08/11/2012

FREI FADO | Discurso Direto


Depois do aclamado álbum de tributo a José Afonso, os Frei Fado estão de  regresso aos discos com "Se o Meu Coração Não Erra", um espaço de novas texturas sonoras suportadas por diversas correntes de estética literária e por uma fluidez de movimentos de minimalismo contemporâneo, resolvendo um cuidado momento de renovação estética na linguagem musical do grupo. Rui Tinoco, é hoje o meu convidado em "Discurso Direto".

Portugal Rebelde - ”Se o Meu Coração Não Erra” é o disco que dá inicio a um novo ciclo na vida dos Frei Fado?

Rui Tinoco - É sem dúvida uma nova etapa num percurso já de longos anos em que sentimos uma especial necessidade de nos regeneramos e de explorar novos padrões sonoros que, embora não rompessem com todo o percurso que os Frei Fado têm vindo a percorrer, pudessem construir diferentes ambientes, bebendo de novas influências e abandonando modelos de composição característicos dos dois primeiros trabalhos e que aplicamos intensivamente no anterior cd de tributo ao José Afonso. É o disco que dá continuidade a um projeto com uma visão de futuro, que consolida um sólido percurso no tempo, e, tendo existido sempre uma especial preocupação com a inovação da estética musical este disco é um claro exemplo da concretização desse objetivo.

PR - Para esta nova fase do grupo foi decisiva a colaboração do Valter Hugo Mãe nos textos?

RT - Muito decisiva! Voltando atrás no tempo, o nosso primeiro contacto com o Valter Hugo Mãe coincidiu com o período em que começávamos a sentir a necessidade de nos focarmos num novo trabalho. Foi uma feliz coincidência! O Valter Hugo Mãe já conhecia os Frei Fado, e perante o desafio lançado, acedeu a escrever textos propositadamente para nós. Somos unânimes ao afirmar que foi este o momento em que se começou a desenhar todo este processo. Quando recebemos os textos, e os começamos a musicar vimos claramente que era neles que tínhamos o mote para a tal regeneração que necessitávamos.

PR - Para além dos textos de Valter Hugo Mãe, encontramos também neste disco alguns dos maiores nomes da literatura portuguesa – Fernando Pessoa, António Lobo Antunes e Florbela Espanca. Este é um exemplo, que vão seguir no futuro?

RT - O processo de pesquisa que os Frei Fado levaram a cabo no desenvolvimento dos temas, tanto ao nível musical como literário,  conduziu-nos a um conjunto de textos que se interligavam muito bem com os textos entretanto recebidos por parte do Valter Hugo Mãe e que assentavam perfeitamente nos ambientes musicais que estávamos a seguir. Podemos dizer que foi uma escolha muito fácil e foi acima de tudo um processo muito natural. Ao contrário dos temas compostos com textos do Valter Hugo Mãe, em que a componente musical surgiu para os textos, nestes autores o processo foi inverso, a parte musical surgiu primeiro e encontramos facilmente os textos que se fundiam nesse ambiente sonoro. A responsabilidade acrescida de musicar qualquer um destes autores foi muito grande e isso fez-nos sem dúvida pensar este novo trabalho de uma forma muito diferente.

PR - ”Se o Meu Coração Não Erra”, foi a canção escolhida para apresentação deste trabalho. É este o tema que melhor retrata o espírito do disco?

RT - O texto diz: “Se o meu coração não erra, não sabemos envelhecer”. Utilizando as palavras de um post que o Valter Hugo Mãe colocou na sua página pessoal do facebook, “os frei fado são desses projectos raros, existem há vinte e poucos anos mas editaram muito poucos discos. têm isso de bom, ponderam, esperam, amadurecem. estão muito maduros agora. gosto que a letra diga: «não sabemos envelhecer», porque na verdade não estão velhos, estão com a mesma frescura de sempre, mas uma frescura inteligente, madura, boa. estão bons.”. Acho que estas palavras traduzem o nosso espirito e o espírito deste trabalho: sem dúvida que: “Se o meu coração não erra, não sabemos envelhecer”.

PR - Numa frase apenas como caracterizaria este “Se o Meu Coração Não Erra”?

RT - Utilizando as palavras usadas na apresentação pública do disco: É um espaço de novas texturas sonoras suportadas por diversas correntes de estética literária e por uma fluidez de movimentos de minimalismo contemporâneo, resolvendo um cuidado momento de renovação estética na linguagem musical dos Frei Fado.

PR - Muito recentemente este novo trabalho foi apresentado na Casa da Música, no Porto. Como é que público recebeu as novas canções dos Frei fado?

RT - A reação tem sido muito boa, e as redes sociais permitiram-nos desta vez um novo tipo de divulgação e de alcance. O concerto da casa da música foi um especial momento pois foi no fundo ai que se formalizou todo o tornar público deste trabalho. Tal como tínhamos feito no anterior trabalho, desde logo escolhemos a Casa da Música como o local perfeito para podermos fazer esta apresentação pois apesar de recente, é um espaço que nos tem trazido sempre muito bons momentos. Este foi mais um!

PR - Para terminar, por onde passa o futuro próximo dos Frei Fado?

RT - Como dissemos atrás, este trabalho é mais uma etapa na vida dos Frei Fado. Gostaríamos acima de tudo de conseguir encurtar o espaço de tempo que tem existido entre novos discos editados. Começamos já a tentar consolidar algumas ideias em relação ao que poderá vir a suceder a este trabalho, mas a nossa principal preocupação neste momento passa sobretudo pela divulgação destes novos temas, especialmente com as apresentações ao vivo pois é ai que vamos buscar todo o nosso “combustível” de regularidade, dimensão, criatividade e responsabilidade perante todo o percurso que temos vindo a desenhar.

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