Foto: Subestimado
Portugal Rebelde - É verdade, que foi através jogos de consola japoneses dos anos 90
que começa a explorar o piano ?
José Tornada - Sim, é verdade. Quando era miúdo não tinha instrumentos em casa,
mas havia um amigo meu que tinha um piano. Então decorava as
melodias dos videojogos e tentava reproduzi-las no piano dele. Ainda
hoje presto bastante atenção a bandas sonoras de videojogos.
Penso que é um segmento da música um bocado menosprezado
mas existem obras verdadeiramente fantásticas. Tal como no
cinema, a música consegue elevar a imagem para outro patamar.
PR - Que história é esta que nos narra através do piano, cordas e spoken
word no álbum “Love, Hope, Desire and Fear“?
José Tornada - Quando comecei a pensar no conceito do álbum achei que era
interessante contar uma história, queria dar um carácter mais
humano às peças. Então procurei por poemas de pessoas
desconhecidas na internet e comecei a tocar por cima. Foi
precisamente à segunda tentativa que encontrei uma poetisa que
acabou por dar a voz a várias músicas do álbum e através das letras
contar uma história real de amor e perda.
PR - Este disco tem como ponto de partida o piano. As influências de
artistas como Ryuichi Sakamoto e Philip Glass fazem-se sentir
também neste primeiro longa duração?
José Tornada - Compositores japoneses como Ryuichi Sakamoto e Joe Hisaishi
foram bastante importantes na minha autoformação musical por
causa da simplicidade das melodias e das estruturas que utilizam.
Penso que apanhei o bichinho em miúdo por causa dos videojogos!
Acho que as minhas músicas vão beber um bocado dessa influência
e dessa naïveté.
Philipp Glass para surgiu mais tarde na minha adolescência,
considero-o uma grande influência por causa do minimalismo e da
repetição, aspeto que também pode ser observado nas minhas
peças.
PR - O disco conta com a participação do violinista norte-americano
Nathaniel Wolkstein e da poetisa alemã Roses Sabra, cuja voz dá
corpo à história que envolve o álbum. Quer falar-nos um pouco do
contributo destes convidados?
José Tornada - Conheci ambos através da internet. Já tinha trabalhado com o
Nathaniel em projetos anteriores e o que me chamou à atenção nele
foi o som do violino. Suave mas de certa forma agressivo na forma
de tocar. Por vezes é difícil trabalhar remotamente com outros
músicos devido à dificuldade imediata na comunicação, mas a
Internet e o desenvolvimento das tecnologias veio trazer coisas que
seriam impossíveis de fazer há umas décadas atrás. Tenho duas
faixas orquestradas no disco e acho interessante poder trabalhar e
gravar com músicos de topo que estão à distância de um clique.
Seria impossível gravar estas faixas com orquestra há 20 anos atrás
para um compositor que está a começar a sua carreira a solo..
Seriam necessários bastantes músicos, um estúdio, microfones,
técnicos, etc… Uma logística dispendiosa para um trabalho que hoje
em dia pode ser feito através de um computador.
A Roses conheci por mero acaso quando procurava poemas para
musicar, fiquei logo colado à voz dela e à entoação com que
declamava. Foi uma contribuição preponderante na produção do
disco pois é ela que traz a humanidade que procurava dar ao
trabalho.
PR - “Love, Hope, Desire and Fear” pretende de alguma forma quebrar a
barreira e o preconceito que existem em relação à música clássica
tradicional e erudita?
José Tornada - Penso que sim, em primeiro lugar por parte do ouvinte. Do que sei, a
maior parte das pessoas que me ouvem não tinham grande interesse
por música clássica ou erudita como se costuma dizer. Acho que o
facto do meu trabalho usar instrumentos “clássicos”, não faz dele um
álbum de música clássica ou neoclássica. Penso que esses rótulos
menorizam o trabalho dos autores. Penso que o facto de usar
sintetizadores, voz e ambientes sonoros no disco veio ajudar a ir
buscar ouvintes que de outra forma nunca teriam ouvido o meu
trabalho.
Do ponto de vista de compositor também é interessante porque não
tenho formação musical clássica, nem sequer sei ler pautas! Venho
de um background diferente da maioria dos pianistas ou
compositores: já tive bandas de indie/rock, já produzi música
eletrónica e até Pop! Quando comecei a minha formação, em vez
de aprender a tocar Debussy e Chopin, aprendi a tocar Radiohead e
Nirvana.
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