O Azores Burning Summer regressa à Praia dos Moinhos, no Porto Formoso, nos dias 28 e 29 de agosto. Com um percurso de mais de uma década marcado por distinções nacionais e internacionais, este Festival continua a afirmar-se como um dos projetos culturais mais relevantes dos Açores, cruzando música, natureza, sustentabilidade e comunidade num dos cenários mais emblemáticos da ilha de São Miguel. Filipe Tavares, diretor do Festival Azores Burnning Summer, é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - Música, natureza e sustentabilidade, são estas as “coordenadas” para mais uma
edição do Azores Burning Summer?
Filipe Tavares - Sim, mas acrescentaria uma quarta coordenada: as pessoas. O Azores Burning Summer nasce
da relação entre a música, a Praia dos Moinhos e a comunidade que nos recebe.
A praia não é apenas o cenário do festival. O mar, o verde, a luz, o anfiteatro natural do Parque
dos Moinhos e a proximidade dos moradores influenciam a escala, os horários, os acessos e a
própria curadoria musical. Não podemos impor um festival àquele lugar; temos de o escutar e
adaptar-nos às suas características.
A sustentabilidade resulta dessa responsabilidade. Está no estacionamento periférico, no
shuttle gratuito, nos veículos elétricos, nos copos reutilizáveis, nos ecopontos, nos sistemas de
refill, na gestão de resíduos e na opção de não massificar o evento. Cerca de 80% do
investimento é também direcionado para empresas dos Açores.
Existe, depois, um cuidado permanente com quem nos visita. Não temos zonas VIP, porque
queremos que todos façam parte da mesma experiência. Pensamos os acessos, o som, a
restauração, a circulação e o conforto. A tenda de 800 metros quadrados do recinto principal
permite acolher o público em caso de chuva, desde que estejam garantidas todas as condições
de segurança.
Queremos que as pessoas possam dançar, respirar, descobrir música e guardar uma memória
feliz da Praia dos Moinhos.
PR - Este festival continua a promover o encontro entre diferentes culturas em pleno
território açoriano. Quer falar-nos um pouco da programação desta edição?
Filipe Tavares - A edição de 2026 parte do Atlântico como espaço de encontro. A curadoria procura construir
uma narrativa musical coerente, na qual cada artista dialogue com os restantes, com a Praia
dos Moinhos e com a multiculturalidade do público.
O festival reúne pessoas dos Açores, comunidades imigrantes residentes na ilha, residentes
estrangeiros, visitantes nacionais e internacionais e um público fiel que regressa todos os anos.
São pessoas com histórias e referências culturais diferentes, que partilham o mesmo espaço
através da música. Essa diversidade é uma parte essencial da identidade do Azores Burning
Summer.
No dia 28 de agosto, o Palco Terra Nostra recebe Lura, Paulo Flores e Tabanka Djaz. Lura traz
Cabo Verde e uma música onde a morna, o batuque e o funaná dialogam com o presente.
Paulo Flores representa a força do semba angolano e uma escrita ligada à memória e à vida
quotidiana. Os Tabanka Djaz afirmam o gumbé como expressão fundamental da identidade da
Guiné-Bissau.
Será uma noite com um significado especial para as comunidades africanas residentes nos
Açores, mas também um convite para que todo o público descubra outras histórias, ritmos e
identidades.
No dia 29, abrimos outras geografias. Os Capitão Fausto cruzam pop-rock, psicadelismo e
melodias que fazem parte da vida de uma geração. Zé Ibarra traz uma nova música brasileira,
aberta à MPB, ao jazz, ao pop e à experimentação. Os Throes + The Shine unem Angola e
Portugal através do kuduro, do rock e da eletrónica.
Entre os concertos, o Palco KIA Tropical mantém a energia com vários DJ sets, incluindo
Adrian Sherwood, uma referência internacional da cultura dub. A programação alterna entre os
palcos, sem sobreposições, permitindo acompanhar todo o alinhamento.
É um cartaz diverso, mas unido por uma mesma ideia: aproximar culturas, criar descoberta e
fazer sentido naquele lugar.
PR - Para além dos concertos, o festival apresenta um conjunto de iniciativas culturais,
ambientais e comunitárias de acesso livre. Quer explicar-nos o que vai acontecer?
Filipe Tavares - Esta programação é uma parte central do festival e permite prolongar a sua relação com a
comunidade para além dos dois dias de concertos.
O Cinema da Autonomia leva “A Viagem Autonómica” a várias freguesias da Ribeira Grande,
aproximando diferentes gerações da história, da identidade coletiva e da açorianidade.
O Cinema na Praia transformou a Praia dos Moinhos numa sala ao ar livre durante quatro
noites. Todos os filmes foram realizados em ilhas do Atlântico e a programação reuniu três
regiões da Macaronésia — Açores, Canárias e Cabo Verde — através de histórias sobre
memória, território, criação e pertença.
O Letras n’Areia, desenvolvido com a Livraria Solmar, reúne livros, leitores e diferentes olhares
sobre os Açores. A literatura serve de ponto de partida para uma conversa sobre o mar, o
turismo e a forma como as ilhas são vividas e observadas.
Mantemos também o VIVE, dedicado à literacia em saúde e à promoção de hábitos de vida
saudáveis, e o HABITAT — Crescer Sustentável, que aproxima as crianças do património
natural marinho através de experiências educativas e do contacto com o conhecimento
científico.
Nos dias do festival realizam-se o Eco Market, dedicado ao ecodesign, ao artesanato e à
reutilização de materiais, e a Expo de Veículos Elétricos. Os veículos apresentados são
também utilizados no shuttle gratuito, permitindo ao público experimentar a mobilidade elétrica.
O Moinhos Revival trabalha a memória afetiva do lugar e apresenta, este ano, o concerto “Volta
ao Mundo em 80 Guitarras”, de Hector Belda OM.
São diferentes formas de promover cultura, conhecimento e participação, sempre com acesso
livre.
PR - Para terminar, três boas razões para não perder a edição de 2026 do Azores Burning
Summer.
Filipe Tavares - A primeira é a música. São dois dias pensados como uma viagem atlântica entre Cabo Verde,
Angola, Guiné-Bissau, Brasil e Portugal. Reunimos artistas consagrados e propostas que
merecem ser descobertas, num alinhamento construído para ser acompanhado do início ao
fim.
A segunda é o lugar. Assistir a um concerto entre o mar, o verde e o anfiteatro natural do
Parque dos Moinhos é uma experiência difícil de reproduzir. A escala do festival cria uma
proximidade especial entre artistas e público, num ambiente simultaneamente íntimo, aberto e
vibrante.
A terceira é o cuidado colocado na experiência. A programação não se sobrepõe, o shuttle é
gratuito, existem opções vegetarianas e veganas, não há zonas VIP e a tenda do recinto
principal oferece abrigo em caso de chuva. A isto junta-se uma programação gratuita de
cinema, literatura, saúde, educação ambiental, ecodesign e mobilidade sustentável.
É um festival para ouvir, dançar, respirar e sair da Praia dos Moinhos com a sensação de ter
vivido algo verdadeiramente especial.


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