Hip Hop e Jazz são frutos da mesma árvore e por isso andam juntos praticamente desde que no Bronx se começaram a imaginar os enunciados originais da cultura que deu ao mundo Afrika Bambaataa, o dj de scratch, rimas inflamadas e ritmos traduzíveis em acrobáticos gestos físicos.
Em 2005, quando a produção Hip Hop nacional ainda procurava uma identidade própria, D-Mars assinou um dos factos do ano com “The Pyramid Sessions”, um álbum que deixava de lado a armadilha narrativa em que se podia tornar o discurso rap para longe das palavras olhar para o jazz a partir de um sampler, de uma colecção de discos e do esboço de uma vontade de partilha de ideias que o levou a colaborar, entre outras pessoas, com o guitarrista T-One (líder dos funkers Mr. Lizard) e Rodrigo Amado (saxofonista com uma carreira notável no mundo do novo jazz).
O resultado foi muito positivo: “The Pyramid Sessions” era puro Hip Hop, mas estendia o olhar para lá das margens que por cá já se começavam a desenhar nessa cultura.
Agora, D-Mars e o seu alter-ego Rocky Marsiano têm novo álbum: gravado entre Amesterdão, cidade para onde o produtor luso-croata se mudou nos últimos dois anos, e Lisboa, “Outside the Pyramid” posiciona-se a um tempo como a continuação lógica do registo de estreia e como algo de completamente diferente.
O tema “The End of Something”, por exemplo, soa, paradoxalmente, ao início de algo completamente novo: toada jazzy, pontuação hip hop, pormenores de orquestração inteiramente cinemáticos e, de repente, o sinal de diferença – um rasgo de electrónica a projectar o conjunto para a estratosfera sem que nada o indicasse. Há igualmente piscadelas de olho ao Brasil (“Break ‘Em Off!” e “Zum Zum Zum”), excursões pelo domínio do funk (“Rocky’s Funk Anthem” com a certeira colaboração de D_Fine) e objectos não identificados que colocam esta música em território ainda não devidamente cartografado (“The Meeting” tema apropriadamente baptizado onde uma cadência house sustenta um encontro entre um pulsar jazzy e o que parecem ser salpicos de blaxpoitation e de abstracção pura; e ainda “Amstel Hustle” com mais electrónica a deslocar o centro de gravidade).
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