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21/08/2019

JOÃO MAIA | Discurso Direto


                                                                                                                                          Foto: João Pina/David & Golias

Chega amanhã aos cinemas VARIAÇÕES um filme que  retrata a vida de António Ribeiro, barbeiro e figura da movida lisboeta no final dos anos 70, perseguindo o seu sonho de se tornar cantor e compositor, apesar de não saber uma nota de música. O filme foca o processo de transformação na persona de António Variações, artista excêntrico e popular cuja carreira fulgurante foi interrompida pela sua morte em 1984. O Portugal Rebelde partilha hoje uma entrevista realizada por Elsa Garcia a João Maia, realizador do filme VARIAÇÕES. 

"Começámos a entrevista ao som de Golden Brown dos Stranglers e numa longa conversa João foi revelando toda a história por detrás de Variações e as nuances que levaram à criação deste grande filme que estreia amanhã nos cinemas."

Elsa Garcia - Tantos anos depois como é que te sentes ao ver o teu sonho concretizado? Foram oito anos certo?

João Maia - Comecei a escrita há 15 anos e estou muito feliz com o resultado. O filme é muito credível ao nível da época, as equipas de guarda-roupa e a direção de arte fizeram um trabalho fantástico, bem como gosto imenso da fotografia. Desta equipa o André Szankowski era a pessoa que eu conhecia há mais tempo e já tínhamos falado sobre o filme há mais de 10 anos. Depois concentrei-me nas personagens e após vero filme terminado sinto que mexe com as pessoas.

EG - Como surgiu o teu interesse por António Variações?

João Maia - Bom, eu queria fazer um filme sobre o que era o rock português nos anos 80, quando era ainda um adolescente e tinha amigos que tocavam em bandas, como por exemplo os Peste & Sida. Gostava muito de rock e interessei-me pelo Variações. Trabalhei durante muitos anos em lojas de discos, mas conhecia mal a obra dele e quando comecei a ouvir fiquei muito impressionado, até pelo facto de ele ter gravado o primeiro disco com 37 anos. E pensei: “o que é que este homem terá feito até aos 37 anos para ter gravado um disco com esta idade e ter morrido aos 39?” Ouvi tudo com atenção e comecei a minha pesquisa. Havia muito pouca informação, sabia-se que nasceu em Braga, que era barbeiro e que tinha vivido em Amesterdão. Portanto, eu andei meses e meses a pesquisar sobre ele, sem saber que história ia contar.

EG - Como é que foi o teu processo de pesquisa?

João Maia - Na altura inicial fui apoiado pelo ICA e fiz a minha pesquisa com Catarina Portas. Demorei dois anos a escrever a primeira proposta e estive a pesquisar durante cerca de um ano. Só na hemeroteca estive vários meses, todos os dias a ver jornal a jornal. Havia algumas informações que ninguém tinha encontrado. Por exemplo, dizia-se que ele tinha posto um anúncio a procurar músicos e eu encontrei esse anúncio. Essa parte foi também muito importante para me situar na época, o ano de 1977, quando ele regressa a Portugal. Fiz a minha pesquisa até 1985, tendo ele morrido em 1984, um pouco para perceber a espuma do que aconteceu após a sua morte. A Hemeroteca fez com que eu enquadrasse a época, porque em 1977 eu tinha nove anos. Depois fomos começando a entrevistar pessoas á medida que íamos construindo a sua cronologia. Quando as peças se começaram a encaixar foi quando eu comecei realmente a escrever a parte que me interessava: entre ele vir de Amesterdão e fazer o primeiro disco. No final não chegámos ao primeiro disco, foi um bocadinho antes, quando ele deu o primeiro concerto no Trumps.

RG - Falaste com a família dele logo no início do processo?

Sim, sim. Falei com os irmãos, a mãe tinha morrido recentemente, talvez dois meses antes. Eu lembro-me que os irmãos ainda se comoviam muito quando falavam dela. Seguidamente falei com alguns músicos que tocaram com ele, como o Pedro Ayres Magalhães, Vítor Rua e Ricardo Camacho, que também já morreu. Depois começámos a ir mais fundo e falei com os colegas cabeleireiros para saber como foi o percurso profissional dele quando chegou a Portugal.Até abrir o seu próprio salão. Sim. Ele era uma pessoa experiente mas muito desorganizada com o dinheiro. Gastava-o todo em viagens e abriu a sua própria barbearia para ter mais tempo para a música. Em determinado momento começou a investir mais na música, a comprar microfones, etc. Mas, no entanto, ele não tinha conhecimento musical, não sabia compor e não sabia ler uma pauta, uma realidade que transmites muito bem no filme.Sim, ele não tinha conhecimento musical a nível técnico, só tinha o intuito e aquele grande dom natural.

EG - Foram os Heróis do Mar, GNR e Sétima Legião que o ajudaram, certo?

João Maia - O single foi feito pelo Ricardo Camacho dos Sétima Legião e foi um sucesso instantâneo. Era inevitável fazer o primeiro álbum, Anjo da Guarda, em que Vítor Rua e Tóli César Machado, dos GNR estiveram envolvidos como arranjadores e produtores. Entretanto alguns desentendimentos levaram à saída de Vítor Rua dos GNR e as gravações foram retomadas mais tarde sob a supervisão de José Moz Carrapa. Já o segundo disco Dar e Receber foi feito pelos Heróis do Mar, uma banda que Variações gostava muito. Lembro-me de ele a cantar Povo que Lavas no Rio da Amália Rodrigues (a sua maior referência) e Estou Além na televisão. Mas antes disso ele já tinha as suas cassetes que mostrava a várias pessoas. Sim, as cassetes no fundo tinham apenas a sua voz. Ele tocava com alguns músicos amadores, que ia descobrindo, e havia cassetes que já tinham alguns arranjos musicais. Nas cassetes já se nota que,embora ele não tivesse um conhecimento musical técnico, tinha noções de ritmo e de como gostaria que as músicas ficassem como é exemplo O Corpo é que Paga. A voz era o seu instrumento e ele colocava a melodia toda com só com a voz. Algo também importante é o teu papel didático na formação de gerações mais novas que na verdade, não têm um grande conhecimento acerca de quem foi António Variações e sobre o que esta excêntrica personagem representou para a nossa cultura. Naquela época Variações fez a exceção. Sim, era uma personagem que fazia parte do mundo underground lisboeta e que só após a gravação do primeiro disco se tornou conhecida do grande público, das crianças aos idosos. Foi um sucesso, mas no entanto eu não estava à espera que tanta gente soubesse quem foi António Variações. Em algumas das zonas onde filmámos vários miúdos vinham ao nosso encontro dizendo que os avós eram fãs.


EG - E, como é que surge o ator Sérgio Praia?

João Maia - Este filme esteve em pré-produção há dez anos atrás e o Sérgio foi o primeiro ator do primeiro dia de casting, o que deixou um bocadinho em “maus lençóis” todos os outros que se seguiram. (risos). O Sérgio tem uma enorme semelhança com António. Sim, tem uma parecença muito grande e algo que prezei desde logo foi o timbre de voz. Desde o início que achei que ele podia cantar, embora o Sérgio não acreditasse, uma vez que nunca cantou na vida. Mas cantou no filme. Sim, e depois gostei muito da sua linguagem corporal, do dançar. Bom ele reunia uma série de caraterísticas que o tornaram imbatível desde a primeira hora. Na altura era um ator ainda recente e só tinha feito teatro.

EG - Como é que pensaste o filme formalmente?

João Maia - Uma das coisas que pensei desde logo foi na questão do ator principal cantar. Sempre achei que ia compor o filme e que teria peso. A ideia de alguém que passa o dia cantarolar, com uma música na cabeça, e que à noite chega a casa e não bebe, não fuma, não se droga. Esta era a base e eu nunca me quis afastar muito desta ideia. Sempre quis que fosse um filme muito simples e que desde muito cedo me perguntassem o que era o filme: “um barbeiro que queria ser cantor”.

EG - Falemos agora da cena do Trumps, uma cena particularmente impressionante não só ao nível estético, mas também ao nível de carga emocional pois afinal foi o seu primeiro concerto. Eu tive acesso a uma cassete com o concerto e pesquisei as descrições do que as pessoas disseram do concerto. Disseram que ele nunca teve verdadeiramente uma banda e que fez alguns concertos. Relacionado ainda com o Trumps, como descobriste a relação de António com Fernando Ataíde?

João Maia - Foi uma relação muito forte. Aliás até tenho uma pergunta sobre isso: o António que mente, foge e desaparece, mas que pede desculpa em simultâneo. Ele era muito solitário e tinha alguma dificuldade em ter relacionamentos. As duas únicas pessoas com que ele teve relacionamentos foram Jelle, o namorado holandês e Fernando. Quando iniciei a minha pesquisa a falar com pessoas que ele conhecia mais intimamente, todos me falavam de Jelle, Fernando Ataíde e Rosa Maria, a mulher do Ataíde depois de ele e António se terem separado. No filme apercebemo-nos de um certo trio entre António, Fernando e Rosa Maria. A Rosa fechava os olhos à relação deles, embora se apercebesse do que se passava? Mais ou menos. Ela era mais nova do que eles e apaixonou-se pelo Fernando. Os três faziam vida como se fossem familiares, iam à praia e faziam imensos programas. O António e o Fernando tinham vivido juntos uma série de anos e todos diziam que eles eram o amor da vida um do outro.

EG - No filme a história entre António e Fernando é muito forte. Como é que achas que a comunidade LGBT vai reagir ao filme?

João Maia - Acho que vai reagir muito bem. É uma história de amor muito bonita e sinto que o filme é muito comovente quando chega à parte final. Eu escrevi e reescrevi o guião várias vezes, mas há duas cenas que sempre mantive, a inicial quando ele corta a mão para sair da aldeia e as duas cenas finais.

EG - O início do filme começa com uma deslocação temporal do passado para o presente (uma analepse). Qual foi o teu objetivo?

João Maia - Achei que era importante logo no início do filme sabermos de onde é que ele vem. Importante também a forma como acaba com a digressão em que ele vai para a aldeia, onde nasceu, com o Fernando. Achei que seria muito forte filmá-lo novamente em Fiscal e desta vez a mostrá-la ao amor da sua vida.

EG - Achas que ele era inseguro?

João Maia - Sim, sim. Era seguro em algumas coisas, mas artisticamente tinha muitas inseguranças que se vêem exatamente no reportório que é muito honesto. A canção até podia correr mal, mas ele não estava a enganar ninguém.

EG - Em que cassete ou canção vês mais o António?

João Maia - No Visões Ficções. 

EG - Vai agora sair um disco resultante do filme. Fala-me sobre Isso?

João Maia - Desde que percebi que havia a possibilidade de ser o ator a cantar os novos arranjos (executados por Armando Teixeira/Balla), achei que havia uma possibilidade de reinventar. O público está interessado nestes novos arranjos que Variações tinha na cabeça antes de começar a gravar, antes de ser famoso. São basicamente os arranjos do filme, mas com uma maior densidade de estúdio em músicas cantadas pelo Sérgio Praia. Vai ser editado pela Sony Music Portugal.

EG - Achas possível o ressurgimento de uma figura como António Variações?

João Maia - Possível é sempre possível. Nós fazemos o nosso destino. Portanto, alguém que ache que tem o sonho de fazer algo diferente, tem sempre essa possibilidade.

EG - Que ambições tens para o filme?

João Maia - Gostava que o filme tivesse muitos espetadores, para que as pessoas se apercebam da força de António. Ele foi muito forte, viajou imenso, tinha imenso jeito para a música. Não acho que fosse um génio, acho que era um tipo que sabia o que queria. Tinha jeito para trabalhar a melodia, as palavras, os refrões. Era uma pessoa comum, com uma sensibilidade muito grande e com um sonho para realizar. Quero muito que o filme lhe preste uma homenagem. O António foi um artista muito popular na época, e gostava que o filme fosse visto tanto pelos seus fãs como pelos mais novos. Portanto queria que a reação do público fosse transversal e gostava que tivesse alguma repercussão lá fora.


04/08/2019

DIRTY COAL TRAIN | Discurso Direto


Depois de um álbum duplo cheio de convidados em Maio do ano passado, The Dirty Coal Train voltam 180 graus e apontam novamente agulhas noutra direcção: um LP em formato trio gravado maioritariamente ao vivo com overdubs de voz pontuais, em 2 dias em São Paulo, Brasil, durante uma das suas tours pela América do Sul. O duo levou algumas ideias para trabalhar com Marky Wildstone (Dead Rocks, uma das primeiras bandas surf rock do Brasil, e The Mings, projecto com o Holandês Dead Elvis e o inglês Hipbone Slim) e captar tudo do modo mais cru e direto possível por Luís Tissot (produtor e músico na cena lo-fi e punk de garagem brasileira e argentina: Backseat Drivers, Human Trash, Jazz Beat Committee, Jesus & The Groupies, Thee Dirty Rats, Fabulous Go-Go Boy From Alabama). Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues são hoje meus convidados em "Discurso Direto".

Portugal Rebelde - Como é que surgiu a oportunidade para gravar este disco em S. Paulo, no Brasil?

Dirty Coal Train - Durante a primeira tour no Brasil quando tocámos em São Paulo e dormimos no Caffeine aproveitámos logo para gravar uns temas que se viriam a transformar no 7" Spaceship to Cucujães". Gostámos muito do modo natural de trabalhar do Luís Tissot e ficámos a namorar essa ideia de gravar lá um álbum com esse feeling de "ao vivo em estúdio" com o Marky na bateria. O único tema que não foi gravado nessa onda foi o "dead end street" em que gravámos com caixa de ritmos e que serve para quebrar um pouco a homogeneidade do disco.

PR - O álbum “Primitive” é composto por 23 faixas, havendo espaço ainda para 4 versões (para originais dos The Shandells, Dead Moon, Thee Mighty Caesars e Murphy & the Mob).De alguma forma estas versões servem como “guia” para o universo deste disco?

Dirty Coal Train - Escolhemos sempre temas de que gostamos muito mas neste caso especifico são todos temas bem "primitivos", seja pela temática do próprio tema como é o caso do "go go gorilla" ou pelo som cru e primitivo das bandas como é o caso dos Dead Moon, de todas as bandas de Billy Childish (incluindo os Mighty Caesars) e dos Murphy & the Mob e as restantes bandas que integram os diversos volumes de "Back from the Grave". Para além de querermos abordar questões ambientais e politicas que se viviam no Brasil aquando da gravação e que se agudizaram muito entretanto, tentámos que o álbum espelhasse uma abordagem bem mais crua ao rock que a que fizemos no "Portuguese Freakshow". Um pouco como se fosse o reverso da medalha desse disco!

PR - Depois deste “Primitive” gravaram recentemente 3 temas que farão parte de uma compilação da Lux Records. Querem falar-nos das vossas escolhas para este disco?

Dirty Coal Train - O Rui da Lux convidou-nos para gravarmos 3 versões e nós decidimos aproveitar para irmos a 3 temas que gostamos muito e ao mesmo tempo fugir dos nomes do rock que todos estão sempre à espera que toquemos (a trilogia Cramps, Dead Moon e Stooges por exemplo). Não queremos revelar tudo mas podemos dizer que gravámos um tema de Captain Beefheart, um de Prince e um de José Mário Branco. São 3 músicos excepcionais de que gostamos e qualquer um deles bem fora do rock mais quadrado que é o cerne da nossa habitual base de trabalho. Embora tenhamos um gosto imenso em formulas simples também gostamos de alterar as regras de vez em quando e achamos que as coisas se forem espontâneas e feitas com gosto quase sempre resultam. Esperamos não ser esta a excepção! 

PR - Um concerto para os Dirty Coal Train será sempre um momento de celebração, catarse e partilha?

Dirty Coal Train - Esperamos bem que sim! Por vezes já sentimos a idade a pesar um pouco ao fim daquela cambalhota ou depois de aquela queda mas não imaginamos um concerto nosso que não seja uma festa de amigos.

PR - Para terminar, o rock´n´roll continua vivo?

Dirty Coal Train - O punk morreu quando os Pistols acabaram ou porque uma banda de 77 assinou com uma multinacional? Mas se calhar foi nessa altura que apareceram os Crass e os Subhumans e ... e na 1ª vez que o rock morreu andavam por aí os Gories e os Oblivians e uns fedelhos nos concertos das 2 bandas que fizeram os White Stripes e os Strokes e.... ou seja: é uma questão de para onde olhar e do que a massa crítica/rádio jokeys/ malta que selecciona vídeos num canal/... achou de inovador. Um exemplo prático: qual o melhor álbum dos The Fall? É sempre uma "trick question": são todos do caraças, depende mais de quem ouve e quando! Se estás farto de ouvir the fall vais ouvir oura coisa, mas o disco que acabou de sair quando pegares nele com mais calma vais ver que está dentro do que sempre fizeram e nem por isso é pior que os outros! O rock quando muito deixou de ser mainstream como foi nos 70's, 80's e 90's. Mas "O rock morreu"? Só para quem nunca gostou ou para quem está a precisar de um tira-palato!




26/07/2019

MOKSHA SOUND JOURNEYS | Discurso Direto


Moksha Sound Journeys é um projeto musical criado em 2017, que tem como elementos base Ivan Cristiano, Bruno Teixeira, Flutist Sunil Pariyar e Hugo Edgar. Ao vivo, os concertos resultam num encontro entre a música, o movimento e a meditação, e visam alcançar uma outra forma de escuta, mais atenta, onde cada um de nós poderá observar e vivenciar níveis mais profundos de presença e consciência, através do poder do som e da viagem sonora. Hoje em "Discurso Direto" são meus convidados Moksha Sound Journeys.

Portugal Rebelde - Antes de mais, onde e quando é que os Moksha Sound Journeys começaram a dar os primeiros “passos” nesta viagem sonora?

Ivan Cristiano - Tudo começou com um convite que me fizeram para animar o Doming`out (evento que ocorria todos os Domingos no Parque Urbano Da Costa Da Caparica em 2017). O Bruno que morava em Gaia, vinha passar o fim de semana a Almada, ligou-me para me dar um abraço e falei-lhe que ia tocar com um “Rav Vast” à Costa Da Caparica, ao que ele me responde!! - Posso juntar-me a ti nessa jam??? Correu muito bem e duas semanas a seguir foi o Bruno que me levou a tocar com ele no “Being Gathering Festival” na Boom Land em Idanha-à-Nova, só com dois ensaios e meio, foi um sucesso. Nasciam então os Moksha Sound Journeys. Demos alguns concertos só os dois, mas mais tarde juntava-se a nós o Sunil, um flautista do Nepal que domina a flauta Bansuri como um génio. Mais recentemente convidámos Hugo Edgar, um “senhor” na guitarra portuguesa que veio dar um colorido tipo “cereja em cima do bolo”.

PR - Moksha, refere-se, em termos gerais, à libertação do ciclo do renascimento e à iluminação espiritual. É isto que procuram com a vossa música?

Bruno Teixeira - Nesta vida,o ciclo de renascimento e a iluminação espiritual, está relacionado com a libertação da ignorância, isto é, dos padrões auto-limitativos e com a inconsciência acerca da nossa identidade essencial. Sendo a nossa música mais um encontro que uma procura, diríamos que, do seio da nossa amizade, sinergia, sensibilidade e filosofia, surge o convite a quem nos ouve e sente, de se testemunharem e vivenciarem, inspirarem e libertarem de tudo o que contraria o encontro connosco mesmo, uns com os outros e com tudo em absoluto.

PR - A par deste projeto, o Ivan Cristiano é baterista na banda UHF. Como é que um homem do rock vive um projeto mais ligado à meditação?

Ivan Cristiano - Sou um homem do Rock, mas acima de tudo sou um homem da Música e não vejo a vida como uma barreira estereotipada com estilos definidos. Ser músico também é ser-se livre e “Moksha” é isso mesmo. À parte dos UHF não fazia sentido fazer outros projetos rock, nunca fez, aliás, recusei alguns…mas com os “Moksha” é diferente, acrescenta-me algo, é um extensão de mim que vem da alma, vive-se muito do improviso, tocamos para a Terra, par o Ar, para o Fogo e para a Água, não tocamos para a Rádio e isso alegra-nos.

PR - O que é que o publico pode esperar de um concerto dos Moksha Sound Journeys?

Ivan Cristiano/Bruno Teixeira - Uma viagem musical com múltiplos instrumentos exóticos acústicos desde Handpans, Rav Vast, Didgeridoo, Flauta Bansuri, Guitarra Portuguesa, Gatham, ocean drum, wind effects, Gongos, Cajon, Taças Tibetanas, enfim, uma parafernália de instrumentos que resultam num encontro entre a música e a meditação, e visam alcançar uma outra forma de escuta, mais atenta, onde cada um de nós poderá observar e vivenciar níveis mais profundos de presença e consciência.

PR - Para terminar, há planos a curto prazo para a edição do primeiro disco?

Ivan Cristiano - Planos a curto prazo? A curto e a longo prazo. Dizemos uns aos outros em tom de brincadeira que isto é um projeto para a vida e para envelhecermos juntos. Em relação ao disco, ainda este ano vamos entrar em estúdio para depois editar em 2020. Estamos numa fase de novos arranjos, agora com mais um instrumento que é a guitarra portuguesa e que veio dar outra cor aos Moksha Sound Journeys.  Em relação a concertos, vamos estar já amanhã no Darksky Alqueva party em Alqueva (Campinho) e no dia 31 de Agosto estamos na 15 edição do festival de DIDGERIDOO, FATT (Tavira, Algarve).




24/07/2019

OMIRI | Discurso Direto


                                                                                                                                                                      Foto: Rita Carmo

OMIRI é um dos projetos de reinvenção mais originais da música tradicional portuguesa. Fundado por Vasco Ribeiro Casais, OMIRI é uma mistura de folk tradicional com música eletrónica. Vasco Ribeiro Casais toca viola Braguesa, Gaita de Foles, Bouzouki Português, Cavaquinho e Nyckelharpa. O seu novo disco, "Alentejo Vol.I: Évora", é composto por 13 temas, criados por auxílio de pesquisas realizadas no concelho de Évora, e vem acompanhado por um livro de 80 páginas com textos dessas mesmas recolhas, das letras das músicas e de fotografias. Vasco Ribeiro Casais, o mentor do projeto é hoje meu convidado em "Discurso Direto".

Portugal Rebelde - Antes de mais, como é que surgiu a ideia de dedicar este novo disco ao Alentejo e em particular a Évora?

Vasco Ribeiro Casais - A ideia deste disco surgiu de um convite por parte do Luís Garcia da Câmara de Évora para apresentar no Artes à Rua um espectáculo único. Com o desenvolvimento da ideia fazia sentido fazer um disco, um livro e um documentário tudo dedicado ao concelho de Évora.

PR - No álbum “Baile Electrónico” que antecedeu este disco, as recolhas foram feitas pelo Tiago Pereira da “Música Portuguesas a Gostar Dela Própria”. Em “Alentejo Vol.1: Évora” assumiste todas as recolhas. Queres contar-nos um pouco desta nova “experiência”?

Vasco Ribeiro Casais - Ao fazer vários concertos comecei a aperceber-me que não conhecia as pessoas que estavam nos vídeos e, comecei a pensar que seria muito mais interessante e genuíno se as conhecesse pessoalmente assim como as estórias que têm para contar. O Tiago grava muito bem, tanto a parte do video como o som e é difícil estar ao nível (acho que ainda vou levar alguns anos) mas, o que ganho em estar com as pessoas é muito mais. Foi realmente uma experiência muito boa e que é para continuar.

PR - Neste trabalho, recuperas várias tradições do Alentejo, que não apenas a música. Sentes que estas “tradições” ainda resistem em Évora?

Vasco Ribeiro Casais Vão resistindo. Em Évora e em todo o lado as coisas vão mudando e é mesmo assim, cada vez é mais difícil encontrar um sapateiro sem máquinas ou um carpinteiro que pregue pregos com martelo mas, ainda há muitas tradições vivas.

PR - Podemos dizer que OMIRI de alguma forma “renova” a tradição?

Vasco Ribeiro Casais - A tradição renova-se a si própria com a mudança nas pessoas. O que faço é apenas dar a minha visão dessas tradições e de alguma forma levar essas tradições a públicos que se encontram distantes delas.

PR - O que é que Évora tem de especial para lhe teres dedicado este primeiro volume?

Vasco Ribeiro Casais - Évora tem tudo de especial. Neste caso foi a vida que me levou a este volume e o resultado foi um espectáculo de Évora para Évora e um disco/ livro de Évora para o mundo.

PR - Num próximo trabalho vais continuar a incursão pelo Alentejo?

Vasco Ribeiro Casais - Sim, se em Évora ainda fiquei com material para fazer mais um volume, imagina o que o resto do Alentejo tem ainda para nos oferecer.

PR - Para terminar, este ano vais estar presente na Festa do Avante. O que é que o público pode esperar deste concerto?

Vasco Ribeiro Casais - O concerto do Avante vai ser o primeiro desta nova fase de Omiri, com um palco novo e com os novos temas. Em Évora toquei o disco novo todo mas num contexto extraordinário, com os vídeos projectados nas fachadas dos edifícios da Praça do Sertório e com muitos convidados. No Avante vou tocar alguns temas mais antigos misturados com temas novos, alguns temas com arranjos novos e com novas abordagens aos vídeos.


19/07/2019

TRICYCLES | Discurso Direto



Imaginem um triciclo no alto de uma duna, a ver o mar, a sentir o sol quente nas rodas pintalgadas de areia, com uma certa comichão no volante por causa da humidade salgada, e a pensar: “Apetece-me apanhar o próximo barco para Marte e desviá-lo até ao centro do Sol”. É mais ou menos isto que os Tricycles são. Uma coisa vagamente improvável, um conjunto de kidadults de rumo duvidoso mas com histórias para contar, cheias de pessoas que poderiam existir. E de facto existem, em calmas músicas prontas a explodir, lentamente, a mil à hora, com suavidade, ou em rugidos de guitarras zangadas e pianos falsamente corteses, de rudes baixos a conversar com educadas baterias. 
Os Tricycles são: o João Taborda (António Olaio & João Taborda), o Afonso Almeida (Cosmic City Blues, Sequoia), o Edgar Gomes (Terb) e o Sérgio Dias. Com um disco de estreia homónimo acaba de de sair, os Tricycles são hoje meus convidados em "Discurso Direto" para uma conversa que se deseja que corra sobre rodas e a diferentes velocidades.

PR - Antes de mais, quando e porque razão os “tricycles” começaram a ser fabricados?

Tricycles - As peças juntaram-se em 2014. Ou seja, os tricycles começaram a ser fabricados nesse ano. Estamos em 2019 e as peças continuam as mesmas, o que significa que estão bastante mais oleadas e conseguem uma boa velocidade sem derrapar. A pergunta é boa, porque é possível de responder. Se nos perguntassem uma uma data de fabrico, não teríamos resposta. Quando é que uma banda está verdadeiramente fabricada? Nunca. Vai-se fabricando.

PR - Os tricycles assumem-se como uma banda de estúdio ou é no palco onde o público e a banda comungam raivas e melodias, se sentem realizados?

Tricycles - As duas coisas complementam-se. Realização é uma palavra muito forte. Mas temos um prazer grande em estúdio e no palco, embora de maneiras diferentes. No estúdio há uma brincadeira criativa que dá muito gozo, mas também uma enorme responsabilidade, porque sabemos que estamos a criar uma coisa que queremos que fique, que marque. A palavra “gravar” implica algo que fica para o futuro e, se é para ficar, que valha a pena. O palco é o momento, a partilha com os outros, a interação, o gozo de passear no abismo da exposição pública!

PR - Qual tema que melhor caracteriza o “espírito” deste primeiro disco?

Tricycles - Esta sim, é uma pergunta impossível de responder, num disco feito de muitos espíritos e fantasmas e reflexos. Para não te deixar sem resposta, vamos pelo óbvio, o “All the mornings”, simplesmente porque foi o que escolhemos para primeiro single, para primeira música do disco e porque, de certa forma, reflecte a heterogeneidade do próprio disco.

PR - Os Tricycles gostam de andar na estrada, como qualquer veículo digno desse nome. O que é que o publico pode esperar de um concerto vosso?

Tricycles - O que o público não pode esperar é monotonia.

PR - Para terminar, numa frase como caracterizariam este disco de estreia?

Tricycles - Rock’n’Roll a diferentes velocidades!




17/07/2019

BIXIGA 70 | Discurso Direto


A big band Bixiga 70 é formada por destacados nomes da cena instrumental da cidade de São Paulo. A sua épica intensidade sonora, o bombardeio rítmico e as fortes raízes brasileiras misturadas com funk, samba-jazz, reggae e afrobeat, calcados em mix de metais, guitarra e percussão, fazem do coletivo um caldeirão sonoro. A energia contagiante rendeu ao coletivo o 25º Prémio da Música brasileira, na categoria “Revelação”, em 2014. Bixiga 70 lançou em 2018, o seu quarto álbum “Quebra-Cabeça”. O MIMO Festival Amarante é uma das próximas paragens do grupo. O concerto está agendado para o próximo dia 26 de Julho, no Parque Ribeirinho a partir das 21.30h. Daniel Gralha, trompetista da Bixiga 70 é hoje meu convidado em Discurso Direto.

Portugal Rebelde - Fortes raízes brasileiras misturadas com funk, samba-jazz, reggae e afrobeat, calcados em mix de metais, guitarra e percussão. É esta a “receita” do coletivo para o caldeirão sonoro que nos apresentam?

Daniel Gralha - Basicamente essa é a receita, mas o facto é que cada um de nós teve um percurso muito próprio dentro da música que se faz em São Paulo ao longo das últimas duas décadas e, apesar de muitas vezes os caminhos se terem  alinhado e termos integrado projetos em comum, a gente sentiu que à partir do processo do segundo disco essa vivência individual de cada um passou a ser a referência maior pro nosso som. Bixiga 70 é o laboratório onde os 9 músicos dividem a síntese dessa pesquisa e dessa bagagem numa constante troca, de forma horizontal, e com total liberdade de expressão. quando nos fechamos para compor qualquer um pode sugerir o ponto de partida, ou um redirecionamento, uma ponte, uma parte B, uma quebra, de acordo com sua leitura. as ideias que mais contemplam o coletivo são as que perduram. É um método super caótico, intenso, rico e extremamente desafiador para cada um de nós. acredito que nesses processos sempre alcançamos o melhor de nós mesmos.

PR - A que se fica a dever a escolha de Bixiga 70 para nome da banda?

Daniel Gralha - O principal fator que torna possível a existência do grupo é o Estúdio Traquitana, onde fazemos nossos ensaios semanais e onde gravamos nossos 4 discos. Ele fica localizado na Rua Treze Maio - a mais famosa e importante do bairro, no número 70. o bairro é um caldeirão humano - nordestinos, italianos, africanos, povos latino-americanos, é uma bela fotografia do que é São Paulo. fora isso, nosso gosto em comum pela sonoridade das produções da década de setenta também pesou na escolha, é uma singela homenagem.

PR - O álbum “Quebra-cabeça” (2018) coloca uma vez mais o Bixiga no mundo e o mundo no Bixiga?

Daniel Gralha - Sem dúvida temos viajado muito nos últimos anos e dividido experiências incríveis longe de casa e isso acaba tendo um nítido impacto na nossa música, então acredito que "o mundo no Bixiga" seja uma colocação bastante verídica. colocar o Bixiga no mundo, e pelos quatro cantos do Brasil, é nossa luta quotidiana. Estamos tendo retorno muito satisfatório das pessoas que ouviram o disco e uma ótima resposta do público nos shows, então estamos confiantes.

PR - É verdade que o álbum “Quebra-cabeça” é ao mesmo tempo um passo natural no processo de amadurecimento do Bixiga 70 e um ponto de inflexão na carreira do grupo?

Daniel Gralha - A gente conversa internamente que é o nosso trabalho mais completo até agora. o método de composição foi o mesmo do disco "III" porém agora mais donos da própria linguagem, mais confiantes, e essa confiança nos permitiu arriscar um pouco mais, deixar algumas composições tomarem rumos menos comuns p´ra gente. Isso foi enriquecedor, ampliou nossos horizontes. Por essa ótica podemos sim dizer que é um ponto inflexão, mas também não podemos deixar de observar as mudanças que aconteceram no Brasil como um todo e o momento sócio-político que estávamos passando. essas questões tem uma profunda influência no nosso som.

PR - No próximo dia 26 de Julho apresentam no Festival MIMO, em Amarante o álbum “Quebra Cabeça” editado em 2018. O que é que o público português pode esperar da passagem da Bixiga 70 por este Festival?

Daniel Gralha - Um grande baile. Um show para se apreciar sem melodias e batucadas, mas principalmente uma música para se dançar, para se estar presente de corpo pulsante. Liberdade de pensamento é liberdade de movimento.

PR - Para terminar, que memórias guardam de quase 10 anos de canções?

Daniel Gralha - As memórias são muitas; shows históricos, viagens incríveis, roubadas monumentais também, figuras lendárias que tivemos o prazer de dividir o palco, grandes talentos da cena atual que pudemos conhecer de mais perto e experimentar vivências em comum. Mas a memória mais marcante talvez seja essa que se renova cada vez que subimos no palco, que é a do prazer imenso que temos em tocar juntos essa música que descobrimos em nós, e dividir isso com o público num espiral energético como foi desde o primeiro show, e como é em cada cidade que chegamos.



10/07/2019

LUSITANIAN GHOSTS | Discurso Direto


Lusitanian Ghosts é um coletivo de artistas que cruzam os cordofones populares portugueses (Amarantina, Beiroa, Braguesa, Campaniça, Terceira, e Toeira) com uma estética de rock n roll / singer-songwriter internacional, onde um artista sueco, Micke Ghost, toca viola Amarantina e um artista português, Omiri, toca também a Nyckleharpa, um cordofone medieval sueco. Os singles “Trailer Park Memories”, “Godspeed to You”, e “The World” antecederam o lançamento do disco debut do projeto. Hoje em "Discurso Direto" recebemos os Lusitanian Ghosts.

Portugal Rebelde - Antes de mais, como é que surgiu o projeto Lusitanian Ghosts?

Lusitanian Ghosts - Numa conversa com o meu Avô, o Mestre Adelino Leitão, em casa do meu irmão Tiago Leitão em Setúbal, ele revelou que tinha sido músico, tinha tido uma banda, Os Fatalistas, entre outros projetos; e quando ele faleceu herdei alguns cordofones… depois descobri a viola Beiroa. Comecei a tentar compor na Beiroa… criar algo mais localizado. Não me fazia sentido gravar mais um disco de rock n roll só, como já tinha feito em Toronto, Londres ou Estocolmo, mas sim um disco local, um projeto português. Comprei uma Amarantina e levei-a a Estocolmo, ofereci-a ao Micke Ghost… e aí tudo começou.

PR - Lusitanian Ghosts é um coletivo de artistas que cruzam os cordofones populares portugueses (Amarantina, Beiroa, Braguesa, Campaniça, Terceira e Toeira) com uma estética de rock n roll / singer-songwriter internacional. Estão contentes com o resultado final deste disco de estreia?

Lusitanian Ghosts - Este primeiro disco foi uma experiência - nunca se tinham cruzado todos estes cordofones num disco, muito menos num disco cantado em Inglês. O Gajo já estava a reinventar a Campaniça, o Omiri já distorcia a Braguesa, e o Abel já tinha usado a Terceira em gravações com o Guillermo, pós-Primitive… mas assim todas juntas não. Mesmo assim, começámos com uma base de “bedtracks” de rock, bateria, baixo e elétrica. Para o próximo disco, que vai ser gravado em fita evitando qualquer meio digital, vamos fazer ao contrário, começar com os cordofones mesmo. Claro que se não estivéssemos contentes não haveria “próximo disco”, haha. O Canoa e o Ricardo Ferreira fizeram um grande trabalho de gravação e produção.

PR - No passado mês de Abril, apresentaram as canções deste disco em concerto. Qual foi o “feedback” que receberam do público?

Lusitaniann Ghosts - Foi uma excelente noite. Foi a primeira vez que tocámos ao vivo, e funcionou muito bem. É uma verdadeira orquestra de cordofones, todos diferentes, com uma atitude de rock n roll, penso que surpreendeu muita gente que não sabia bem ao que ia. As críticas foram muito positivas. Estamos entusiasmados por ter conseguido, com tão poucos ensaios, apresentar tão bem o disco. Todos temos agendas complicadas para gerir, e para que Lusitanian Ghosts toque é preciso vir o Micke Ghost de Estocolmo. Esperamos conciliar agendas para tocar mais, mesmo que não seja sempre com todos os elementos do coletivo.

PR - Já confirmadas estão também atuações internacionais no Reeperbahn Festival, um dos festivais mais importantes para a indústria da música, que se realiza de 18 a 21 de Setembro, em Hamburgo, e a atuação no Live at Heart, um dos maiores festivais de showcases na Escandinávia, que se realiza de 4 a 7 de setembro, em Örebro, Suécia. Há algumas “surpresas” preparadas para estes concertos?

Lusitanian Ghosts - Todos os nossos concertos são verdadeiras surpresas! Ninguém sabe o que pode acontecer. Na Suécia contamos também com a presença do meu antigo baixista de Neil Leyton & The Ghosts, o Janne Olson. Não teremos por lá O Gajo nem Omiri, por causa dos seus próprios concertos. No Reeperbahn estaremos todos e ainda alguns potenciais convidados internacionais, por confirmar… e depois, cada concerto tocamos uma ou outra música nova, seja nossa, seja cover… em Benfica foi o “Thanks for Chicago Mr. James” de Scott Walker, que foi uma grande referência para nós em estúdio e que, entretanto, faleceu. Não sabemos qual será o setlist nem para a Suécia, nem para a Alemanha, e, entretanto, esperamos confirmar mais um concerto para Portugal.

PR - Qual é o tema que melhor caracteriza o “espírito” deste álbum?

Lusitanian Ghosts - Tema no sentido de música? Todas elas… talvez a "Past Laurels"? Ou tema no sentido de temática… vejamos, várias letras abordam uma certa mentalidade portuguesa, os tabus da nossa sociedade, a recusa em dialogar abertamente sobre o que foi na verdade a era dos descobrimentos: a escravatura. Há muita gente em Portugal com mentalidades muito fechadas…, mas as letras não apontam só o dedo às quintinhas e castelos: tiramos o chapéu à Wikipédia criticando por exemplo as velhas enciclopédias como a Britannica, que só contavam um lado da história - a dos vencedores. É um disco que espero possa incentivar o diálogo político, vá. Está na altura de defendermos a cultura, a Europa, o civismo, todos os valores humanistas que fomos conquistando ao longo do século XX e que estão mais uma vez ameaçados por este mundo fora. É um espírito positivo, afirmativo, humanista.

PR - Numa frase como caracterizariam este disco de estreia?

Lusitanian Ghosts - Uma espontânea experiência criativa inédita que promove os cordofones populares portugueses num novo contexto, para além das nossas fronteiras. Um projeto com raízes no passado, mas com uma visão futurista.



DELIA FISCHER | Discurso Direto


Cantora, compositora, pianista e diretora musical, Delia Fischer é dona de um currículo invejável. Com mais de 30 anos de carreira, atuou ao lado de importantes artistas brasileiros como Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Ed Motta, Marcos Valle e Pretinho da Serrinha. Delia Fischer constrói com esmero os seus álbuns a solo: foi assim com o álbum de estreia “Antonio”, em 1999, “Presente”, de 2010 e com “Saudações, Egberto”, de 2011. No próximo dia 27 de Julho, a cantora apresentará no Festival MIMO em Amarante o recém-lançado álbum “Tempo Mínimo”, onde instiga o público à discussão sobre o valor do tempo nos dias atuais, com canções que remetem à bossa nova e outros ritmos populares do seu país. Delia Fischer é hoje minha convidada em Discurso Direto.

Portugal Rebelde - É verdade, que o disco “Tempo Mínimo” acabado de editar, tem uma visão cronista?

Delia Fischer - Sim, eu diria que as crónicas aparecem em momentos diversos da vida, como na faixa “Ela Furou”, onde narro o desespero tragicómico de estar sem ajuda da acupunturista, que me esqueceu num dia de muita dor. Aparece também nos dias de carnaval, passados solitariamente na praia no “Samba Mínimo” ou na rua da infância, a que retorno, e que me reconhece nos passos da infância, na faixa “Mesmos Sons”. Diria que são crónicas poéticas, pois sempre penso na sonoridade e na musicalidade das palavras cantadas.

PR - Neste disco assina a maioria das letras. Como é que sentiu ao assumir este “papel”?

Delia Fischer - Para mim é um passo construído com muito tempo de maturação. Componho desde criança e passei por anos do exercício da musica instrumental onde o piano sempre esteve à frente do material composto. No entanto sempre li e escrevi poesia muito mais por paixão. Na escola, recebi prémios pelas redações e poemas (apesar de nunca ter me sentido segura para mostrar esse material). Durante muitos anos não via a possibilidade de juntar a letra com o som. Especialmente vindo de um país de gigantes como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque e toda a tradição maravilhosa da MPB. Passei a maior parte da minha vida me aprofundando no exercício das diversas formas musicais, e nos meus primeiros álbuns de canções, trouxe grandes parceiros para carregar a palavra. Mas a canção me arrebatou e nasceu de forma totalmente espontânea nessas faixas, onde sons e palavras se casaram imediatamente sem me pedirem licença.

PR - Em Tempo Mínimo” partilha alguns temas com Ed Motta, Marcos Valle e Pretinho da Serrinha. Quer falar-nos um pouco destes duetos?

Delia Fischer - Marcos Valle é para mim um ídolo, não somente como o grande compositor e artista, mas também como ser humano. Ele me aponta sempre uma direção na forma de tratar a música, a carreira, e ainda cuidar-se e manter-se alegre e jovem, apesar dos mais de 70 anos. Marcos é um dos artistas mais joviais que já conheci, sempre em busca do novo em projetos e composições. Foi um grande encontro, como uma homenagem, mas também como inspiração. Pretinho da Serrinha me foi sugerido pelo produtor da faixa “Ela Furou” Rodrigo Tavares que, além de ter produzido, tocou também vários teclados nessa faixa. Rodrigo entendeu que eu queria que essa faixa tivesse humor e que fosse uma mistura forte com o samba e ninguém melhor que o genial Pretinho para trazer o cavaquinho, que fez a música decolar, e ainda cantar, trazendo toda a personalidade do samba. Ed Motta é meu querido amigo e irmão de muitas décadas. Tive a honra de ser sua professora de piano, de ter tocado com ele e de ter feito orquestrações para algumas de suas composições. Ed é um músico fenomenal, que não tem limites para criar nem para cantar. E esse dueto reflete a parceria, a amizade e a enorme afeição. A faixa foi escolhida por ele. “Feliz por um Triz” fala do tempo de uma emoção, da alegria momentânea, do eterno presente, passado no tempo da voz, que leva uma música à frente, e desse amor.

PR - ”Mercado”, single lançado em 2018, foi premiado Best Latin Song e Vox Populi no The Independent Music Awards, em Nova Iorque. De que é que nos fala este tema?

Delia Fischer - Essa música teve seu primeiro registo no meu álbum “Presente” e sempre achei que se mantém muito atual, justamente por falar de compra e venda, não apenas de coisas e objetos, mas dos nosso sonhos, ansiedades e amores. Nosso mundo capitalista de certa forma nos torna todos artigos de compra e venda. Revistas que vendem o sonho de se tornar magra, bela e sensual. O sonho de poder, com essas compras, conseguir conquistar o amor, aquele amor da novela e do sonho romântico. Ao mesmo tempo que faz a critica a quem quer vender tudo isso, até a própria alma. Um mercado de itens muito maiores e profundos nas nossas vidas e que não estão à venda, apesar do comércio nos querer vender essa fórmula de alegria e felicidade. Então regravei essa música, inicialmente como single. O prémio em Nova Iorque me fez perceber que essa música realmente ganhou fôlego e que merecia então entrar, pois está totalmente coerente com o tema do álbum .

PR - No próximo dia 27 de Julho há tempo para apresentar em Portugal, no Festival MIMO Amarante, o seu mais recente disco “Tempo Mínimo”. O que é que o público português pode esperar deste concerto?

Delia Fischer - Quero mostrar toda a alegria e profundidade por trás dessas faixas, que representam na verdade muito da minha trajetória na música, incluindo músicas que cantei nos musicais em que atuei e fiz a direção musical. Estarei ao lado da minha banda dos sonhos com Antonio Fischer -Band (guitarra, teclados, bateria, eletrónicas) e Matias Correa (Chapman stick, voz, percussão vocal). Com eles eu vivo e com eles escolhi fazer o som desse álbum nos palcos. Antonio é meu filho e Matias meu marido.

PR - Para terminar, que memórias guarda de 30 de anos de canções?

Delia Fischer - Acho que o som e a memória dos sons é o que me leva ao novo, então acho que isso é só o começo. Na verdade, o que me move é criar, inventar misturar no filtro dessa memória e gerar novas músicas, ideias e caminhos. Espero pelos próximos 30 anos para ficar cada dia mais ousada criativa e de certa forma jovem, porque a arte segue à frente do nosso passo, sempre à frente do que acontece. Quero que a música que trago comigo desde a infância me leve a caminhos cada dia mais intensos e profundos, contemporâneos e novos!




04/07/2019

SEBASTÃO ANTUNES & QUADRILHA | Discurso Direto


“Perguntei ao Tempo” assinala o 25º aniversário de carreira de Sebastião Antunes & Quadrilha. Este álbum reinterpreta alguns dos temas mais emblemáticos do grupo, assim como apresenta alguns originais. O disco conta com a participação de vários convidados que foram verdadeiramente importantes nesta história: Tim, João Pedro Pais, Viviane, Ana Laíns, Carlos Moisés, Rubi Machado, Rão Kyao e Mário Delgado. Sebastião Antunes é hoje meu convidado em "Discurso Direto".

Portugal Rebelde - Manter o retrato fiel dos primeiros tempos, acrescentando-lhe a modernidade para a qual o tempo nos vai levando É este o grande objetivo do álbum “Perguntei ao Tempo”?

Sebastião Antunes - Foi um dos objectivos deste trabalho tratar as músicas mais antigas de forma a que não nos afastássemos muito do original mas dando a textura que o tempo já alterou. Pois todos temos já outras experiências e vivências. Para além de uma comemoração é um trabalho de registo de mudança com o intuito de manter as ideias originais

PR - Este disco conta com a participação de vários convidados: Tim, João Pedro Pais e Viviane, entre outros. Todos eles foram importantes nesta “aventura”?

Sebastião Antunes - Todos eles foram muito importantes por duas grandes razões. Uma alguns por serem amigos de longa data e fazermos questão de partilhar este momento com eles, outros por serem para mim uma grande referência desde a minha adolescência

PR - Das 12 canções, que compõem este disco, há alguma que o “toque” em particular? Porquê?

Sebastião Antunes - É uma resposta difícil pois todas têm um sentido muito particular e cada uma tem a sua história. Todas elas são peças de uma construção e para além disso há por todas elas uma ligação afectiva que não me permite destacar nenhuma.

PR - O que é que o publico pode esperar de um concerto do Sebastião Antunes & Quadrilha?

Sebastião Antunes - Na maior parte dos casos muita festa. Nós temos um concerto festivo em que temos o hábito de convidar o público a participar de vez em quando vem um ou outro momento mais intimista. Afinal temos muitas mensagens ambientalistas e sempre estivemos ligados a causas.

PR - Para terminar, que memórias guarda de 25 anos de canções?

Sebastião Antunes - Guardo muito boas memórias fizemos muitos amigos crescemos com este projecto na mala e na vida. Muitos concertos, mas o mais importante é que queremos fazer ainda um pouco mais. Pela minha parte o que posso concluir é que há muito da minha vida neste projecto e o que posso dizer é um grande obrigado a todos os que nos ouviram e aos que connosco participaram.


RITA JOANA | Discurso Direto


Rita Joana, autora e compositora Conimbricense de 38 anos, cresceu numa aldeia do baixo Mondego, entre as memórias do trabalho do campo e os relatos fantasistas de lendas e ensinamentos de responsos. Foi em Santo Varão que aprendeu a estima pelos momentos de solidão que lhe conferiram o gosto pelo dramatismo melancólico. Calcorreando campos, nadando no rio foi, durante a sua infância, detentora de uma liberdade que sentiu castrada aquando da mudança da família para a cidade de Coimbra. Sentada na pequena sala de estar da sua nova casa, foi na televisão nacional que reencontrou o bucolismo que tanta falta lhe fazia, assistindo aos filmes de Joselito e Marisol. Estes dois companheiros que cantavam numa língua que lhe era estranha, mas compreensível, depressa lhe povoaram a imaginação. Mais tarde, como ponte entre a infância e a adolescência, encontra as personagens interpretadas por Sarita Montiel que, rapidamente a transporta para o universo cinematográfico mexicano. Rita Joana é hoje minha convidada em "Discurso Direto". Em destaque o álbum "El Cine".

Portugal Rebelde - “El Cine”, é um disco pensado para homenagear os intérpretes mexicanos, que entre os anos 40 e 60, foram as vedetas internados de uma estética musical e cinematográfica?

Rita Joana - O disco "El Cine" foi criado através de uma imagética mais sentida que pensada… Uma banda sonora que acompanhou, não apenas as personagens da Época de Ouro do Cinema Mexicano, mas, também, fases emblemáticas da minha vida… Umas mais pesadas que outras, como é apanágio da existência de todos nós. Assim, na tentativa de recriar um mundo onde não me sentisse deslocada, permiti-me chamar a mim fantasmas de que me fui enamorando desde pequena até à idade adulta, como Jorge Negrete, María Félix, Javier Solis, José Alfredo Jiménez…

PR - “El Cine” conta com uma canção original, em português. De homenagem à sua primeira paixão amadurecida, Sara Montiel. Esta é (mais) uma homenagem que não podia faltar?

Rita Joana - "A Vingança de Sara Montiel" foi uma canção que escrevi há, talvez, cinco anos. Ainda a tentei interpretar, mas não sabia como o fazer, sentindo que a dita vingança que ambicionava não estaria concretizada. Quando via a Sarita, escutava-a cantando músicas para homens que não lhe sabiam pertencer e isso era algo que, como fêmea, mesmo jovem, me trazia uma certa mágoa. Foi através dela que escutei a canção “Es mi hombre” mais tarde interpretada pela Barbra Streisand … Assim, quando escolhi colocar esta canção completando o circulo deste trabalho, escolhi quem julguei ser a pessoa certa para dar a força necessária à dita Vingança… A maravilhosa Lunada Cozetti.

PR - “La Noche de Tu partida” foi a canção escolhida para single de apresentação deste disco. Este é o tema que melhor define o “espírito” deste “El Cine”?

Rita Joana - "La Noche de Tu Partida" é um tema que, apesar de aparentar ser uma canção que canta o abandono, traz uma mensagem subliminar… O interprete rejeita o papel de enjeitado. Transforma a mensagem que comunica a quem o larga numa participação quase vingativa, alertando-o para o arrependimento que, breve se fará sentir. Assim, tendo em conta que este é um disco recheado de mensagens pessoais, que considero serem de todos, a um dado nível; visto que atravessamos fases emocionais muito semelhantes e sentimos as mesmas necessidades de coação, vingança, entrega, partilha e cumplicidade; este tema, pode ser considerado o primeiro prato frio de uma faustosa refeição.

PR - Luanda Cozetti, Susana Travassos e Celina da Piedade são algumas das convidadas deste disco. Como é que foram pensadas estas participações?

Rita Joana - A Luanda Cozetti é a alma preciosa que tanto me custou convidar. Uma das mulheres e cantauroras que mais admiro e que, por este mesmo motivo quase equacionei não convidar, tal era o constrangimento em endereçar um pedido destes. No entanto, para além da admiração que lhe voto é, também, uma amiga do peito e, por isso, acabei por respirar fundo, sabendo que seria a voz ideal para dar corpo à Vingança de Sara Montiel. A Susana Travassos é uma voz que acompanho desde há anos com profunda admiração. Quando, trabalhando a Puñalada Trapera me dei conta dos arranjos cada vez mais dramatizados, percebi que apenas a voz da Susana me iria satisfazer… Ainda hoje, quando escuto esta canção tenho dificuldade em conter as lágrimas, tal é a carga dramática que a Susana lhe coloca. A Celina dispensa apresentações… Tanto ela como os seus trinados alegres. Não me seria possível concretizar o Poquita Fe sem o auxilio da sua alegria. Foi uma felicidade imensa poder trabalhar com uma voz tão grandiosa.

PR - Numa frase como caracterizaria este “El Cine”?

Rita Joana - "El Cine" é a concretização da ordem que me deu La Doña; para mim é manter a beleza na planta dos pés.




29/06/2019

LOS VOLKS | Discurso Direto


Os amores, desilusões, ansiedades e inseguranças dos primeiros passos da vida adulta são inspiração para o álbum de estreia da banda brasileira Los Volks. Homónimo, o disco conta com participação especial da banda Vespas Mandarinas e já está disponível em todas as plataformas digitais. O álbum traz os singles “Transmutar” e “Guarde Suas Joias” (com a participação das Vespas) e é um caldeirão de influências em um retrato sentimental da banda. O trabalho passa pela música brasileira do anos 70, britpop e alt-rock noventista, além da música indie contemporânea. Hoje em "Discurso Direto" são meus convidados Los Volks, que "faixa-a-faia" desvendam as canções do primeiro disco da banda.

Cigana

A música aborda um romance onde o eu-lírico se encontra e se perde em meio aos devaneios de uma relação intensa medida pela distância sentimental e física entre ambos os envolvidos. (Pablo Mello)

Transmutar

Essa canção é responsável por resumir em si o que o disco busca abordar como um todo: o estado de transmutação, a mudança de um estado para o outro. O álbum, em seu conjunto de canções, tenta dialogar com a transição da juventude para o início da vida adulta. Enquanto isso, a faixa Transmutar o aborda tanto neste sentido quanto de modo relacionado às relações interpessoais. (Pablo Mello)

Guarde Suas Joias

Guarde Suas Joias é uma música sobre anseios e rotina. Ela tenta mostrar no quanto os desejos humanos podem refletir em quem estes mesmos representam para si próprios. Para isso, a letra obtém uma analogia entre a linha férrea guarujaense e a esfera, deixando-a em aberto para livre interpretação. (Pablo Mello)

Você Tem Que Acordar

Costumeiramente fugimos dos nossos medos, mas não deixamos de nos apegar às ilusões cotidianas. Isso acontece mesmo quando nos sentimos excluídos e procuramos grupos específicos para o convívio. Essa canção é sobre o sentimento de tristeza após determinada decepção, além da própria recomposição do personagem em questão. (Pablo Mello)

Então É Aqui

É muito fácil deixar-se levar por amores ou quaisquer amizades e afins. "Então É Aqui" aborda uma relação manipuladora e persuasiva, onde o eu-lírico sofre ao finalmente compreender que toda confiança que obtinha sobre o outro personagem está estremecida. (Pablo Mello)

Turquesa

O indivíduo entre a busca pela verdade e a identidade construída a partir de um meio social. A autodefesa aguda como a necessidade da sobrevivência na pós modernidade. (Nicolas Paparelli)

Tarde de Domingo

"Tarde de Domingo" foi gravada e lançada (inicialmente como single) em 2017. Agora, remasterizando-a, decidimos integrá-la ao setlist do disco após obtermos a percepção de que a sua letra se encaixa na temática das demais letras. Ou seja, ela puramente comenta sobre o início da vida adulta. No entanto, fala especificamente do momento pós queda e/ou desilusão ao entendimento da necessidade de um recomeço que torna-se visível para o eu-lírico ao decorrer da faixa. (Pablo Mello)

Santa Bárbara

"Santa Bárbara" é a síntese do homem adulto desalentado, alienado por um saudosismo tóxico e imerso no desejo imensurável de sentir o que já não pode mais sentir. (Vinícius de Souza)




05/06/2019

GAITEIROS DE LISBOA | Discurso Direto


Os Gaiteiros de Lisboa lançaram em Abril o novo álbum “Bestiário”, o sexto disco de originais dos seus quase 30 anos de carreira. Bestiário” confirma como os Gaiteiros de Lisboa, vinte e seis anos depois do início e com uma formação nova, continuam a ser “outra coisa”, a habitar o mesmo universo privado alheio a modas passageiras e aberto a tudo o que nele caiba. Ou seja, os mesmos Gaiteiros de sempre: imprevisíveis, inconfundíveis, imprescindíveis. Hoje em "Discurso Direto" é meu convidado Carlos Guerreiro.

Portugal Rebelde - ”Bestiário” é um disco que procura explorar novos caminhos?

Calos Guerreiro - Se considerarmos que essa é uma característica que permanence em nós desde o início, pode dizer-se que este disco não foge à regra. Se não, não valeria a pena. Seria a morte!

PR - Moderna, inventiva, viva, contemporânea e intemporal. São estes os adjetivos que continuam a marcar a música Gaiteiros de Lisboa?

Carlos Guerreiro - Pelo menos procuramos que assim seja. Por vezes somos traídos pelo próprio processo criativo, e nem sempre as coisas saem como foram imaginadas. Isso faz parte do processo, e às vezes o resultado acaba por ser ainda mais interessante. Cabe depois a quem ouve fazer o juízo final. Os nossos temas estão em mutação permanente. Acho, portanto, que nos assentam bem todos esses adjectivos.

PR - O novo álbum conta com convidados especiais como Zeca Medeiros, Filipa Pais, João Afonso, Pedro Oliveira (Sétima Legião), Rui Veloso e o colectivo vocal feminino “Segue-me à Capela“. Quer falar-nos um pouco destes “encontros”?

Carlos Guerreiro - Desde há alguns álbuns para cá , temos convidado amigos para participarem na gravação de alguns temas. É um hábito saudável que tem sido adoptado por grande parte dos artistas e bandas portugueses, e não só, e que serve para expressarmos uns aos outros a nossa admiração e carinho, para além das obras resultarem musicalmente muito enriquecidas.

PR - Vinte seis anos depois do início e com uma formação nova, “Bestiário” confirma os Gaiteiros de Lisboa como “outra coisa”?

Carlos Guerreiro - Essa é a forma natural da nossa existência.

PR - Que memórias guardam de 26 anos anos de carreira?

Carlos Guerreiro - Tudo na vida é feito de coisas boas e coisas menos boas. Não sei porquê, mas se me pedirem que fale de uma coisa má, vou ter que pensar um bocado, e não sei se conseguirei. O que fica de gratificante ao fim de 26 anos, são, sem dúvida, não apenas os concertos, mas também tudo o que está à volta: as pessoas que fomos conhecendo, os amigos que fomos fazendo, o lugar que fomos conquistando à mesa desta grande família musical portuguesa, as viagens, os aplausos, enfim, o reconhecimento de tudo aquilo por que temos lutado, e que só faz sentido se for compreendido por quem nos ouve, quer com os sentidos, quer com o corpo e as emoções.




17/05/2019

ALEN TAGUS | Discurso Direto


Nascido da associação inédita entre o músico português Charlie Mancini, pianista e compositor de música para cinema e a artista francesa Pamela Hute, melodista e roqueira de coração, Alen Tagus explora um universo musical repleto de imagens que convida à viagem. Uma viagem onírica que presta homenagem à narrativa cinematográfica. Charlie Mancini conheceu a música de Pamela Hute online e identificaram-se de imediato com o seu trabalho artístico. O processo de colaboração à distância começou com o tema “Time Passing By” do qual ficaram bastante satisfeitos e orgulhosos com o resultado e que recebeu vários elogios por parte da imprensa portuguesa, francesa e da comunidade online. No dia em que é editado o EP "Paris, Sines", são meus convidados em "Discurso Direto" Charlie Mancini e Pamela Hute

Portugal Rebelde - Antes de mais, como é que surgiu esta oportunidade para trabalhar com Pamela Hute ?

Charlie Mancini - Visto que gostei e identifiquei-me com o trabalho a solo da Pamela entrei em contacto com ela e enviei um tema que tinha concebido naquela altura. Passado pouco tempo a Pam trabalhou no seu estúdio adicionando bateria, guitarras, letra e voz. Foi uma enorme surpresa ouvir o resultado final da ´Time Passing By´!

Pamela Hute - O Charlie veio falar comigo e eu agradeço-lhe por isso!

PR - Como é decorreu este processo de colaboração à distancia – Paris, Sines?

Carlie Mancini - Este processo de colaboração à distância ainda está a decorrer! Continuamos a criar temas em conjunto que irão ser incluídos no segundo disco. O processo é simples: eu crio bases com o baixo elétrico, teclados e por vezes somo a essas ideias alguma percussão. A seguir envio as pistas separadas usando a cloud e a Pam cozinha a sua parte produzindo os temas. Este é um processo muito suave e prático, o que possibilita que ambos tenhamos tempo de amadurecer as ideias e ir propondo soluções. Esta é a forma que encontrámos para termos canções de realmente nos orgulhem.

Pamela Hute - Eu já tinha trabalhado nuns temas por email mas nunca ao ponto de fazer um EP completo. Como o Charlie diz, é um processo muito natural no nosso caso. Não andamos para a frente e para trás muito; concordamos em tudo muito rapidamente. Isso permite-nos trabalhar sozinhos, por isso é colaborativo porém ao mesmo tempo permitimo-nos ter espaço para nos expressarmos individualmente dedicando-nos à canção. Eu penso que é um processo criativo bem saudável.

PR - O titulo deste EP ecoa no filme de 1984, “Paris, Texas”. De que forma podemos relacionar este disco com a experiência desse mesmo filme?

Pamela Hute - Eu só vi o filme muito recentemente e pareceu-me óbvio que as nossas canções podem-se relacionar com as imagens deste filme. Espaços amplos, bares vazios, personagens coloridos, amor… Paris-Sines remete para o título do filme contudo não é a mesma coisa visto que o filme é sobre uma cidade chamada Paris, no estado do Texas e nós estamos a referir-nos a uma relação à distância!

Charlie Mancini - É uma excelente pergunta! O disco pode-se relacionar no ambiente cinematográfico que é sugerido a quem ouve a nossa música. O disco e o filme têm muito em comum: ambos focam-se em pontos de vista solitários… As canções são cantadas na primeira pessoa (como se fosse o próprio personagem Travis ou a Jane do filme de Wim Wenders) num tom confessional e deambulante. A Pam escreve sobre a dificuldade que por vezes há nas relações interpessoais e isso dá o mote para um piscar de olhos ao filme e a todo um imaginário de escapismo, existencialismo, de viagem permanente, da relação pai-filho, e de paisagens áridas… Isso está patente em momentos tensos e explosivos e outros mais contemplativos e serenos das canções do EP.

PR - Neste “Paris, Sines” explora também um universo musical repleto de imagens que convida à viagem. É de de alguma forma uma homenagem à narrativa cinematográfica?

Charlie Mancini - Sem dúvida, que da minha parte há sempre a paixão pelas bandas sonoras, pelo Design sonoro, pelo acompanhamento musical das imagens em movimento, até pelos próprios diálogos entre os personagens dos filmes. Há um universo musical muito ligado à força da imagem. Isso não é pensado para soar de uma maneira concreta. Simplesmente sai assim visto que são as referências que tenho enquanto espectador e músico acompanhador de cinema. A narrativa de ficção do cinema fica bem marcada nas letras que a Pam cria porque inspira-se nas histórias que os filmes contam e não só.

Pamela Hute - O Charlie escreve de uma forma natural temas para filmes. É uma influência forte e óbvio no seu background musical e as suas progressões harmónicas naturalmente disparam essas referências. O projecto é realmente construído à volta deste conceito; temos sempre imagens na cabeça quando compomos. As imagens podem dar uma grande dimensão à música e o oposto ainda funciona melhor. É algo interessante para explorar. Gostamos imenso de jogar com as referências e imaginação de quem nos ouve.

PR - Qual é o tema que melhor caracteriza o “espírito” deste “Paris, Sines”?

Charlie Mancini - Pessoalmente gosto muito do primeiro single "Time Passing By". Tem ali uma matriz forte do som Alen Tagus.

Pamela Hute - Sim, esta canção é sem dúvida especial. Foi a primeira que fizemos e já lá estavam todos os elementos.



PR - Pertence a um nova geração revivalista do cinema mudo. Existe algum género predileto para as suas improvisações ao vivo?

Charlie Mancini - Existe sim. Gosto muito de musicar comédia pastelão (slapstick comedy) porque tem muita dinâmica e o público fica mais concentrado na narrativa apresentada no ecrã.

PR - Para terminar, em que medida a música ao vivo enriquece a experiência de visualização de um filme?

Charlie Mancini - Talvez seja 50% da experiência ou por vezes até mais. Um bom exercício pode ser ver os grandes clássicos da sétima arte sem som e apercebermo-nos que perdemos bastante do impacto emocional. No período do “cinema mudo” sempre houve música tocada na sala ou teatro e toda a pantomima dos actores ajudava bastante a levar a mensagem ou a contar a história projectada no ecrã. Acredito que só as imagens não chegam. O som e a música complementam -nas perfeitamente e fazem com que o cinema seja uma das grandes experiências a que a humanidade tem acesso.


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