Para preservar a segunda língua oficial de Portugal e perpetuar as suas origens, a cantora Isabel Ventura decidiu unir o jazz ao mirandês. O resultado é "Num Me Lhembra de Squecer", um disco único, singular, uma mescla ousada. Dois idiomas que se fundem na linguagem universal que é a música. Isabel Ventura é hoje minha convidada em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - Antes de mais, como é que surgiu a ideia de fazer um disco de Jazz cantado em Mirandês?
Isabel Ventura - Esta ideia podia ter acontecido há mais tempo. Sempre esteve muito próxima.
Sou transmontana e passei grande parte da minha infância e adolescência , em casa da minha avó numa aldeia – Campo de Viboras – pertencente ao planalto mirandês.
É um local que visito anualmente e ao qual estou afetivamente muito ligada. Há cerca de dois anos, num desses verões, foi tipo click “ e se eu juntasse o mirandês ao jazz? “ pensei… pensei e pus mãos à obra.
Falei com o compositor e pianista Marco Figueiredo, que me acompanha há anos, que recebeu muito bem esta ideia. Juntou-se no contrabaixo o João Paulo Rosado e na bateria o Filipe Monteiro.
PR - Associar o Mirandês ao Jazz foi uma tarefa difícil?
Isabel Ventura - Não foi assim tao fácil.
A primeira dificuldade foi encontrar poesia à altura, para o projeto que tinha em mente. Não queria nada popular e fazia questão de manter os instrumentos que formam o meu quarteto base, comuns no jazz.
Primeiro pesquisei no google e deparei-me com um livro de Amadeu Ferreira, poeta, escritor e fundador da “Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa”. Este livro “ Ars Vivendi Ars Moriendi” foi a porta para outros acessos.
Entrei em contacto com a família de Amadeu Ferreira (já falecido) que me deu uma ajuda enorme e me facultou grande parte dos livros, que não se encontram nos circuitos comerciais.
Encontrei em Fracisco Niebro, pseudónimo de Amadeu Ferreira, uma poesia consistente , uma escrita profunda, de reflexão e até filosófica, que se adequou às composições de Marco Figueiredo, não sendo, ao mesmo tempo um trabalho fácil, por causa da métrica irregular de muitos dos poemas.
Depois houve também o empenho de melhorar o sotaque mirandês, que é muito peculiar e que dizem ser parecido com o espanhol, mas que não é espanhol. O mirandês é uma língua de ascendência Asturo Lionesa, uma língua antiga que se falava no reino de Leão e que tem particularidades singulares, tanto na escrita, como na linguagem oral.
PR - Como já referiu, passou grande parte da sua infância e adolescência em casa dos seus avós, numa aldeia do planalto mirandês: O contacto que teve com “La Lhéngua Mirandesa” foi mais uma boa razão para abraçar este projeto?
Isabel Ventura - Evidentemente! Se assim não fosse, penso que esta fusão não se teria cruzado, embora legitima já que é a segunda língua oficial falada em Portugal e ,infelizmente , muita gente não sabe. “La Lhéngua” sempre me acompanhou deste criança. O vocabulário que retive e relembrei, durante os dois cursos de mirandês que fiz recentemente, sempre cá esteve, assim como o seu significado em português. A estrutura gramatical organizada, é outra coisa! não tão apelativa, mas necessária à compreensão e estudo de qualquer língua. Faz parte do processo.
Gosto de estudar mirandês.
PR - Contribuir para a preservação de uma língua que é ameaçada na sua sobrevivência da região onde é falada, é um dos propósitos deste projeto?
Isabel Ventura - Sim, um dos principais focos deste trabalho é a preservação de uma língua que se nada fizermos desaparece. Precisa de ser falada por mais gente, ou cantada, passada de geração em geração para que não se perca.
É património cultural português, temos essa obrigação.
A “Associaçon de Lhéngua i Cultura Mirandesa “desempenha um papel muito importante na defesa e conservação desta língua. Ministrando vários cursos durante o ano , com um nr cada vez mais crescente de alunos portugueses e estrangeiros, divulgando autores que escrevem em mirandês e estimulando a praticas e atividades culturais e tradicionais da região.
PR - Depois do concerto de apresentação, que teve lugar no passado dia 4 de Julho, em Miranda do Douro, as canções de “Num Me Lhembra de Squecer” vão ser apresentadas em Fermossele (Espanha) no dia 3 de Agosto. O que é que o público pode esperar deste concerto?
Isabel Ventura - Um concerto é sempre uma partilha. É isso que fazemos em palco, levamos a nossa musica para que o público a ouça e interiorize.
Este disco tem um valor cultural acrescido: a língua! que em Fermoselle não é desconhecida.
É certo que vão cantar connosco em mirandês, como tem acontecido.
Queremos sempre que o publico seja parte integrante do que estamos a fazer:
A nossa música!

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