14/06/2025

DIOGO CARRIÇO | Manifesto

O novo single de Diogo Carriço, “Manifesto” , chega como um glitch na simulação — inquietantemente preciso, estranhamente expressivo e impregnado de um entusiasmo cibernético. Construído a partir de um conceito pós-humano de expansão das capacidades do corpo com recurso a tecnologia, e o lado distópico, a obra de Carriço converte desejos do imaginário cyberpunk em design sonoro visceral. 

O resultado? Uma faixa que confronta eletrónica extasiante com um pianista de dedos robóticos — ou talvez um piano possuído por fantasmas algorítmicos. Inspirando-se nas desconstruções de trance de Lorenzo Senni e na estética computacional de Quayola, “Manifesto” presta homenagem à magia estranhamente familiar do piano Disklavier — um instrumento capaz de reagir a mensagens MIDI, pressionando as teclas por si próprio. 

Durante uma residência artística em 2023, Carriço usou-o para compor cascatas pianísticas que ondulam a velocidades sobre-humanas, distorcendo a tradição acústica em algo alienígena e belo, e preparando assim o terreno para o trabalho em “Manifesto”. “O ‘Ghost in the Shell’ tem uma cena em que uma personagem, prestes a digitar num teclado de computador, desdobra as suas mãos numa multiplicidade de dedos robóticos a alta velocidade. Perguntei-me como seria tocar piano dessa forma”, comenta. 

Em “Manifesto”, Carriço manipula também um sintetizador em tempo real com os gestos da mão esquerda no ar — processados pelo seu próprio protótipo de software, Qi — enquanto a mão direita toca as teclas. Essa coordenação dividida do corpo, possibilitada por tecnologia de ponta de rastreamento de mãos, confere à performance uma fluidez fantasmagórica e uma sensação de distanciamento físico, como se estivéssemos a assistir a um ciborgue em êxtase. 

O piano — tratado aqui mais como um sintetizador do que como um instrumento clássico — é estendido até aos seus limites conceituais: com cordas abafadas e palhetadas, manipulações espectrais e simulações de alterações na caixa de ressonância, o timbre familiar é desenvolvido de forma irreconhecível. Em momentos de quietude estranha, uma talkbox intervém com abruptos “oi”s e “ui”s — sarcásticos, destabilizadores — interrompendo o devaneio como uma mensagem de alerta do sistema. 

Lançado numa sexta-feira 13, junho, “Manifesto” soa como uma mensagem vinda de um mundo à beira do êxtase tecnológico e do colapso. Não questiona se a evolução pós-humana é boa ou má. Simplesmente soa ao que vem depois.

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