Depois do aclamado álbum de tributo a José Afonso, os Frei Fado estão de
regresso aos discos com "Se o Meu Coração Não Erra", um espaço de novas
texturas sonoras suportadas por diversas correntes de estética literária
e por uma fluidez de movimentos de minimalismo contemporâneo,
resolvendo um cuidado momento de renovação estética na linguagem musical
do grupo. Rui Tinoco, é hoje o meu convidado em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - ”Se o Meu Coração Não Erra”
é o disco que dá inicio a um novo ciclo na vida dos Frei Fado?
Rui Tinoco - É sem dúvida uma nova etapa num percurso
já de longos anos em que sentimos uma especial necessidade de nos regeneramos e
de explorar novos padrões sonoros que, embora não rompessem com todo o percurso
que os Frei Fado têm vindo a percorrer, pudessem construir diferentes
ambientes, bebendo de novas influências e abandonando modelos de composição
característicos dos dois primeiros trabalhos e que aplicamos intensivamente no
anterior cd de tributo ao José Afonso. É o disco que dá continuidade a um projeto
com uma visão de futuro, que consolida um sólido percurso no tempo, e, tendo
existido sempre uma especial preocupação com a inovação da estética musical este
disco é um claro exemplo da concretização desse objetivo.
PR - Para esta nova fase do
grupo foi decisiva a colaboração do Valter Hugo Mãe nos textos?
RT - Muito decisiva! Voltando
atrás no tempo, o nosso primeiro contacto com o Valter Hugo Mãe coincidiu com o
período em que começávamos a sentir a necessidade de nos focarmos num novo
trabalho. Foi uma feliz coincidência! O Valter Hugo Mãe já conhecia os Frei
Fado, e perante o desafio lançado, acedeu a escrever textos propositadamente
para nós. Somos unânimes ao afirmar que foi este o momento em que se começou a
desenhar todo este processo. Quando recebemos os textos, e os começamos a musicar
vimos claramente que era neles que tínhamos o mote para a tal regeneração que necessitávamos.
PR - Para além dos textos de
Valter Hugo Mãe, encontramos também neste disco alguns dos maiores nomes da
literatura portuguesa – Fernando Pessoa, António Lobo Antunes e Florbela
Espanca. Este é um exemplo, que vão seguir no futuro?
RT - O processo de pesquisa que os
Frei Fado levaram a cabo no desenvolvimento dos temas, tanto ao nível musical
como literário, conduziu-nos a um
conjunto de textos que se interligavam muito bem com os textos entretanto
recebidos por parte do Valter Hugo Mãe e que assentavam perfeitamente nos
ambientes musicais que estávamos a seguir. Podemos dizer que foi uma escolha
muito fácil e foi acima de tudo um processo muito natural. Ao contrário dos
temas compostos com textos do Valter Hugo Mãe, em que a componente musical surgiu
para os textos, nestes autores o processo foi inverso, a parte musical surgiu
primeiro e encontramos facilmente os textos que se fundiam nesse ambiente
sonoro. A responsabilidade acrescida de musicar qualquer um destes autores foi
muito grande e isso fez-nos sem dúvida pensar este novo trabalho de uma forma
muito diferente.
PR - ”Se o Meu Coração Não Erra”,
foi a canção escolhida para apresentação deste trabalho. É este o tema que
melhor retrata o espírito do disco?
RT - O texto diz: “Se o meu
coração não erra, não sabemos envelhecer”. Utilizando as palavras de um post
que o Valter Hugo Mãe colocou na sua página pessoal do facebook, “os frei fado
são desses projectos raros, existem há vinte e poucos anos mas editaram muito
poucos discos. têm isso de bom, ponderam, esperam, amadurecem. estão muito
maduros agora. gosto que a letra diga: «não sabemos envelhecer», porque na
verdade não estão velhos, estão com a mesma frescura de sempre, mas uma
frescura inteligente, madura, boa. estão bons.”. Acho que estas palavras
traduzem o nosso espirito e o espírito deste trabalho: sem dúvida que: “Se o
meu coração não erra, não sabemos envelhecer”.
PR - Numa frase apenas como
caracterizaria este “Se o Meu Coração Não Erra”?
RT - Utilizando as palavras
usadas na apresentação pública do disco: É um espaço de novas texturas sonoras
suportadas por diversas correntes de estética literária e por uma fluidez de
movimentos de minimalismo contemporâneo, resolvendo um cuidado momento de
renovação estética na linguagem musical dos Frei Fado.
PR - Muito recentemente este
novo trabalho foi apresentado na Casa da Música, no Porto. Como é que público
recebeu as novas canções dos Frei fado?
RT - A reação tem sido muito boa,
e as redes sociais permitiram-nos desta vez um novo tipo de divulgação e de alcance.
O concerto da casa da música foi um especial momento pois foi no fundo ai que
se formalizou todo o tornar público deste trabalho. Tal como tínhamos feito no
anterior trabalho, desde logo escolhemos a Casa da Música como o local perfeito
para podermos fazer esta apresentação pois apesar de recente, é um espaço que
nos tem trazido sempre muito bons momentos. Este foi mais um!
PR - Para terminar, por onde
passa o futuro próximo dos Frei Fado?
RT - Como dissemos atrás, este
trabalho é mais uma etapa na vida dos Frei Fado. Gostaríamos acima de tudo de
conseguir encurtar o espaço de tempo que tem existido entre novos discos editados.
Começamos já a tentar consolidar algumas ideias em relação ao que poderá vir a
suceder a este trabalho, mas a nossa principal preocupação neste momento passa
sobretudo pela divulgação destes novos temas, especialmente com as apresentações ao vivo
pois é ai que vamos buscar todo o nosso “combustível” de regularidade,
dimensão, criatividade e responsabilidade perante todo o percurso que temos
vindo a desenhar.

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