O novo single de Diogo Carriço, “Manifesto” , chega como um glitch na
simulação — inquietantemente preciso, estranhamente expressivo e impregnado
de um entusiasmo cibernético. Construído a partir de um conceito pós-humano
de expansão das capacidades do corpo com recurso a tecnologia, e o
lado distópico, a obra de Carriço converte desejos do imaginário cyberpunk
em design sonoro visceral.
O resultado? Uma faixa que confronta eletrónica
extasiante com um pianista de dedos robóticos — ou talvez um piano
possuído por fantasmas algorítmicos.
Inspirando-se nas desconstruções de trance de Lorenzo Senni e na estética
computacional de Quayola, “Manifesto” presta homenagem à magia
estranhamente familiar do piano Disklavier — um instrumento capaz de reagir a
mensagens MIDI, pressionando as teclas por si próprio.
Durante uma residência
artística em 2023, Carriço usou-o para compor cascatas pianísticas que
ondulam a velocidades sobre-humanas, distorcendo a tradição acústica
em algo alienígena e belo, e preparando assim o terreno para o trabalho em
“Manifesto”. “O ‘Ghost in the Shell’ tem uma cena em que uma personagem,
prestes a digitar num teclado de computador, desdobra as suas mãos numa
multiplicidade de dedos robóticos a alta velocidade. Perguntei-me como seria
tocar piano dessa forma”, comenta.
Em “Manifesto”, Carriço manipula também um sintetizador em tempo real
com os gestos da mão esquerda no ar — processados pelo seu próprio
protótipo de software, Qi — enquanto a mão direita toca as teclas. Essa
coordenação dividida do corpo, possibilitada por tecnologia de ponta de
rastreamento de mãos, confere à performance uma fluidez fantasmagórica e
uma sensação de distanciamento físico, como se estivéssemos a assistir a um
ciborgue em êxtase.
O piano — tratado aqui mais como um sintetizador do que como um
instrumento clássico — é estendido até aos seus limites conceituais: com
cordas abafadas e palhetadas, manipulações espectrais e simulações de
alterações na caixa de ressonância, o timbre familiar é desenvolvido de forma
irreconhecível. Em momentos de quietude estranha, uma talkbox intervém com
abruptos “oi”s e “ui”s — sarcásticos, destabilizadores — interrompendo o
devaneio como uma mensagem de alerta do sistema.
Lançado numa sexta-feira 13, junho, “Manifesto” soa como uma mensagem
vinda de um mundo à beira do êxtase tecnológico e do colapso. Não
questiona se a evolução pós-humana é boa ou má. Simplesmente soa ao que
vem depois.

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