08/07/2022

FESTIVAL FOLK CELTA REGRESSA A PONTE DA BARCA NO ÚLTIMO FIM DE SEMANA DE JULHO


Depois de dois anos de condicionamentos, Ponte da Barca volta a ser a capital da música no fim-de-semana de 29 a 31 de Julho, com o regresso do Festival Folk Celta ao seu formato habitual. O Choupal, nas margens do rio Lima, volta a ser palco deste evento de entrada gratuita em todos os espetáculos que conta, nesta edição, com nomes vindos de Cabo Verde, República do Níger, Espanha, Itália e Portugal.

O primeiro dia é oficialmente aberto com “prata da casa”, com o palco a ser entregue aos Gaiteiros de Bravães (19.00h), coletivo empenhado na recuperação dos ofícios de construir e tocar gaita de fole de Bravães, com uma escola-oficina em funcionamento desde 2019. A componente performativa do grupo resulta da vontade que os alunos têm em partilhar o entusiasmo de ter resgatado do arquivo do museu nacional de etnologia um instrumento matricial da cultura minhota. Logo de seguida Maria Mazzotta (20h30), cuja versatilidade única a torna numa das vozes mais importantes da cena musical da região italiana de Apulia e também das músicas do mundo à qual ela tem uma abordagem extremamente respeitosa, apoiada por uma meticulosa pesquisa nas características vocais das diferentes áreas e culturas cantadas pela artista, movendo-se entre os sons típicos do Sul do país e as influências da música Balcã, cativando a audiência com as suas sinceras interpretações. 

Depois é a vez de Celina da Piedade (22.00h), compositora, acordeonista e cantora que tem levado a sua criatividade aos mais variados contextos, da música de tradição a um sentir mais contemporâneo e universalista, passando por toda a riqueza do Cante Alentejano mas também pela energia do folk e da música pop. O palco é depois entregue a Bombino (23.30h), internacionalmente aclamado guitarrista e compositor tuaregue da região de Agadez, no Níger. A temática de suas canções remete frequentemente às questões geopolíticas do seu país e de seu povo, e são cantadas no dialeto tuaregue de Tamasheq. Nasceu na Nigéria, viveu na Argélia e na Líbia numa adolescência nómada e a guitarra tornou-se grande companhia. O reconhecimento internacional cresceu à medida que o seu som ultrapassava fronteiras. Hoje, pela mensagem das suas canções, Bombino é um herói do povo tuaregue. E sê-lo-á também para o público do Festival Folk Celta. 

O segundo dia do festival começa com Maria Monda (19h), projeto de três cantoras que aliam as suas vozes ao ritmo da percussão, para reinterpretar o cancioneiro lusófono e cantar a poesia de língua portuguesa. Sofia Adriana Portugal, Susana Quaresma e Tânia Cardoso partilham o gosto pela pesquisa vocal, sonora e cénica. Estas são as três mulheres que mondam canções e saberes antigos de forma contemporânea, através do canto polifónico e dos ritmos da percussão. A partir das 20h30 sobe ao palco Raízes, grupo que surgiu em Vila Verde, Braga no dia 25 de Abril de 1980, com o propósito de participar nas comemorações desta histórica data. Esta experiência criou raízes, as motivações ganharam força e a partir daí o grupo não mais parou, tendo vindo a desenvolver ao longo de mais de 40 anos um profícuo trabalho de pesquisa, recolha e divulgação da música tradicional portuguesa. 

Oscar Ibañez & Tribo (22.00h), são os senhores que se seguem. Gaiteiro e flautista galego, fascinante e de grande reconhecimento, Oscar Ibañez realiza uma fusão musical sem limites a partir das raízes, conciliando a investigação com a criação musical, o que se traduz numa sonoridade nova e única.  A fechar a segunda noite de festival, chega a vez de ouvir Mario Lucio & Os Kriols (23.45h). Mario Lucio é uma figura incontornável das artes em Cabo Verde. Cantor e compositor, mas também romancista, poeta e dramaturgo, foi ministro da Cultura do seu país, entre 2011 e 2016. 

É também um dos mais proeminentes pensadores do seu país, destacando-se o livro “Manifesto A Crioulização”, que tem motivado debates em vários pontos do mundo. Mas é a música que o traz a Ponte da Barca. Em 2021, numa experiência de estúdio, Mario Lucio encontra casualmente 5 músicos portugueses, que lhe proporcionaram a sonoridade crioula que procurava, dá-lhes o nome “Os Kriols”, e cria com eles um espetáculo com um repertório dançante, toado de ritmos cabo-verdianos e africanos, repleto de Morabeza e de Sodade, que enquadra dentro da sua filosofia da Crioulização, de Irmandade identitária, e que está a surpreender o público. 

O festival encerra no domingo, com o Coletivo Ciranda (17.00h), constituído pelas vozes e pelos sons antigos recolhidos por Michel Giacometti, Fernando Lopes Graça, Ernesto Veiga de Oliveira, José Alberto Sardinha, entre outros etnomusicólogos que percorreram o país de Norte a Sul, continente e ilhas, à procura de salvaguardar uma parte tão valiosa da nossa memória coletiva.

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