Não é frequente, mas por vezes acontece: um artista decide abordar uma área criativa que não é habitualmente a sua. No caso de Rodrigo Amado, mais do que uma abordagem, trata-se de um mergulho profundo. Amado é um dos mais importantes músicos nacionais a trabalhar na área do jazz contemporâneo, e um dos que alcançou maior projecção a nível internacional.“Close/Closer”, a sua primeira exposição fotográfica, é uma continuidade de vários aspectos já trabalhados na sua obra musical. As imagens seleccionadas para esta primeira apresentação são fragmentos do círculo mais íntimo do artista: autoretratos, retratos de familiares ou amigos mais próximos. O Portugal Rebelde esteve à conversa com Rodrigo Amado e desvenda-lhe agora os "segredos" da primeira exposição fotográfica de Rodrigo Amado, "Close/Closer".
Portugal Rebelde - Como é que surgiu a ideia de abordar uma área, que não é habitualmente a sua, a fotografia?
Rodrigo Amado - Fotografo desde bastante pequeno, embora de uma forma totalmente amadora, como a maioria das pessoas. Ao longo do tempo, esse interesse foi crescendo e foram surgindo oportunidades para utilizar algumas das fotos em cartazes, imprensa ou capas de discos. Só muito recentemente comecei a dedicar à fotografia uma atenção idêntica aquela que dedico à música. A colaboração, recente, com o fotógrafo António Júlio Duarte, veio intensificar ainda mais a vontade de desenvolver uma linguagem fotográfica.
PR - Que "imagens" podemos encontrar na exposição "Close/Closer"?
RA - Esta primeira exposição apresenta imagens de um círculo intimo de amigos e familiares. Sobretudo retratos e auto-retratos. O grande desafio foi trazer essas imagens para fora dessa influência familiar e torná-las relevantes para quem está de fora. Procurei transformar imagens de circunstância, esses retratos de amigos e família, numa visão artística sobre as emoções, sobre as relações humanas.
PR - Nesta sua primeira exposição, a fotografia surge como prolongamento dos aspectos já trabalhados na sua área musica, o Jazz?
RA - Isso acontece no sentido em que encaro música e fotografia de uma forma puramente artística. Sendo assim, pode-se comparar, por exemplo, o processo de selecção das fotografias a expôr com o processo da escolha do alinhamento de um disco. Essa escolha é, em ambos os casos, essencial para a consistência final da obra, para a sua relevância artística. No fundo é essa escolha que define o que queremos realmente dizer. Os 20 anos que passei a desenvolver conceitos e linguagens musicais reflectem-se necessáriamente no meu trabalho ao abordar esta nova área.
PR - Vê a música como um "momento" que o público regista?
RA - Tanto na música como na fotografia trabalho com a energia do momento, de uma forma instintiva. Na música, os meus projectos são totalmente dedicados à composição em tempo real, ou seja, improvisação total. Nesse sentido, aquilo que é tocado ao vivo existe nesse momento, podendo apenas prolongar-se no tempo através da gravação para disco.
PR - Tem vindo gradualmente a intensificar a sua dedicação à fotografia. A música vai ficar para segundo plano?
RA - Não, de forma nenhuma. Tenho uma série de projectos agendados para 2008 que vão garantir uma dedicação intensa ao longo do ano. No início do ano será editado o próximo registo dos Lisbon Improvisation Players, desta vez com Zé Eduardo no contrabaixo, Bruno Pedroso na bateria e Dennis Gonzalez no trompete. Em Julho tenho um concerto no CCB com Kent Kessler e Paal Nilssen-Love que irá dar origem ao segundo disco do trio. Finalmente, em Setembro, estreio o meu novo projecto dedicado à cidade de Nova Iorque, com dois concertos, na Culturgest e na Casa da Música, que terão uma projecção sequenciada em tempo real de imagens de NY que fiz nos últimos quatro anos. Será um quarteto com Taylor Ho Bynum, John Hebert e Gerald Cleaver, que irá também ser gravado para edição futura.
PR - Dê-nos dois motivos para não perdermos de "vista" esta exposição, que está na galeria Kameraphoto até ao próximo dia 26 de Janeiro.
RA - É pouco frequente termos a oportunidade de presenciar, de um ponto de vista neutro, um círculo íntimo de acontecimentos/relações como aquele que optei por expor. As imagens são grandes e bastante impactantes e a exposição tem recolhido as melhores impressões por parte das mais diversas pessoas...espero que gostem.
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