10/10/2007

DIABO A SETE | Discurso Directo

Coimbra foi a cidade que os viu nascer para a música. São sete e em 2003 formaram os "Diabo a Sete".“Parainfernália” é o nome do primeiro disco desta grupo, que mistura sons da tradição musical portuguesa com alguma modernidade. O Portugal Rebelde esteve recentemente à conversa com Miguel Cardina, responsável pelas percurssões e bateria, para conhecer melhor os Diabo a Sete e a alegria da música que nos oferecem no seu disco de estreia "Parainfernália".

Portugal Rebelde - Antes de mais, como e quando nasceu o projecto "Diabo a Sete"?
Miguel Cardina - A origem está ligada a um projecto musical que existiu em Coimbra entre 2001 e 2003 chamado Borda d’Água. Terminada a aventura, alguns elementos juntaram-se para fazer uma coisa diferente. Como dois deles – o Pedro e o Vasco – estavam no GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra), vieram daí outros músicos. Para quem não conhece, o GEFAC é um grupo académico que se dedica ao tratamento e ao ensino da cultura popular (música, teatro, dança) com preocupações de rigor mas sem uma abordagem estilizada ou purista. Mais tarde juntaram-se novos elementos, o próprio repertório foi ganhando maior consistência e o grupo estabilizou, há cerca de dois anos, na formação actual.
P.R. - Quais são as vossas referências musicais?
M.C. - Cada um de nós terá as suas. Somos gente nova que toca instrumentos de matriz tradicional, que gosta de sonoridades menos mainstream, mas que ouviu e ouve todo o tipo de géneros musicais. E isso não pode deixar de se reflectir no nosso trabalho. De qualquer maneira, e para ficarmos apenas na geração anterior à nossa, Brigada Victor Jara, Fausto, José Mário Branco, Júlio Pereira, Gaiteiros de Lisboa, Banda do Casaco, essa malta. E estrangeiros, claro. Mas aí entraríamos numa lista enorme que mais pareceria um catálogo de uma loja de discos.
P.R. - O Ponto de partida para a "aventura" musical em "Parainfernália", foi o cancioneiro popular português?
M.C. - Em boa medida, sim. Devemos muito às recolhas efectuadas pelo Kurt Schindler, Armando Leça, Michel Giacometti, Lopes Graça, Ernesto Veiga de Oliveira, pelo José Alberto Sardinha, pelo GEFAC e outros, que gravaram o que gente mais ou menos anónima tocava e cantava enquanto se divertia, trabalhava ou amava. Muitas vezes é destas melodias que partimos. Metade do álbum é constituído por temas tradicionais aos quais demos uma nova roupagem.
P.R. - No vosso disco de estreia não se limitam a tocar os sons tradicionais portugueses, houve muita preocupação da vossa parte em reinventar e dar alguma modernidade às vossas canções?
M.C. - Claro. A música é feita de reinvenção. Se tentássemos tocar os sons tal qual eles eram, não só não iríamos conseguir, como correríamos o sério risco de cair no ridículo. Em primeiro lugar, porque ninguém consegue definir com absoluta certeza como eles eram. Até porque a criatividade também estava lá. Havia sempre uma malta chata que introduzia alterações, inventava, criava temas, trazia outros ritmos e sonoridades de fora. Eram os cosmopolitas da altura. Que, curiosamente, são agora reivindicados pelos tradicionalistas. Em segundo lugar, e mesmo que se pudesse determinar a forma como se deve tocar determinado tema ou determinado ritmo, é preciso ver que a música não é o mero exercitar das mãos, da boca, ou dos pés. Tem a ver com a partilha de experiências, com uma espécie de comunhão que se estabelece entre quem toca e quem ouve. Pormo-nos muito compenetrados a tentar imitar uma qualquer coisa que era assim ia soar pouco genuíno. Mais, seria uma seca do caraças. Somos urbanos, o mundo de cada um de nós é diferente do mundo de quem estava numa aldeia há oitenta anos.
P.R. - No próximo mês de Novembro deslocam-se até Ankara na Turquia, para participar no European Youth Festival. Como é que surgiu o convite?
M.C. - Pela Internet. Por essa ferramenta espantosa que é o myspace.
P.R. - São Sete. Sete em palco. Que "diabruras" prometem soltar nos vossos espectáculos?
M.C. - Somos gente pacífica. Mas gostamos de coincidências.
P.R. - A que se ficou a dever a escolha do título, para o vosso primeiro trabalho"Parainfernália"?
M.C - O título agradou-nos porque permite várias leituras. Desde logo, remete para o lado heterodoxo como encaramos a criação musical. O que temos a dar é uma “parafernália” de sons, instrumentos, ritmos, Mas, claro, com algumas preocupações de rigor na apresentação dos temas – porque também é fácil cair no niilismo e dizer que, como não há uma tradição, tudo se equivale, o que é só meia-verdade.Por outro lado, o título remete-nos também para o domínio do “inferno”, que o nosso próprio nome evoca, e que na cultura popular está associado à festa, ao desregramento, à alegria, à diferença. A um lado menos enjoadinho de fazer as coisas. Mas sem confusões: somos gente pacífica.

Sem comentários:

/>