18/04/2008

D-MARS | "Outside The Pyramid"

Hip Hop e Jazz são frutos da mesma árvore e por isso andam juntos praticamente desde que no Bronx se começaram a imaginar os enunciados originais da cultura que deu ao mundo Afrika Bambaataa, o dj de scratch, rimas inflamadas e ritmos traduzíveis em acrobáticos gestos físicos.
O cruzamento dessas duas linguagens tem portanto uma história longa e episódios notáveis como “Rockit” (quando Herbie imaginou um futuro eléctrico com a ajuda de Grandmixer DST), “Jazzmatazz” (quando Guru percebeu que a cadência da palavra podia seguir os mesmos ritmos da imaginação de estetas como Donald Byrd) ou até “Drunk Trumpet” (quando Kid Koala afirmou que um velho pedaço de vinil chegava para erguer um discurso próprio).
Em 2005, quando a produção Hip Hop nacional ainda procurava uma identidade própria, D-Mars assinou um dos factos do ano com “The Pyramid Sessions”, um álbum que deixava de lado a armadilha narrativa em que se podia tornar o discurso rap para longe das palavras olhar para o jazz a partir de um sampler, de uma colecção de discos e do esboço de uma vontade de partilha de ideias que o levou a colaborar, entre outras pessoas, com o guitarrista T-One (líder dos funkers Mr. Lizard) e Rodrigo Amado (saxofonista com uma carreira notável no mundo do novo jazz).
O resultado foi muito positivo: “The Pyramid Sessions” era puro Hip Hop, mas estendia o olhar para lá das margens que por cá já se começavam a desenhar nessa cultura.
Agora, D-Mars e o seu alter-ego Rocky Marsiano têm novo álbum: gravado entre Amesterdão, cidade para onde o produtor luso-croata se mudou nos últimos dois anos, e Lisboa, “Outside the Pyramid” posiciona-se a um tempo como a continuação lógica do registo de estreia e como algo de completamente diferente.
O tema “The End of Something”, por exemplo, soa, paradoxalmente, ao início de algo completamente novo: toada jazzy, pontuação hip hop, pormenores de orquestração inteiramente cinemáticos e, de repente, o sinal de diferença – um rasgo de electrónica a projectar o conjunto para a estratosfera sem que nada o indicasse. Há igualmente piscadelas de olho ao Brasil (“Break ‘Em Off!” e “Zum Zum Zum”), excursões pelo domínio do funk (“Rocky’s Funk Anthem” com a certeira colaboração de D_Fine) e objectos não identificados que colocam esta música em território ainda não devidamente cartografado (“The Meeting” tema apropriadamente baptizado onde uma cadência house sustenta um encontro entre um pulsar jazzy e o que parecem ser salpicos de blaxpoitation e de abstracção pura; e ainda “Amstel Hustle” com mais electrónica a deslocar o centro de gravidade).

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