Os Glockenwise formaram-se na margem. Na margem geográfica, em Barcelos, uma pequena cidade industrial no Minho, onde a ideia de passar pela vida com anseio de fazer música – ou qualquer outra arte, para o efeito – era, ainda nos anos 2000, relativamente exótica; e na margem estética, forjados na energia inconformista do punk, sempre pontuados por uma característica melancolia que serviu de fio condutor até à identidade sonora presente, e que os tem vindo a demarcar de classificações mais evidentes. No princípio, fugir da margem era um incentivo poderoso para fazer música, e era o tema fundamental do lirismo associado – “How to get out? Out of this town?”, cantavam em Columbine. Gótico Português é, se não um regresso, um olhar apreciativo da margem.
Há um Portugal
a fervilhar na margem, abundante em manifestações culturais interessantes e bizarras, rico
e diverso em tradições visuais e orais. Onírico, criativo e surpreendente. Há um Portugal
esquecido na margem, sedento de representação mas obstinado, que se arregaça para
ocupar de forma inventiva o vazio deixado pelas carências materiais, culturais e metafísicas.
Para os Glockenwise, quase como que por epifania, tornou-se claro o paralelo entre esta
atitude voluntarista e criativa – que vai da olaria de Rosa Ramalho às bênçãos de
Alexandrina de Balazar – e a cultura de música Do It Yourself, que lhes permitiu
transgredir os limites que pareciam à partida impostos.
Temas sobre a identidade de quem está na meia-distância, dividido entre a margem e o
centro, escritos para tempos de incerteza, que requerem ainda mais canções.
"Gótico Português" fica disponível no próximo dia 17 de Fevereiro!

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