Os Glockenwise formaram-se na margem. Na margem geográfica, em Barcelos, uma
pequena cidade industrial no Minho, onde a ideia de passar pela vida com anseio de fazer
música – ou qualquer outra arte, para o efeito – era, ainda nos anos 2000, relativamente
exótica; e na margem estética, forjados na energia inconformista do punk, sempre
pontuados por uma característica melancolia que serviu de fio condutor até à identidade
sonora presente, e que os tem vindo a demarcar de classificações mais evidentes. Gótico Português é, se não um regresso, um olhar apreciativo da margem. Há um Portugal
a fervilhar na margem, abundante em manifestações culturais interessantes e bizarras, rico
e diverso em tradições visuais e orais. Onírico, criativo e surpreendente. Os Glockenwise são hoje os meus convidados em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - "Gótico Português", inicia-se com a ceramista Rosa Ramalho dizendo que sem
barro não é ninguém. Os Glockenwise continuam a reclamar um lugar de forma
clara a sua geografia?
Glockenwise - Penso que
tentamos apenas exprimir aquilo que sentimos e o que somos. Se ao fazê-lo parece que
estamos a reclamar algo, isso é algo que nos escapa.
PR - Ao longo do disco, ouvimos pequenos excertos de uma entrevista de Rosa
Ramalho dada à RTP, que unem as oito canções de Gótico Português. Esta foi
também uma forma de afirmar a identidade da banda?
Glockenwise - Essa ideia apareceu já a meio do processo e acabou por fazer todo o sentido. Sintetiza
na perfeição algumas das nossas idiossincrasias enquanto grupo.
PR - Gótico Português, é um disco de dúvidas e questionamentos?
Glockenwise - Penso que também tem algumas certezas lá para o meio (risos). Mas no geral, pode ser
definido dessa forma
PR - A estética visual deste disco pode ser resumida na imagem escolhida para a
capa?
Glockenwise - Tentamos que a capa fosse um resumo perfeito de todo o ambiente do disco. Nesse
sentido, penso que fizemos uma escolha acertada.
PR - O poeta Camilo Pessanha empresta a Gótico Português “Água Morrente”. Como
é que surgiu esta vontade de musicar este poema de Camilo Pessanha?
Glockenwise - Essa ideia na verdade é bem anterior ao disco. Quando começamos a trabalhar nestas
canções, o Nuno relembrou essa ideia e acabou por funcionar muito bem.
PR - Este disco vai ser apresentado no próximo dia 12 de Maio na Culturgest, em
Lisboa e no dia 20 de Maio em Braga, no Gnration. O que é que o público pode
espera destes concertos?
Glockenwise - Temos andado a ensaiar bastante e penso que este alinhamento traz alguns elementos
novos ao nosso concerto ao vivo. Estamos muito contentes com o que temos vindo a
fazer e esperamos, obviamente, que as pessoas gostem também.

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