A música de José Afonso volta a ser revisitada, no ano em que se assinala o vigésimo aniversário da sua morte. Jacinta, uma cantora da área do Jazz, editou "Convexo"[A música de José Afonso]. A música do "Zeca" volta a ser homenageada. O Portugal Rebelde esteve à conversa com Jacinta para ficar a conhecer "Convexo"[A música de José Afonso].
Portugal Rebelde - Como é que nasceu a idéia de gravar este disco?
Jacinta - Este projecto teve a sua origem há mais de 1 ano. Durante a tournée Day Dream, composta por 22 concertos por todo o país (a primeira vez que aconteceu com uma banda de jazz a nível nacional), reparei que um dos temas do programa: Canção de Embalar de José Afonso, suscitava grande participação das audiências, elevando o concerto ao clímax. Além disso, cruzei-me com um antigo prof. Universitário, Amílcar Vasques Dias, e lancei-lhe o desafio de tocarmos juntos alguns dos seus arranjos da música do Zeca. O projecto foi crescendo e sendo modificado, e acabei por decidir desenvolvê-lo em formato jazz. No decorrer dos arranjos com Rui Caetano, pianista de jazz, percebi o forte potencial de cada um dos temas e decidimos avançar para disco. Claro, isto para além do facto de que tenho grande afinidade com a música deste grande compositor português, desde que me lembro, e desde que canto e toco.
P.R. - Foi difícil dar uma nova "roupagem" às canções de José Afonso?
Jacinta - Fiz os arranjos em conjunto com o Rui Caetano, com quem trabalho em diferentes projectos há quase 2 anos. Foi um processo muito interessante e nada forçado. Ele conseguiu materializar as concepções que eu tinha para algumas das canções e fez também uma ou duas sozinho. Sonoridades, ambientes, abordagens harmónicas ou rítmicas surgiam como conceito e o Rui imediatamente os transformava em música ao piano. Para além disso tivemos tambem a forte colaboração do Bruno Pedroso que se juntou às sessões mais tarde.
P.R. - "Convexo", é mais que um disco de homenagem a José Afonso?
Jacinta - “Convexo” é dedicado a José Afonso, que é o autor escolhido para todo o disco. Tentámos explorar ao máximo cada uma das canções, como se fossem standards de jazz – a estrutura e as principais características da composição são respeitadas, mas daí parte-se para novos ambientes sonoros, baseados no que o próprio tema contém. As raízes africanas, jazzísticas, clássicas ou do folclore português são desenvolvidas e é criado um novo ambiente sonoro para cada canção. Para além disso, a improvisação, as tramas rítmicas e polirrítmicas e os padrões harmónicos transformam cada canção num ambiente diferente e tão próprio do jazz.
P.R. - A Jacinta é uma cantora da área do Jazz. Acredita que pode chegar a outro público com as canções do Zeca?
Jacinta - Zeca Afonso é um ícone na História da música portuguesa. Por isso mesmo é um grande risco pegar na música dele. Muitos artistas, este ano – da comemoração dos 20 anos da sua morte –, sentiram o apelo para o fazer e eu, como grande admiradora da sua obra, achei que seria uma excelente oportunidade para o fazer. Até porque talvez não me venha a cruzar mais com este tipo de música na minha carreira discográfica, não sei...
P.R. - Já apresentou este disco na última Festa do Avante. Como é que o público reagiu às "novas" canções de José Afonso?
Jacinta - No Palco 1º de Maio tivemos cerca de 3000 pessoas. A camada mais jovem enchia toda a primeira plateia, gritando o meu nome, cantando e dançando durante todo o concerto, alternando com fases calmas de grande apreciação da música. Perto do fim, aproximaram-se do palco e ficaram assim, de pé, com uma grande energia positiva até ao final. Atingimos um recorde de vendas de discos de qualquer festa do Avante e eu estive umas boas 2 horas a dar autógrafos. Correu mesmo muito bem, saímos todos de lá com um grande sorriso nos lábios.
P.R. - Em breve vai realizar uma digressão com base no novo trabalho. O que é que o público pode esperar da Jacinta,nos concertos de apresentação de "Convexo"?
Jacinta - O programa será maioritariamente o do disco, mas a nossa interpretação será sempre diferente. Cada plateia é determinante no tipo de energia criada na sala e no palco. As improvisações serão mais longas e daremos mais asas à nossa criatividade a todos os níveis, dependendo do quanto o público vai puxar por nós…
P.R. - A música de José Afonso é para si uma referência incontornável?
Jacinta - Sem dúvida! A música portuguesa, de qualquer estilo, nunca mais foi a mesma desde Zeca Afonso. Ele foi às origens da música portuguesa, integrando o folclore mais puro nas suas composições, cujas letras eram fortíssimas e bem longe da serenidade campestre e popular. Os seus discos apresentam um cuidado enorme com o pormenor. As interpretações vocais e instrumentais são de grande requinte e vão buscar influências também à música clássica, à música africana, e ao jazz. Nada é deixado ao acaso. Eu diria que a música do Zeca, sendo verdadeiramente portuguesa na sua génese, veio a ser pioneira na modernidade e influenciou todos os grupos de pop/rock português que se formaram nas décadas seguintes.
1 comentário:
Este album é uma seca...não há pachorra pra ir além da terceira faixa.
Alguém gostou disto?
Vou é ver os Couple Coffee no CCB em novembro!
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