Os anos de 2020/21 foram, sem sombra de dúvida, anos de pernas para o ar e, para Daniel Pereira Cristo, esta metáfora acabaria por dar título ao novo álbum, lembrando-nos que o mundo nos foi dizendo que não devemos dar nada como adquirido ou garantido! Sob o conceito "...da raiz ao Fado..." O novo álbum de Daniel Pereira Cristo, "De Pernas para o Ar", pretende mostrar a riqueza e a diversidade da música portuguesa, salientando as várias influências de que é feita. A importância da palavra, com poemas musicados de Fernando Pessoa e Antero de Quental, a importante contribuição do letrista português Tiago Torres da Silva e a fadista Carla Pires como convidada especial, neste diálogo de união em torno da valorização da diversidade do nosso património etnomusicológico. O disco "De Pernas" é apresentado oficialmente hoje (15 de Julho) em Viana do Castelo. Daniel Pereira Cristo é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - Neste conjunto de 9 canções, a aposta passa por procurar novos caminhos para a música portuguesa?
Daniel Pereira Cristo - Creio que é perfeitamente normal os artistas procurarem exprimir-se de novas formas e de forma o mais contemporânea possível. Nós não fugimos à regra, mesmo com toda a paixão pelas nossas raízes, ritmos e instrumentos, com os quais tanto gostamos de tocar e cantar e com os quais queremos fazer a nossa música e expressar-nos daqui para o mundo, para o presente e para o futuro, a vontade de dizer algo novo é natural. Como dizia o Mestre Agostinho da Silva - "O que é verdadeiramente tradicional é a invenção do futuro".
PR - O disco procura também explorar o conceito da “Raiz ao Fado”. Quer falar-nos um pouco mais desse conceito, onde há também uma convidada muito especial?
Daniel Pereira Cristo - O concerto de apresentação do novo álbum - "De Pernas para o Ar", tem esse nome e esse conceito "Da Raiz ao Fado". Após o concerto de pré-lançamento, num Theatro Circo cheio de amigos e pessoas que apoiam a nossa música, chegou a vez de fazer os concertos de lançamento e um dos nossos grandes objetivos é mostrar a nossa cultura de raiz a quem aprecia o fado, apontando a forma como um influenciou o outro e vice-versa, cruzando públicos e interesses, numa importante união daquilo que são as principais manifestações da música portuguesa.
A fadista Carla Pires é a convidada especial. Como que uma “porta-voz” do Fado - estilo musical inconfundivelmente português... e o que todos juntos fomos procurando, foi um importante sentido de união em torno da valorização da diversidade do nosso património etnomusicológico, numa grande procura de abrir horizontes, cruzar públicos e realçar sempre a mensagem da importância de estarmos juntos!
PR - “De Pernas para o Ar” atribui grande importância à palavra, com poemas musicados de Fernando Pessoa e Antero de Quental, a importante contribuição do letrista Tiago Torres da Silva. Para além da parte musical, este é um aspeto a que dá sempre uma atenção muito especial?
Daniel Pereira Cristo - Como dizia Fernando Pessoa, "a minha Pátria é a minha língua"... é com ela que pensamos, sonhamos e criamos...em Braga há muitos anos que faço parte do "Sindicato de Poesia", onde aprendi com o seu grande mentor António Durães a valorizar a língua e os nossos grandes poetas. Decidimos neste novo disco enveredar por uma vertente mais cantautoral, em torno da palavra e da filosofia contida nestas fantásticas poesias...dos grandes clássicos, mas também do grande Tiago, que é um letrista incrível que nos ajudou a passar uma mensagem. O meu produtor Hélder Costa, imaginou para além deste caminho mais "filosófico", um contacto com o fado através da Carla, com quem já tínhamos trabalhado antes, e a ideia foi mostrar a riqueza e a diversidade da música portuguesa, salientando as várias influências de que é feita, bebendo simultaneamente da música mais contemporânea, cruzando e explorando estilos e sonoridades de forma orgânica e natural: do jazz ao tradicional, da guitarra portuguesa às imponentes percussões tradicionais, das polifonias às abordagens mais eruditas, “...da raiz ao fado…”, numa união e celebração da portugalidade e daquilo que nos distingue enquanto povo.
PR - O novo registo passa pelas músicas tradicionais, pretendendo também ser um tributo ao legado dos nossos mais brilhantes cantautores, em particular ao eterno Zeca Afonso. Há alguma razão especial na escolha do tema “De não saber o que me espera"?
Daniel Pereira Cristo - Os nossos cantautores são a nossa grande referência, pela sua mestria com a palavra e com a mensagem dessas palavras, pela forma como utilizam as fundações da música portuguesa e pela intemporalidade de obras como “De não saber o que me espera", que é das minhas músicas preferidas do grande Zeca (que faço sempre questão de homenagear em todos os meus concertos e trabalhos, de forma mais ou menos evidente). Esta canção em particular é poesia pura, tem uma melodia incrível, tem uma mensagem sempre atual...porque vivemos numa incerteza que mete algum medo...e foi "apropriada" por nós com uns arranjos muito bons do nosso produtor e diretor musical Hélder Costa.
PR - Depois da apresentação oficial, que acontece hoje, 15 de Julho em Viana do Castelo, onde é que que poderemos ver e ouvir as canções deste “De Pernas Para o Ar”?
Daniel Pereira Cristo - Este é um concerto muito grande e os espaços, de forma geral, estão já muito comprometidos com imensas remarcações dos anos passados e com projetos do "Garantir Cultura" que ainda têm que ser apresentados, ainda assim conseguimos estar onde queríamos (nas principais cidades minhotas: Theatro Circo em Braga na antestreia, lançamento oficial na Feira do Livro em Barcelos, agora o grande concerto na marginal de Viana do Castelo...), agora temos agendada uma ida a Famalicão, imagino que ainda passaremos por Guimarães e depois, a ideia é apresentar o concerto em Lisboa, cidade do fado por excelência, no sentido de mostrar a nossa cultura de raiz a novos públicos. Depois a nossa vontade é a de poder levar este concerto ao maior número possível de lugares por todo o país e certamente pelos nossos "irmãos do norte" na Galiza e pelo Mundo, estamos em contacto com alguns eventos na Califórnia (EUA)...sem dúvida de que mostrar a nossa música noutros países é um grande móbil - a ver vamos (possa o mundo estar bem... a cultura será sempre um "antídoto" fundamental).

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