Num tempo marcado por discursos de divisão, fronteiras reforçadas e identidades colocadas em confronto, “Do Cabo do Mundo – um tributo imigrante a Fausto” afirma-se como um gesto artístico de encontro. Um projeto que parte da ideia de travessia, tão central na obra de Fausto, para a reinscrever no presente, convocando diferentes histórias, sotaques e pertenças como matéria criativa, afirmando o seu contributo ativo para o presente cultural em Portugal.
A sua proposta não é apenas revisitar um repertório, mas ativá-lo: devolvê-lo ao espaço público como lugar de escuta, de diálogo e de reconhecimento mútuo.
É nesse contexto que o Atlântico surge como eixo simbólico e estrutural. Mais do que um espaço geográfico, é entendido como território de ligação entre Portugal, África e Brasil, no fundo, um ponto de convergência histórico e cultural que a obra de Fausto atravessa de forma singular e que este projeto prolonga a partir de novas perspetivas.
Essa travessia traduz-se numa linguagem musical fortemente marcada pelo ritmo e pela polirritmia, onde a percussão assume um papel central e os arranjos exploram a convivência entre diferentes tradições: do samba ao maracatu, do funaná à morna. Neste território sonoro, canções emblemáticas como “Por Este Rio Acima”, “Lembra-me um Sonho Lindo” ou “Rosalinda” são revisitadas, revelando novas camadas de leitura e reafirmando a intemporalidade da escrita de Fausto.
A direção musical está a cargo de Carlos César Motta, baterista e percussionista com mais de três décadas de carreira, reconhecido pela sua sensibilidade, versatilidade e rigor artístico. Ao longo do seu percurso, integrou durante 12 anos a banda de Maria Bethânia e colaborou com artistas como Elza Soares, Simone ou Zélia Duncan. Residente em Portugal desde 2018, tem vindo a desenvolver um trabalho que cruza tradição e contemporaneidade, sendo também colaborador próximo de Luca Argel.

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