08/07/2022

LOAFING HERO | Discurso Direto


"Jabuti" é o primeiro álbum de Loafing Hero, o alter ego musical do filósofo e professor universitário Bartholomew Ryan, nascido na Irlanda. Vive em Lisboa há mais de uma década onde dá aulas numa universidade e, já editou e escreveu inúmeros livros sobre filosofia e literatura, inclusive sobre Fernando Pessoa. Em termos musicais, foi um dos elementos fundadores do grupo The Loafing Heroes (que editaram 6 álbuns entre 2009 e 2019) e, toca também no grupo de música experimental Headfoot (com Colm O’Ciosoig – membro dos My Bloody Valentine, e Rosie O’Reilly). Loafing Hero é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
 
Portugal Rebelde - Este disco foi apresentado como uma “viagem ao coração do Brasil”. Esta viagem foi muito inspiradora para a sua música

Loafing Hero - Foi a minha quarta visita ao Brasil. Desta vez, fiz uma viagem para Minas Gerais para celebrar com uma família especial com um grande amigo irlandês que casou com uma minera, e depois viajei para o Espírito Santo onde compus as músicas, e depois viajei através da Bahia (com amigos brasileiros Fabricio e Sil), e depois,  finalmente, cheguei sozinho em Iguatu no estado do Ceará. Esta descrição "viagem ao coração do Brasil" representa vários caminhos e sentidos. Primeiro, o lugar onde estava – uma casa do vidro sozinho no meio da mata atlântica no interior do Brasil foi uma inspiração total. Este lugar foi mesmo uma abertura ao coração do Brasil: ouvi os pássaros sempre, e com a experiência da chuva tropical que é tão forte e vívida, com a companhia de vários bichos – identificados (macacos, cobras, aranhas, sapos e lagartos) e não identificados (os olhos e sons e as sombras da noite). Mas também tinha o livro Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa como boa companhia. Para mim (e para outros), este livro é o mais bonito livro que encontrei na língua portuguesa, uma bíblia do modernismo. Esse "monstro" do livro faz um caminho através do sertão (título doutra canção no álbum Jabuti) além dos limites da língua portuguesa para abrir novas dimensões para o leitor. Uma experiência verdadeira revolucionária e cósmica. Então, este disco Jabuti foi inspirado por estes aspetos; e pela experiência material do Brasil através das minhas viagens anteriores, pelas experiências pessoais, pela música de Tropicália do Brasil dos sessentas e setentas, e pelo modernismo brasileiro na literatura, e também pela minha imaginação do Brasil da infância que continua a desenvolver-se até agora. 

PR - É verdade que gravar “Jabuti” num mosteiro no interior do Brasil foi um mero acaso? 

Loafing Hero - Não foi um mero caso. Visitei o Brasil esta vez depois de receber uma oferta de ficar na residência artística no Mosteiro Zen Morro da Vargem no estado do Espírito Santo. Meu grande amigo, um capixaba, Fabricio Noronha, que trabalha com a cultura do Espírito Santo, contou-me sobre o mosteiro e deu-me o contacto dum monge do mosteiro. O lugar era muito calma e silencioso (fora de barulho de humanos), porque fui lá durante o mês de Janeiro. O mosteiro estava fechado para visitantes e turistas. Isto foi ideal para mim: uma solidão poética, perto de espécies não-humanas durante o dia e durante a noite, com o clima intenso, sem internet, conseguir concentrar-me, fazendo passeios na selva, e a experiência de desacelerando do tempo, e abrir novos espaços expansivos. 

PR - “Iguatu”, uma das canções deste disco conta a saga de um padre irlandês. Quer explicar-nos o que levou a escrever esta canção? 

Loafing Hero - É a última música no álbum inspirado pela história de meu primo Patrick (Padre Patrício), e que também abre traumas do Brasil e traumas pessoais. "Iguatu" é o nome de uma pequena cidade no interior nordestino do Brasil, no estado do Ceará, uma das regiões mais pobre desse enorme país enigmático, paradoxal e contraditório. Iguatu é uma palavra Tupi-Guarani que significa "boas-águas". Era uma aldeia quando o meu primo chamado Patrick Fitzgerald (primeiro-primo de minha mãe) chegou em 1971. Patrick nasceu em Kerry no sul-oeste da Irlanda, e tornou-se padre redentorista e saiu da Irlanda em 1971 para viver e trabalhar em Iguatu. Tinha uma alma muito alegre e brilhante, e era muito amado lá em Iguatu, mas sua vida foi interrompida quando ele se afogou no rio Jaguaribe na região quando só tinha 27 anos. Essa tragédia aconteceu em 1973 - antes de eu nascer. Imediatamente, depois de escrever todas as canções no Mosteiro, viajei através da Bahia e até Iguatu. Visitar Iguatu e conhecer o povo lá (e recebido pela gentil e maravilhosa Teresa e Ezimar) foi uma das minhas experiências mais comoventes na minha vida. Descobri que Patrick não foi esquecido; pelo contrário, ele foi lembrado muito fortemente, e o seu espírito continua viver de muitas maneiras. E o povo me recebeu com tanto carinho, e várias pessoas em Iguatu contavam-me histórias lindas sobre ele; ele está enterrado no altar da igreja principal; há uma rua na cidade com seu nome (Rua Padre Patrício); e algumas pessoas na região gostam de rezar por Patrick. Foi um choque e muito e emocional descobrir tudo isso. Ele morreu há 49 anos, mas o espírito dele parece muito vivo. Por isso, gosto de dizer que sempre que nas nossas vidas e nesta existência material e no reino de criativo e da imaginação, na vida, os mortos nunca estão realmente mortos. 

PR - A que se fica a dever a escolha de “Jabuti” para título deste disco? 

Loafing Hero - A palavra tem várias ressonâncias e aberturas para mim. Primeiro, havia dois jabutis multicoloridos vagando lentamente do lado de fora da minha casa de vidro, enquanto eu estava escrevendo as canções. Adoro este animal e gostava de olhar os dois jabutis movendo-se ou ficando paradas antes de começar escrever uma nova música. Segundo, acho que é uma palavra bonita e tem uma som evocativa. É o nome comum para a tartaruga de rio que vive no interior do Brasil. Vem da língua Tupi-Guarani, e, na etimologia da palavra, pode significa literalmente: "o que nada respira" (yauo'ti). O jabuti está associado à astúcia, gravidade, prudência e sabedoria. Eles também são símbolos de persistência. Mesmo sendo lentos em sua caminhada, esses animais percorrem longas distâncias e podem passar muitas semanas sem comer nem beber água. E, terceiro, nesta altura, li o Manifesto Antropófago (1928) do poeta brasileiro Oswald de Andrade onde escreveu no texto: “Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti.” 

PR - Para terminar, podemos contar com mais viagens e discos tão inspiradores como “Jabuti”? 

Loafing Hero - Espero que sim. No resto de 2022, vou continuar tocar alguns concertos em Portugal apresentando o álbum Jabuti, e talvez no mesmo ano e no ano depois nos Balcãs, na Irlanda e no Brasil, entre outros terrenos. Através desta aventura, abre-se outros caminhos, e vou começar escrever novas músicas e poemas. Quem sabe onde isso vai nos levar. Esta terra danificada e este mundo fica misterioso e extraordinário, e cheia duma multiplicidade de bichos, sons, rios, lugares e atividades - além da informação reducionista e "overloaded", e do ruído superficial da nossa "disaster-porn" mídia, e da comunicação imediata e sem memória. Muitas vezes, sinto que a grande parte de ser revolucionário hoje é ser afirmativo em atividades e subversivamente alegre. O grande desafio e tarefa da nossa época é não só cair no desespero ou na indiferença; mas tentar criar novas estórias, abrir a imaginação salvagem, construir novas comunidades dinâmicas, e ouvir todas as outras entidades animadas e inanimadas nesta terra. É aprender a cantar novamente, e lembrar que criar não é só a imaginação, mas é ter a coragem de realizar e entrar a realidade.

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