava que as suas baladas não tinham importância suficiente para serem editadas em disco. Foi Rocha Pato que o convenceu a gravar. - Durante o período em que José Afonso foi acompanhado por Rui Pato, ele foi um super agente: tratou de arranjar as editoras, os locais de gravação e o transporte dos materiais para a gravação; fez a promoção do cantor através de diversos artigos publicados em diversos jornais; percebe-se por esses artigos que ele foi o primeiro a perceber a genialidade de José Afonso e compreendeu logo, por exemplo, que José Afonso era tão grande poeta como compositor, um facto que muitos especialistas ainda hoje não perceberam; tratou de questões pessoais como certidões na Universidade de Coimbra, documentos para o divórcio da primeira mulher e até medicamentos com que José Afonso se automedicava por causa da voz. 

PR - Fica claro nessa correspondência que a renovação da música popular portuguesa foi levada a cabo por uma equipa-trio que se complementou na perfeição nos papéis específicos de cada interveniente? 

Octávio Fonseca - Nos anos de 1940 Fernando Lopes-Graça começou a compor as suas canções heroicas, que foram sem dúvida o primeiro ato musical expressamente assumido contra a ditadura. Essas canções foram muito importantes para a consciencialização antifascista do povo português, mas não tiveram consequências no panorama musical português ao nível da canção popular. Foi a música de José Afonso, a partir de 1962 e principalmente 1963 ("Os Vampiros" e "Menino do Bairro Negro"), que desencadeou um movimento de criadores-cantores que mudaram completamente a face da nossa música urbana. Como nesse período ele foi acompanhado por Rui Pato e todo o trabalho de apoio foi assegurado por Rocha Pato, não restam dúvidas de que essa equipa-trio foi a responsável pela grande revolução que ocorreu na música popular portuguesa. E eu só percebi isso precisamente pela leitura das cartas. 

PR - Quais foram as mais curiosas revelações, que veio a descobrir sobre o percurso do cantor e compositor entre 1962 e 1970? 

Octávio Fonseca - Que José Afonso propôs a Carlos Paredes que passasse a ser acompanhado por Rui Pato, por motivos de posicionamento político de Fernando Alvim. - Que a "Trova do Vento Que Passa" foi composta em 1964, portanto a datação de 1963 está errada. - Que a estadia em Moçambique foi extremamente traumatizante para José Afonso, ao ponto de ao fim de dois meses só pensar em regressar. O fascismo colonialista ainda lhe repugnou mais que o da metrópole. - Que na Beira (Moçambique) conseguiu dobrar a vontade do censor local e levar à cena a peça A exceção e a regra, de Bertolt Brecht, sem quaisquer cortes. - Que foi convidado para um festival internacional em que participariam também Bob Dylan e Joan Baez. - Que gravou "Canta Camarada" e "Menina dos Olhos Tristes" num disco de pequeno formato para não prejudicar a comercialização do álbum Contos velhos, rumos novos e não deixar de intervir com canções de conteúdo político explícito. - Que as reações em torno de um concerto no Barreiro (11/11/1967) provam à evidência que o grande problema para a ditadura, em termos de música de intervenção, eram José Afonso e a canção "Os Vampiros".

15/03/2024

LUÍS DE FREITAS BRANCO | Discurso Direto

As senhas da Revolução, é sabido, foram duas canções que fazem hoje parte do cancioneiro da Música Popular Portuguesa. O papel da música no derrube da ditadura não começou apenas, no entanto, na madrugada de 25 de Abril de 1974. Numa edição Livros Zigurate, chegou ontem às livrarias “A Revolução Antes da Revolução – O ano que mudou a música popular portuguesa”, um livro 
da autoria de Luís de Freitas Branco. “A Revolução Antes da Revolução” é o primeiro livro de Luís de Freitas Branco, uma incursão editorial que se insere numa tradição familiar de escrita e reflexão sobre música: é trineto do compositor Luís de Freitas Branco e bisneto do musicólogo João de Freitas Branco. Luís de Freitas Branco revela hoje em "Discurso Direto como a música popular portuguesa  as portas para o clima cultural, social e político que desencadeou o dia “inicial inteiro e limpo” e que mudou Portugal há 50 anos.

Luís de Freitas Branco - Comecei esta investigação com uma única certeza: algo aconteceu em 1971 que transformou radicalmente a música popular portuguesa, e hoje, mais de cinquenta anos depois, ainda é uma vertigem o progresso musical e os acontecimentos históricos que ocorreram em apenas 12 meses. Entre os álbuns e eventos, destaco: à cabeça, os três álbuns gravados em Paris, no Château d'Hérouville, "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" de José Mário Branco; "Cantigas do Maio" de José Afonso; e "Os Sobreviventes" de Sérgio Godinho. Em Lisboa, mais obras-primas, "Movimento Perpétuo" de Carlos Paredes e "Gente de Aqui e de Agora" de Adriano Correia de Oliveira, a libertação musical e espiritual dos Duo Ouro Negro em "Blackground"; o pioneirismo de José Cid ou dos Petrus Castrus; ou o movimento dos baladeiros, Manuel Freire, Francisco Fanhais, José Jorge Letria. E ainda, três eventos cruciais: um controverso Festival da Canção que premeia "Menina” de Nuno Nazareth Fernandes e Ary dos Santos, na voz de Tonicha, e revelou definitivamente Fernando Tordo e Paulo de Carvalho; o Festival Vilar de Mouros, o primeiro grande festival de rock nos moldes que estamos acostumados, que se acreditarmos no PIDE de serviço, foi a maior orgia de sexo e drogas que alguma vez ocorreu em Portugal; e claro, o I Festival Internacional de Jazz de Cascais, um evento de uma magnitude e cartaz inconcebível em Portugal, com a célebre dedicatória de Charlie Haden, contrabaixista de Ornette Coleman, aos movimentos de libertação africanos, que resultou na sua prisão. É um universo imenso, um retrato quase completo da nossa canção, em apenas um ano. Este foi o ponto de partida que me levou, entre 2020 e 2022, a entrevistar cerca de 50 músicos, e a investigar centenas de jornais, revistas e documentos da época. 

Durante o ano de 2021, quando se assinalavam 50 anos de 1971, publiquei regularmente, uma vez por mês, um longo artigo de investigação no Observador sobre uma temática diferente da música popular portuguesa; esses artigos foram a base para este livro, que continuei a trabalhar nos anos seguintes até editar finalmente agora, em 2024, a tempo de celebrar os 50 anos do 25 de Abril Antes da revolução política do 25 de Abril, houve de facto uma revolução cultural que antecipou o fim da ditadura, sobretudo em 1971, por razões que vou explicando ao longo do livro. Eu não vivi 71, nem 74, eu nasci em 1988; e isto tem uma vantagem fantástica; tive total liberdade para refletir sobre este período. A minha geração vive a música de forma totalmente diferente, as barreiras entre o elitismo e o provincianismo, entre o popular e o popularucho, entre o rock e a canção romântica, foram violentamente derrubadas, , sobretudo nos últimos anos. E ainda bem. Marco Paulo, Tony de Matos, António Mourão, Paco Bandeira, Tonicha, Quim Barreiros, são cruciais para contar a história da música popular portuguesa, e eles também são celebrados aqui. 

Neste momento que celebramos os 50 anos do 25 Abril, uma das minhas principais preocupações foi encontrar outras vozes, outras histórias, outras perspectivas, por exemplo, as mulheres do canto de intervenção, contra todas as barreiras que a sociedade impunha; o rock português, que deveria ser o líder natural da juventude, seguindo a lógica da cultura ocidental, mas foi absolutamente atropelado e censurado na Primavera Marcelista; os fados revolucionários de José Manuel Osório; ou as diversas canções de independência desenvolvidas nas ditas colónias ultramarinas, particularmente em Angola. A música popular portuguesa permanece em movimento, devemos celebrá-la, mas também confrontar o passado com o presente, não deixar cair estas histórias no esquecimento, mas também não as fechar numa redoma musical ou ideológica; a música precisa de circular, ser um agente de mudança, e cabe-nos celebrar e desafiar a sua passagem.

19/10/2023

KUMPANIA ALGAZARRA | Discurso Direto

Foto: Cátia Barbosa

Os Kumpania Algazarra estão de volta com um novo disco, que dá o mote para as celebrações dos seus 20 anos de carreira, que se assinalam em 2024. "Histórias e Raízes" é o décimo disco do coletivo Kumpania Algazarra e é um álbum que conta diversas histórias, algumas comuns a todos nós, outras vividas pela banda ao longo da sua já preenchida carreira. Este novo disco está também ligado às “nossas” raízes, no sentido multicultural do termo. Os temas mostram que não há barreiras para os Kumpania Algazarra, que viajam entre o tradicional e o hip hop, o fado e a música popular, o balkan e o rock, sem nunca abdicar do cunho particular que os caracteriza. Os Kumpania Algazarra são hoje meus convidados em "Discurso Direto".
 
Portugal Rebelde - "Histórias e Raízes" é o décimo disco dos Kumpania Algazarra. Que "histórias" nos trazem neste novo trabalho? 

Kumpania Algazarra - Histórias e Raízes traz consigo a nossa abordagem às sonoridades com raiz portuguesa, que neste álbum misturámos com a  sonoridade de kumpania algazarra. É como olhar para o passado com um olho no presente. Como habitualmente os nossos temas transportam-nos para várias peripécias da vida, que vamos contando nas nossas músicas. Relatamos histórias de vida e de sonhos, sempre com a alegria e a festa no horizonte!   

PR - Hip Hop, fado, música popular, balkan e o rock, são algumas das sonoridades que cruzam este disco? 

Kumpania Algazarra - Sim. Neste trabalho, demos a nossa interpretação à música tradicional portuguesa e fomos descobrindo novas sonoridades no trabalho que fomos fazendo em conjunto com outros artistas e amigos. O resultado final é uma aventura musical que se pode ouvir e dançar.      

PR - "Histórias e Raízes" conta com a participação de vários convidados, como o rapper do Zimbabué, Synik, JP Simões, Célia Ramos, Estraca e Jaqueline Carvalho, Tiago Morna e Rui Carvalho entre outros.  Esta mescla de participações resulta num disco multicultural? 

Kumpania Algazarra - Sem dúvida. Este foi o disco em que contámos com mais convidados oriundos dos mais variados estilos musicais, do fado à soul, do popular ao hip-hop, da guitarra portuguesa ao trompete dos Balcãs. Este disco foi também um veículo para atravessar fronteiras e festejar a multiculturalidade, contando histórias de várias partes do nosso mundo, sempre com a mescla de sons como pano de fundo.   

PR - O mais recente single deste novo disco chama-se “Olhó Burro”. De que é que nos fala este tema? 

Kumpania Algazarra - Olhó Burro fala-nos de uma história em que se trocam bens e que, em alguns casos, podemos ser enganados. É uma sátira a essa ideia de que se não estivermos atentos podemos ser enganados das mais diversas formas na sociedade em que vivemos. Fazemos também uma brincadeira ao referir-nos ao burro que usa fato e gravata, parece um senhor, mas não deixa de ser um burro. Um tema com um cunho mais popular com muito humor e brincadeira.   

PR - Os concertos de apresentação do novo álbum arrancam na Finlândia, onde nos dias 20 e 21 de Outubro a banda marca presença no Oktoberfest, que se realiza em duas cidades diferentes. Em Portugal, a estreia do álbum ao vivo acontece em Lisboa, a partir das 22h do dia 26 de outubro, no B.Leza. O que é que o público pode esperar destes concertos? 

Kumpania Algazarra - O Oktoberfest na Finlândia será como um test drive do disco. Será a primeira vez que o vamos apresentar ao vivo, a primeira vez que tocamos na Finlândia e temos o desafio de aquecer o público finlandês com temperaturas a rondar os 0! No dia 26 já por Lisboa estamos a preparar uma festa especial que esperamos que possa ficar na nossa história e na do público que nos segue. Vamos ter surpresas e convidados pela noite dentro e vamos dançar até fazer doer os calos    

PR - Para terminar, que memórias guardam de 20 anos de "Kumpania e Algazarra"? 

Kumpania Algazarra - Destes 20 anos guardamos muita estrada a passar pelas janelas de carrinhas, aviões, barcos e outros meios de transporte onde viajámos e muitas vezes tocamos também. Foram 20 anos de festa onde conhecemos muitos artistas incríveis e partilhámos experiências musicais por onde passámos. Olhando assim de repente para trás dá aquela sensação de que ainda ontem estávamos a ir para o primeiro concerto, mas ao fechar os olhos vemos rostos aos milhares de pessoas a sorrir e corpos a dançar, muitas horas de festa e muita alegria por termos chegado até aqui. O que fica sempre na memória são as pessoas que partilharam este percurso connosco e que nos dão força e alegria para continuar, bem hajam por isso!

13/10/2023

LUSITANIAN GHOSTS | Discurso Direto


O projeto Lusitanian Ghosts  está de regresso às edições discográficas com "Lusitanian Ghosts III". As violas tradicionais, como a Beiroa, a Campaniça, a Braguesa, a Terceirense ou a Amarantina, cada qual detentora de afinações e arranjos específicos, aliam-se a diversos outros instrumentos de corda europeus, numa simbiose única entre a música tradicional e uma vertente contemporânea, conferindo a estes instrumentos populares uma abordagem baseada numa perspetiva sociopolítica, com vista à criação de um mundo melhor, através de composições dirigidas à mente e ao coração. Amanhã, dia 14 de Outubro, o coletivo de Cordofones luso-sueco Lusitanian Ghosts irá apresentará ao vivo, no icónico Teatro Taborda em Lisboa, o seu novo álbum. Neil Leyton é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
 
Portugal Rebelde - Lusitanian Ghosts III foi gravado sem o recurso a qualquer guitarra elétrica – apenas e só à base de violas regionais tradicionais. Esta é uma estética que continuam a defender? 

Neil Leyton - Sim. Lusitanian Ghosts é um colectivo que nasceu para dar a conhecer estes instrumentos Lusitanos através de uma estética de rock n roll internacional. No primeiro disco ainda usámos algumas guitarras de 6 cordas, depois a partir segundo, Exotic Quixotic, e agora o novo Lusitanian Ghosts III o conceito é mesmo esse: cordofones, baixo, bateria e até na bateria por vezes usamos o Adufe em vez da tarola. Juntamos, pela primeiro vez em disco, os diferentes cordofones das diferentes regiões de Portugal com o nosso primeiro disco Lusitanian Ghosts em 2018. Cá estamos, 5 anos mais tarde, com 3 álbuns editados - este último 100% analógico, gravado e misturado em fita, com LPs em Mono e Stereo. 

PR - A fusão entre a sonoridade de instrumentos de corda populares portugueses e europeus, confere ao grupo uma sonoridade única e alternativa? 

Neil Leyton - Sim, sem dúvida - só por si a junção dos diferentes cordofones regionais populares já foi uma situação rara, quanto ao alternativo prende-se com o cantar em Inglês, coisa que sempre fiz. Penso em Inglês, foram muitos anos fora. Agora, só no primeiro disco é que o OMIRI usou também a Nyckelharpa da Suécia, outro cordofone Europeu; agora são mesmo só cordofones Lusitanos. 

PR - Lusitanian Ghosts III foi gravado e misturado em fita analógica no estúdio Clouds Hill em Hamburgo. Esta é mais uma particularidade da sonoridade deste disco? 

Neil Leyton - Sem dúvida, uma vez que é cada vez menos comum fazê-lo. O Clouds Hill é um autêntico luxo, um verdadeiro parque de diversões para quem gosta de equipamento vintage. O Micke Ghost é fã de discos em Mono, da sua vasta coleção de Jazz aos Beatles. Já que estávamos a gravar em fita decidimos misturar tudo duas vezes, do multitrack master de 2 polegadas para as fitas de misturas de 1/4. Foi uma experiência interessante porque pensamos de forma diferente nos elementos de cada música. 4. 

PR - No próximo dia 14 de outubro apresentam ao vivo, no icónico Teatro Taborda em Lisboa, este disco. O que é que o público pode esperar deste concerto? 

Neil Leyton - Os concertos de Lusitanian Ghosts são inesperados, espontâneos, sem demasiados ensaios (temos dois Suecos no alinhamento actual do coletivo, é difícil ensaiar muito - e ainda bem) mas vamos apresentar ao vivo todas as músicas deste disco mais algumas dos anteriores.

26/09/2023

BOÉMIA | Discurso Direto


"Génese" é o novo disco dos Boémia. Catorze novas canções escritas por Rogério Oliveira que revisita acontecimentos do estado novo ao 25 de Novembro. Com o cariz popular, já característico do som dos Boémia e sob os astros dos nossos grandes cantautores, os arranjos ficaram a cargo de Marco Ferreira e a produção de José Salgueiro. Juntam-se a viva voz, para partilhar duas dessas novas canções, Fausto Bordalo Dias, na polémica temática da reforma agrária no tema “Zira” e Zeca Medeiros no conturbado 11 de Março em “A Míope Luneta”. Os Boémia são hoje meus convidados em "Discurso Direto".
 
Portugal Rebelde - O novo álbum dos Boémia, “Génese”, é uma celebração dos 50 anos do 25 de Abril? 

Boémia - Sim! Sem dúvida! É sobretudo uma celebração! O 25 de Abril é o acontecimento do último século mais importante e transformador da nossa sociedade. A Génese da nossa constituição! Nós quisemos meter mãos à obra e deste modo assinalar em forma de disco este acontecimento dos 50 Anos. O disco revisita  acontecimentos do estado novo ao 25 de Novembro. 

PR - Como é se sentiram ao cantarem estas histórias à distância de quase meio século? 

Boémia - Estes quase 50 anos de distância já nos deixa algum conforto para analisar todos estes acontecimentos! É sempre difícil analisar e retratar quando as coisas estão à flor da pele, e são questões da vida das pessoas, que tiveram grande impacto. A diferença para os dias de hoje é abismal, e todos nós, apesar de termos nascido pós 1974, conhecemos e lidamos com pessoas que o viveram. E alguns destes acontecimentos são questões sensíveis e deixaram marcas profundas até os dias de hoje! Como a guerra Colonial ou a descolonização. 

PR - Fausto e Zeca Medeiros são dois convidados muito especiais deste disco. Como é que surgiu esta oportunidade?  

Boémia - É verdade! É um grande privilégio para nós ter estes dois convidados no disco! Toda a obra do Fausto é fundamental na música que fazemos, quando começamos a fazer música, tomamos conhecimento deste “estilo popular”, se assim o quiserem chamar, já com a transformação muitíssimo mais rica que o Fausto é responsável. Existe uma música popular antes do Fausto! e uma outra, muito mais interessante, transformada por ele! O Fausto é já um amigo de longa data que já participou em outros trabalhos nossos e nós também já participamos nos dele. Portanto fazia todo o sentido chamar o Fausto para este disco, até porque ele viveu estas histórias de perto. O Zeca Medeiros, apesar de ser uma amizade mais recente, seguíamos o seu trabalho há algum tempo. É um músico incrível autor de trabalhos únicos! Tem características muito singulares como a voz e expressão que neste tema para que o convidamos foi como uma cereja no cimo do bolo. 

PR - Para terminar, depois da edição deste álbum, há intenções de levar as canções de “Génsese” aos palcos nacionais? 

Boémia - Sim!!! O que mais queremos é levar estas canções ao vivo às pessoas, este não é só um trabalho para ouvir no 25 de Abril, conta histórias reais de pessoas reais em ambiente e toada popular, em festa portanto! Estamos disponíveis para aceder aos convites para levar estas histórias ao vivo de norte a sul do país, sem esquecer as ilhas claro!

17/08/2023

AZORES BURNING SUMMER | Discurso Direto


De 23 a 26 de Agosto, o Festival Azores Burning Summer está de regresso à Praia dos Moinhos, Porto Formoso, na ilha de S. Miguel. Durante 4 dias, cerca de 60 artistas regionais, nacionais e internacionais sobem aos três palcos do festival. Juntos contribuem para a definição da identidade musical do evento que transpira world music, soul, jazz, dub, funk e outros estilos da música negra. Filipe Tavares, diretor do Festival Azores Burning Summer é hoje meu convidado em "Discurso Direto".

Portugal Rebelde - Música, cinema, debates, ecodesign, veículos elétricos, land art, saúde e ações comunitárias, são estes os “ingredientes” que fazem deste eco festival a combinação perfeita entre a Natureza e o seu público? 

Filipe Tavares - O Azores Burning Summer celebra a maravilhosa praia dos Moinhos no Porto Formoso - Açores. Trata-se de um lugar muito especial, não apenas pela sua beleza natural, mas também pelas memórias de convívios e boa música partilhados por várias gerações. Tudo isto acontece com o máximo sentido de preservação, foi o festival que se adaptou ao local e não o contrário. O programa que o festival apresenta centra-se na nobre missão de deixar uma marca positiva no público que mobiliza e no local onde acontece. Através da música, cinema, debates, ecodesign, exposição de veículos elétricos, land art e ações comunitárias, sensibilizamos um vasto número de pessoas para as mais diversas questões socioambientais. O Azores Burning Summer não é um festival para massas mas sim um evento que promove um acesso equilibrado, cosmopolita, que privilegia o conforto, a segurança e o bom atendimento. Acreditamos que podemos viver de forma mais harmoniosa com a Natureza, por isso sentimos que este Festival, através das propostas que apresenta e da forma como acontece, constitui uma combinação perfeita entre público (festivaleiro) e natureza. 

PR - Durante 4 dias, cerca de 60 artistas regionais, nacionais e internacionais sobem aos três palcos do festival. Quer falar-nos um pouco da programação musical deste Eco Festival? 

Filipe Tavares - 50% da programação do Festival decorre no palco NOS instalado na praia dos Moinhos, é de livre acesso e funciona como uma espécie de warm up do Festival, tendo como objetivo ligar as pessoas à raiz do evento. Na praia há cinema ao ar livre com a projeção dos documentários “Entre Ilhas” de Amaya Sumpsi e “Cesária Évora” de Ana Sofia Fonseca, há também o “Eco Market” uma feira dedicada ao ecodesign e a nível musical teremos diversos Dj sets e o programa “Moinhos Revival” onde irão atuar “Manel de Island Man” e “Duo Atlântico + Isa B”. No palco TROPICAL do renovado parque dos Moinhos teremos os nossos DJ’s residentes e convidados: Esses céus, Galopim + Quaresma (Antena 1), Milhafre, Novo Major, Tenreiro, Mesquita & Laura, Isilda Sanches e o nosso anfitrião Adrian Sherwood. Pelo palco principal irão passar os Club Makumba, Selma Uamusse, Arp Frique, Filipe Karlsson, The Legendary Tigerman e Mirror People. 

PR - Na edição de 2022 do Iberian Festival Awards, o Azores Burning Summer, foi o grande vencedor nacional na categoria “Best Contribution to Sustainability”. Em 2023, este Festival será um evento mais sustentável? 

Filipe - Tavares - Do muito que fazemos destaco, a nível económico, o facto de garantirmos que 80% do investimento realizado no festival seja direcionado para empresas e profissionais locais. A nível social destaco o programa comunitário de saúde VIVE e o HABITAT, ambos de acesso gratuito e destinados, sobretudo, à comunidade local. A nível ambiental, não só introduzimos, testamos e promovemos medidas ecológicas, como também programamos um conjunto de ações que têm como objetivo o despertar da consciência ecológica coletiva. Já atingimos as metas Zero Desperdício e Zero Ruído Visual, em 2023 introduzimos veículos elétricos no shuttle que liga gratuitamente os parques de estacionamento aos recintos do festival, estamos a incentivar o público a praticar o Car Sharing e pretendemos atingir a meta Zero Beatas. 

PR - Para terminar, 3 boas razões para estar presente no Eco Festival Azores Burning Summer, que irá acontecer de 23 a 26 de Agosto, na praia dos Moinhos, em Porto Formoso, São Miguel, Açores 

Filipe Tavares - Natureza impactante, bons convívios e qualidade a todos os níveis. Interessa viver o festival como um todo: praia, sol, trilhos, ecologia, boa gastronomia e excelentes artistas! É só aparecer que tratamos do resto.

 
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