06/04/2011

DAZKARIEH | Discurso Direto

Joana Negrão, a voz dos Dazkarieh é hoje a nossa convidada em "Discurso Direto". "Ruído do Silêncio", o 5º registo do grupo, já se encontra nas lojas, um disco, que nos leva pelo imaginário sonoro de Portugal, conferindo-lhe uma uma nova "leitura" à luz da modernidade.

Portugal Rebelde - Depois de uma digressão internacional que levou os Dazkarieh a salas e festivais da Malásia, Alemanha, Áustria, Estónia, Polónia, Espanha e Portugal, a banda regressa com “Ruído do Silêncio”, um disco que revela uma banda mais madura e que explora a sua sonoridade já consolidada em volta da música de raíz tradicional. É mesmo assim?

Joana Negrão - Exactamente, a introdução à pergunta diz tudo. Neste disco sentimo-nos mais maduros, mais calmos e em paz para poder experimentar o que queríamos e deixar a música fluir sem limitações. Sentimos que alcançámos o nosso som e que este disco é uma afirmação mais sólida do mesmo.

PR - Os doze temas, que compõem este registo levam-nos numa viagem pelo imaginário sonoro de Portugal e do Mundo. Quer falar-nos um pouco desta viagem?

JN - Levam-nos pelo imaginário sonoro de Portugal ao trazer à luz da nossa urbanidade alguns temas tradicionais (Minho, Trás-os-Montes e Beiras) com instrumentos portugueses (cavaquinho, gaitas-de-fole, adufe) do Mundo porque somos cidadãos do Mundo e a nossa vivência é marcada constantemente pelos contactos com outras culturas, através dos instrumentos (como a Nichelharpa e o bouzouki) e formas de estar que alteram a nossa visão do mesmo, o que acaba por se reflectir na música que fazemos. E também nos leva numa viagem interior, descendo às profundezas do nosso Ser para sentirmos o bater do coração e aprendermos a olhar para dentro e conhecermo-nos melhor para podermos operar transformações em nós e no Mundo que nos rodeia.

PR - Neste trabalho, os Dazkarieh exploram os caminhos do passado escutando e tocando recolhas antigas e tornando-as vivas para as novas gerações.  É desta forma, que pretende levar a vossa música a um público mais jovem?

JN - Explorar tradições musicais do passado e tocá-las através da nossa abordagem à mesma trá-las automaticamente para um universo contemporâneo e dessa forma mais apelativas a um público mais jovem. No entanto, sentimos que a nossa música atravessa gerações e que tanto os jovens como os pais dos jovens podem retirar coisas que interessam a ambas as gerações. Porque a mãe ou a avó se lembra de determinada canção ou dito popular e o filho adora a distorção e os efeitos da mesma música e acaba por também dar mais atenção à história, porque o ambiente sonoro lhe interessa mais. De qualquer forma, estas coisas são sempre abstractas e este pode ser apenas um lado da moeda, mas é verdade que sentimos que nos nossos concertos há sempre um leque variado de idades e de tipos de público. O mais interessante é que, no fundo, a música chegue ao coração das pessoas.

PR - Numa frase apenas - ou duas - como caracterizaria este  "Ruído do Silêncio"?

JN - É um disco com muitos momentos de contemplação e intimismo, tanto nos ambientes sonoros como nas letras, que falam de recolhimento, contemplação, meditação, escutar o coração e outros momentos de explosão sonora, experimentação e exteriorização.

PR - Em “Ruído do Silêncio” os Dazkarieh contam com a participação dos Velha Gaiteira nas percussões e gaita-de-foles transmontana e André Galvão no contrabaixo. Estes convidados espelham de alguma forma os “caminhos sonoros” que grupo explora?

JN - Convidámo-los porque achámos que eram as pessoas ideais para gravar as músicas onde participaram. No caso dos Velha Gaiteira porque têm uma relação muito próxima com o contexto da percussão tradicional e gaita transmontana (“Repasseado da Calçada”) e no caso do André Galvão porque sentimos que o seu contra-baixo era o elemento que faltava (“Ruído do Silêncio”, “Moda da Ceifa I” e “Mazurka da Água”).

PR - Os Dazkarieh apresentam-se com alguma regularidade em Festivais Internacionais. Como é público recebe a vossa música?

JN - Somos sempre muito bem recebidos lá fora. De uma forma geral as pessoas têm grande curiosidade em conhecer música Portuguesa diferente do Fado. E nós levamos-lhes um Portugal que não é Fado, que é uma série de outras tradições, emoções e ritmos. Seja pelo que retiramos dos temas tradicionais ou o que lhes damos através do nosso sentir em Português.

PR - Para terminar, a que se ficou a dever a escolha de “Ruído do Silêncio”, para título deste trabalho?

JN - Os momentos mais intimistas e a explosão sonora são dois lados que têm caracterizado o som dos Dazkarieh e que neste disco decidimos trabalhá-los mais a fundo, tentando perceber quem somos nós no meio do Ruído que nos rodeia e onde reside o Silêncio. E por isso, a escolha do titulo foi só um passo natural quando sentimos que todo o disco girava em torno deste tema.

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