18/10/2022

JOSÉ TORNADA | Discurso Direto

Foto: Subestimado

José Tornada acaba de lançar o seu primeiro longa duração "Love, Hope, Desire and Fear". Uma viagem de autodescoberta que através do piano, cordas e spoken word, narra a história de amor, perda e solidão de uma mulher de 70 anos.Tendo como ponto de partida o piano, e influências de artistas como Ryuichi Sakamoto e Philip Glass, o disco conta também com a participação do violinista norte-americano Nathaniel Wolkstein e da poetisa alemã Roses Sabra, cuja voz dá corpo à história que envolve o álbum. José Tornada é hoje meu convidado em "Discurso Direto".

Portugal Rebelde - É verdade, que foi através jogos de consola japoneses dos anos 90 que começa a explorar o piano ? 

José Tornada - Sim, é verdade. Quando era miúdo não tinha instrumentos em casa, mas havia um amigo meu que tinha um piano. Então decorava as melodias dos videojogos e tentava reproduzi-las no piano dele. Ainda hoje presto bastante atenção a bandas sonoras de videojogos. Penso que é um segmento da música um bocado menosprezado mas existem obras verdadeiramente fantásticas. Tal como no cinema, a música consegue elevar a imagem para outro patamar. 

PR - Que história é esta que nos narra através do piano, cordas e spoken word no álbum “Love, Hope, Desire and Fear“? 

José Tornada - Quando comecei a pensar no conceito do álbum achei que era interessante contar uma história, queria dar um carácter mais humano às peças. Então procurei por poemas de pessoas desconhecidas na internet e comecei a tocar por cima. Foi precisamente à segunda tentativa que encontrei uma poetisa que acabou por dar a voz a várias músicas do álbum e através das letras contar uma história real de amor e perda. 

PR - Este disco tem como ponto de partida o piano. As influências de artistas como Ryuichi Sakamoto e Philip Glass fazem-se sentir também neste primeiro longa duração? 

José Tornada - Compositores japoneses como Ryuichi Sakamoto e Joe Hisaishi foram bastante importantes na minha autoformação musical por causa da simplicidade das melodias e das estruturas que utilizam. Penso que apanhei o bichinho em miúdo por causa dos videojogos! Acho que as minhas músicas vão beber um bocado dessa influência e dessa naïveté. Philipp Glass para surgiu mais tarde na minha adolescência, considero-o uma grande influência por causa do minimalismo e da repetição, aspeto que também pode ser observado nas minhas peças. 

PR - O disco conta com a participação do violinista norte-americano Nathaniel Wolkstein e da poetisa alemã Roses Sabra, cuja voz dá corpo à história que envolve o álbum. Quer falar-nos um pouco do contributo destes convidados? 

José Tornada - Conheci ambos através da internet. Já tinha trabalhado com o Nathaniel em projetos anteriores e o que me chamou à atenção nele foi o som do violino. Suave mas de certa forma agressivo na forma de tocar. Por vezes é difícil trabalhar remotamente com outros músicos devido à dificuldade imediata na comunicação, mas a Internet e o desenvolvimento das tecnologias veio trazer coisas que seriam impossíveis de fazer há umas décadas atrás. Tenho duas faixas orquestradas no disco e acho interessante poder trabalhar e gravar com músicos de topo que estão à distância de um clique. Seria impossível gravar estas faixas com orquestra há 20 anos atrás para um compositor que está a começar a sua carreira a solo.. Seriam necessários bastantes músicos, um estúdio, microfones, técnicos, etc… Uma logística dispendiosa para um trabalho que hoje em dia pode ser feito através de um computador. A Roses conheci por mero acaso quando procurava poemas para musicar, fiquei logo colado à voz dela e à entoação com que declamava. Foi uma contribuição preponderante na produção do disco pois é ela que traz a humanidade que procurava dar ao trabalho. 

PR - “Love, Hope, Desire and Fear” pretende de alguma forma quebrar a barreira e o preconceito que existem em relação à música clássica tradicional e erudita? 

José Tornada - Penso que sim, em primeiro lugar por parte do ouvinte. Do que sei, a maior parte das pessoas que me ouvem não tinham grande interesse por música clássica ou erudita como se costuma dizer. Acho que o facto do meu trabalho usar instrumentos “clássicos”, não faz dele um álbum de música clássica ou neoclássica. Penso que esses rótulos menorizam o trabalho dos autores. Penso que o facto de usar sintetizadores, voz e ambientes sonoros no disco veio ajudar a ir buscar ouvintes que de outra forma nunca teriam ouvido o meu trabalho. Do ponto de vista de compositor também é interessante porque não tenho formação musical clássica, nem sequer sei ler pautas! Venho de um background diferente da maioria dos pianistas ou compositores: já tive bandas de indie/rock, já produzi música eletrónica e até Pop! Quando comecei a minha formação, em vez de aprender a tocar Debussy e Chopin, aprendi a tocar Radiohead e Nirvana.

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