19/05/2007

CLAUDIA MATOS SILVA | DISCURSO DIRECTO

Hoje em discurso directo temos a "menina" da OPA (Onda Portuguesa no Ar). Fomos conhecer um pouco melhor este projecto de apoio e divulgação da nova música portuguesa.
No "ar" Claudia Matos Silva...
Portugal Rebelde - Como nasceu a idéia de uma OPA (leia-se Onda Portuguesa no Ar) sobre a Música Portuguesa?
Cláudia Matos Silva - A ideia da OPA foi uma espécie de “Cry for Help”, vendo agora à distância de um ano de existência. Há um ano atrás a minha vida estava mais árida que o deserto. Não havia absolutamente nada a nível de satisfação criativa, intelectual e a nível profissional. Tinha-me dado por vencida e achava que não valia a pena lutar pelo meu grande amor, que é a rádio. Fazer um programa sobre música portuguesa, na verdade, para mim era secundário. O importante era estar de volta à rádio, nem que para isso tivesse de fazer um programa sobre kizomba e aprender a falar crioulo. Va lá que não foi preciso e a ideia da OPA, que me foi proposta por uma rádio on line, a RAO, acabou por se tornar na menina dos meus olhos. Actualmente vejo neste programa, muito mais que um espaço de música portuguesa....há muito mais por trás...o contacto com as bandas, o entrar na realidade dos que fazem da música a sua vida. No fundo eles procuram o mesmo que eu...e se eu puder dar-lhes uma mãozinha, assim como eles me dão a mim, então assim é perfeito. Não é por acaso que se diz “uma mão lava a outra” e este é um exemplo disso.
P.R. - Qual tem sido a reacção dos músicos a esta OPA?
C.M.S. - Depende dos músicos. Há músicos que por terem um determinado estatuto, não ligam nenhuma à OPA. Mas com toda a franqueza, esses músicos são exactamente os que não interessam à OPA. Neste programa não há estrelas da companhia, nem músicos mimados pelas editoras que os colocam a tocar nas novelas da TVI ou que conseguem as primeiras partes (sabe-se lá porquê) de concertos de grandes estrelas internacionais. Os músicos que interessam à OPA, são os que gostam dela...os que disponibilizam sem reservas a sua música, quer partilha on line, quer pelos cds que enviam. Esses são sempre muito simpáticos em relação ao meu trabalho, embora eu saiba que actualmente existem cada vezes mais vozes a defender a nova música portuguesa e programas do género da OPA, vão surgindo de norte a sul do país, para mim não são concorrentes, são companheiros de luta. Espero que eles vejam a OPA da mesma maneira.
P.R. - Foste um dos "rostos" do recente Festival de Música de Corroios. Como é que vês o actual panorama da música nacional?
C.M.S. - Essa do Rosto de Festival de Corroios, gostei. Mas não concordo, os verdadeiros rostos foram as bandas que estiveram heroicamente a disputar o seu lugar ao sol. Foi para mim uma experiência ímpar e, sem querer fazer grandes previsões, desconfio ter sido um dos meus melhores momentos do ano. Se bem que 2007 tem sido um ano muito próspero em projectos profissionais. Respondendo à tua pergunta, bons músicos, criatividade e genialidade não nos falta. É por isso que existem festivais como o de Corroios. Servimos apenas como montra do que há e, claro, no que pudemos ajudar, ajudamos. Recordo-me assim por alto, que uma das bandas que ganhou o Festival há uns 2 anos atrás, foi mais tarde convidada para abrir a primeira parte dos UHF nas Festas de Corroios em Agosto...um dos eventos mais mediáticos não só da freguesia como da grande Lisboa. E é nisto que um festival pode ajudar, é claro, se as circunstâncias sociais, políticas e económicas não ajudam...depois acontece o que se tem visto. Mas acima de tudo vou ser muito sincera, mais do que haver falta de iniciativas para dar o tal “empurrãozinho” que a música portuguesa precisa, falta público suficientemente interessado no que é novo, arrojado e não precisa de ter um refrão orelhudo. Acima de tudo falta essa vontade dos ouvintes portugueses, que preferem o sucesso predefinido pela rádio, em vez de serem eles próprios a decidirem aquilo que querem ouvir e o que não querem ouvir. Isso é triste. O maior exemplo que posso ter disso, foi num dia destes quando fui a Góis, no distrito de Coimbra. Eu estava a apresentar o meu livro para uma plateia de adolescentes e falei-lhe de músicos da actualidade e eles para além de não conhecerem (e aqui não podem ser criticados), no entanto não mostraram a mínima vontade em conhecer, por mais que o meu apelo fosse cativante. E aqui sinto que isto é algo geracional. Nesse local tive direito a todas as condições técnicas para fazer uma boa apresentação...mas quando as pessoas não se interessam é quase como atirar “Pérolas a porcos”.
P.R. - O que falta à música "made in Portugal" para se impôr além fronteiras?
C.M.S. - Eu faço a pergunta de outra maneira. E será assim tão importante a música portuguesa impor-se além fronteiras? Eu acho que acima de tudo deviamos impor-nos em Portugal. Deviamos ensinar as pessoas a terem abertura de espírito para entender que música não é só o Rui Veloso e os amigos dos copos. Penso que a partir do momento em que o português aprender a amar apaixonadamente a sua música, facilmente ela se impõe além fronteiras. Vejamos os brasileiros ou espanhois? Amam o que fazem e o que fazem, nem sempre é melhor do que nós fazemos, bem pelo contrário. Mas eles têm orgulho na sua língua e na sua identidade. As suas músicas são um carimbo à sua identidade e quando isso acontecer com os nossos músicos, é caminho andado para que as coisas aconteçam no sentido da internacionalização. Não será por acaso que uma Mariza é o sucesso que é? Vejam aquela garra e paixão!Aquilo é que é amar ser portuguesa....
P.R. - Para além da "paixão" pela rádio, também te dedicas à escrita. Recententemente editaste o teu 1º livro "O meu umbigo". Fala-nos um pouco dessa aventura pela escrita.
C.M.S. - Este é aquele assunto que me inibe sempre. Antes de amar a rádio, já amava a escrita. Comecei a escrever com 8 anos, romances de cordel, literalmente...porque fazia a própria encadernação com uns cordelitos. Sempre achei que não tinha nível suficiente para escrever um livro. A minha opinião entretanto não mudou. Continuo a achar que me falta tudo para ser uma boa escritora. Mas digamos que “O meu umbigo” foi um acto de arrojo. Se a Margarida Rebelo Pinto escreve, então porquê eu não posso escrever também? Ela não é brilhante e vende. No meu caso não sou brilhante e mal vendo mas o objectivo foi provar a mim mesma que era capaz. E fui. Dígamos que o livro reúne cerca de 25 crónicas sobre assuntos que me apaixonam. São crónicas de assuntos diversos, desde situações pessoais, até uma critica sobre um livro ou um filme...cada página é uma surpresa...nunca se sabe o que vem a seguir. Há quem ache esta diversidade fantástica, depois há quem fique mais confuso. A única coisa que tenho como certa é que gostei da experiência e já comecei a escrever o meu segundo livro. Agora haja tempo para me dedicar a ele como gostaria.
P.R. - Para terminar, quando e onde podemos ouvir a OPA?
C.M.S. - A OPA pode ser ouvida 24 horas por dia on line, em podcast – www.programaopa.pt.vu ou então nas seguintes rádios; Singa FM (Sábado às 19h); RCA (Quarta-feira às 15h); RAO (Domingo às 20h); Lusanetfm Rádio (Quarta-feiras às 18h); Ultra Energy – Brazil (Domingo às 21h); Urbana FM (Sábado às 17h); Hertz FM (Sábado às 16h)

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