21/12/2007

ANA LAÍNS | Discurso Directo

Nascida em 1979, em Tomar, Ana Laíns desde cedo começou a cantar e sempre teve gostos musicais eclécticos, do jazz à bossa nova. Em 1996 participa nos primeiros concursos de música, tendo ganho vários prémios, sendo também vencedora da edição da Grande Noite do Fado de 1999. “Sentidos”, o seu álbum de estreia, surge em 2006 com o selo Different World,uma abordagem contemporânea ao Fado, onde constam alguns temas mais introspectivos com melodias simples ao estilo de embalar que, por vezes, nos remetem a um imaginário de infância. O Portugal Rebelde convidou Ana Laíns para em "Discurso Directo" nos falar do fado e do seu disco de estreia. Apurem os "sentidos" para esta conversa e deixem-se levar pelas emoções do Fado.
Portugal Rebelde - Como é que o fado "invadiu" a sua vida?
Ana Laíns - O Fado não invadiu a minha vida. Na realidade entrou bem de mansinho. Eu sou ribatejana e como se sabe o Ribatejo é muito rico na sua tradição fadista. Quando me comecei a aperceber do gosto em cantar, isto é, pelo menos de forma mais consciente, fui por caminhos paralelos ao Fado que em nenhum momento se poderiam interceptar… pensava eu! Até ao dia em que num concurso de música regional me cruzei com um fadista da nossa praça que me sugeriu tentar cantar o Fado. Eu tinha 16 anos quando cantei o mouraria estilizado acompanhada à guitarra e à viola pela primeira vez… Gostei! Mas continuei envolvida com as “cores musicais da moda”. Fui conhecendo melhor o estilo pois comecei a frequentar as noites de Fado ribatejanas, a curiosidade foi aumentando. Primeiro a D. Amália Rodrigues, depois a D. Fernanda Maria, depois tantas outras… E sem conseguir explicar porquê, foi em pleno palco do Coliseu dos Recreios, em 1999 que me rendi a um grande amor, daqueles que não vão acabar nunca. O Fado chegou ao meu coração para ficar!
P.R. - Em 1999 venceu a Grande Noite de Fado de Lisboa. Que visibilidade na sua carreira lhe trouxe este prémio?
A.L. - Vencer a grande noite do Fado foi extremamente importante no que toca ao entendimento que tenho de mim enquanto cantora… Naturalmente desperta os meus sentidos, levando a que me renda não apenas ao estilo, mas primordialmente ao facto de que eu podia passar a mensagem e ser compreendida através desta forma de expressão. Porém, como se sabe, a grande noite do Fado já não tem no mercado a mesma força que teve em tempos. Talvez devido a toda esta massificação que o Fado tem vivido na última década… somos muitos, dentro e fora da grande noite! Respondendo à pergunta, eu diria que a grande noite não me deu visibilidade mas deu-me a força para a alcançar… Foi esse o momento em que assinei comigo mesma o compromisso de construir uma carreira.
P.R. - No ano de 2006 edita "Sentidos", o seu álbum de estreia. Este disco foi o "passaporte" para levar a sua música além fronteiras?
A.L. - Antes de editar este disco, eu já havia cantado em vários cantos do mundo. Todavia, este disco é o espelho do meu percurso, de todas as minhas verdades. É, por agora, a minha identidade. Tem sido muito bem criticado nacional e internacionalmente… e surgem os primeiros convites para apresentar aquela que é a minha música de facto. Por isso, sim, poder-se-á dizer que este álbum foi o passaporte para levar o meu “eu” além fronteiras.
P.R. - "Sentidos", é uma viagem musical, que tem como porto seguro o Fado. A abordagem que faz ao Fado neste disco, tem como referência a música tradicional portuguesa. É uma visão contemporânea do Fado?
A.L. - Não, de forma alguma! Eu não tenho a pretensão de modernizar o Fado. Para lhe dizer com franqueza eu nem sei bem o que é isso do “novo Fado”. Para mim é o Fado de sempre cantado e tocado por intérpretes e músicos da actualidade. E a actualidade é de tal forma globalizada que a música, tem necessariamente de sofrer algumas “metamorfoses”. Mas eu não tenho um projecto experimentalista ou pretensioso. O meu disco é a forma como me entendo enquanto cantora e reflecte, mesmo, as minhas experiências, as minhas paixões. Eu sou afincadamente uma defensora da música portuguesa, porque considero que ela é uma das maiores culturas musicais do mundo. Fiz parte de grupos de música tradicional portuguesa e canto o Fado desde que o descobri. Procuro simplesmente criar a minha cor. A música é uma forma de expressão muito abrangente, e não existe apenas o branco e o preto. Existem por dentro milhões de tons de cinzento. Neste momento não temos com que nos preocupar pois o Fado enquanto espelho de uma cultura, de uma forma de estar e sentir, está muito bem entregue!
P.R. - Depois de ter dado voz a vários projectos, desde o Jazz à bossa nova, é no Fado que se sente fiel aos seus sentidos?
A.L. - É a cantar o meu Fado (todos nós temos um) que me sinto fiel aos meus sentidos. Do meu Fado fazem parte muitas vivências. Vivências essas que também passaram pelo jazz e pela bossa nova e me fizeram desenvolver enquanto cantora a todos os níveis. O meu percurso é muito eclético, e eu fiz de tudo um pouco. Cantei em casinos, hotéis, participei em concursos, fiz musicais… descobri a música francesa, o flamenco, o tango… apaixonei-me pelo piano, pela guitarra portuguesa, pelo acordeão, pelas percussões portuguesas…. Já fui muito feliz a cantar e o canto já me fez sentir miserável… Mas quando chega o Fado, ainda hoje não sei explicar o que sinto!!! É demasiado emotivo para ser explicado!
P.R. - Que "sentidos" procura despertar no público que ouve as suas canções?
A.L. - Não quero mudar o mundo, apenas porque não posso! Por isso desejo que nos “entretantos” da vida dura que vivemos, possa proporcionar a quem me ouve um pouco de amor, calma, tranquilidade!

Sem comentários:

/>