O amor é, sem sombra de dúvidas, o tema mais recorrente da música popular, explorado em todas as suas vertentes. Por esse motivo, não causa estranheza que Pedro Branco o tenha escolhido como título, mote e fio condutor para o seu novo trabalho discográfico, até porque, para o músico, “cantar o amor é, para além de tudo, como respirar”. “Amor” foi gravado entre outubro de 2021 e abril de 2022, na casa de montanha, refúgio de José Mário Branco, pai de Pedro Branco – a Casa do Plátano –, em plena serra de Montejunto, onde o sossego, a altitude da serra, as folhas caídas e a sombra do plátano, que lhe dá hoje nome, ativam uma energia mágica, única e contagiante, que conferem ao presente trabalho um enorme simbolismo sentimental. Pedro Branco dedica “Amor” aos homens e às mulheres que ao passar pela sua vida deixa(ra)m o seu lugar bem marcado. E que agora se perpetua assim. Para contar ao mundo que podemos ser mais bonitos. Pedro Branco é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - Como é que surgiu a ideia para lançar este hino ao “Amor”?
Pedro Branco - O amor é uma respiração humana. Devia ser. O ser humano anda, a meu ver,
cada vez mais afastado de si próprio e, consequentemente, do amor, que é a sua
essência mais genuína. Por isso se torna ainda mais urgente o amor, como diria
o poeta. Quero acreditar que cantar o amor possa levar as pessoas a pensar um
pouco nisto. Porque andamos a perder a humanidade. Andam a roubar-nos a
humanidade. E nós, convencidos do contrário, estamos a deixar que isso
aconteça. A arte tem como missão ajudar-nos a pensar. É isso. Acho importante
as pessoas pensarem bem no amor e nas suas várias facetas. Trazer este
“Amor” assim, nos seus tons suaves e não marcados pelas dores que também
fazem parte dele, pode servir para o olharmos mais, o olharmos melhor, o
querermos mais, o querermos melhor. Está nas nossas mãos dar esta voz ao
coração. Lançar o “Amor” é dar esta voz ao coração.
PR - Para dar voz a “Amor”, convidou quinze cantoras, que se adequam, cada uma a
seu modo, às diferentes canções deste trabalho. Esta é uma homenagem sentida
às mulheres?
Pedro Branco - Claro. A mulher é para mim o ventre do mundo, da existência humana.
Normalmente maltratada pela História, merece-me, merece-nos, devia merecer-
nos, o maior dos respeitos, o maior dos cuidados e a maior das atenções. Sem
querer personificar na mulher – pois o amor é universal e de todos – quis
também trazer-lhes esse protagonismo, servidas pelas minhas humildes canções.
PR - O último tema deste disco é também o único dueto masculino. Com arranjo de
Marco Oliveira, “Sempre Refeito” é interpretado com o seu filho Diogo Branco.
Este dueto reforça de alguma maneira a enorme carga emocional que percorre
todo este trabalho?
Pedro Branco - Carga emocional é como pele em mim. Não sei ser de outra forma. Na música.
Na minha profissão – sou professor. Nas amizades. Nas relações. O resultado
final deste disco, com este tema, acabou por ser um conjunto de belos acasos.
Explico: Depois de explanar um conjunto de 15 cantigas, todas com mulheres,
com os arranjos (sublimes) do Gonçalo Alegre, quis terminar o disco de forma
diferente e sozinho. Como se fosse eu a acordar deste sonho e a dizer “O amor,
poder sem fim!” Então pedi ao Marco para fazer o arranjo – o Marco é um
exemplo vivo e ativo do que para mim é a arte; tem uma estética brutal e sou
seu grande admirador. Trabalhar com ele foi como que a cereja em cima do
bolo... Nesse arranjo (genial) era preciso um reforço nos refrões. Então o
Diogo, que estava a fazer os coros nos vários temas do disco, cantou os refrões,
para eu depois colocar a minha voz por cima. Quando cheguei a Montejunto e
ouvi a forma como ele cantou, de lágrimas nos olhos, disse para todos: “Fica
assim.” E não cantei os refrões. E não terminei o disco sozinho. Acabei com o
meu filho, a cantar uma canção, que ainda por cima, eu tinha feito para ele aqui
há uns anos atrás! Todas as energias deste disco se canalizaram sempre para
este resultado final. Até os acasos!
PR - Este disco foi gravado na casa de montanha, refúgio do seu pai - José Mário
Branco – a Casa do Plátano –, em plena serra de Montejunto. A magia e a
energia daquela casa confere a este trabalho um enorme simbolismo
sentimental?
Pedro Branco - Mais do que um simbolismo sentimental, tive a sorte de conseguirmos canalizar
a energia desta casa e deste lugar único para o disco. Assim que o Gonçalo
Alegre me propôs a hipótese de não gravarmos o disco num estúdio
convencional, lembrei-me logo da Casa do Plátano e de Montejunto! Não
consigo explicar este impulso, até porque depois foi preciso uma grande equipa
de pessoas envolvidas para transformar as condições daquele espaço em algo
que permitisse fazer este trabalho. Depois tinha a certeza também de que não
haveria ninguém que depois de fazer aqueles quilómetros todos para ali chegar
não ficasse apaixonado e contaminado por toda esta envolvência. O resultado
está à vista: nenhuma das pessoas que participou no disco e que gravou na
Casa do Plátano (houve algumas gravações que tiveram de ser noutros locais...)
ficou indiferente a este facto. E todas transportaram este espanto e esta magia
para o que estavam a fazer, fosse cantar, tocar, cozinhar ou apenas vir dar um
abraço.
PR - No próximo dia 22 de Abril, pelas 21.30h, o auditório do Liceu Camões, em
Lisboa, irá acolher o concerto de apresentação de “Amor”. Esta será uma
oportunidade para celebrar o “Amor”?
Pedro Branco - É uma grande responsabilidade. Primeiro, porque vai ser um concerto onde vou
atuar com uma banda de 9 músicos (nem sequer viola vou tocar!) e 6
convidados. E faço questão de os tratar o melhor possível. De lhes proporcionar
as melhores condições possíveis para o que estão ali a fazer. Eu sei que todos o
fazem por amor e por mim, mas temos de compreender que nem sempre o amor
“põe pão na mesa”. Por isso, faço mesmo questão de que o concerto consiga
angariar as receitas suficientes para lhes pagar. E nunca será demais. O amor
dos músicos não tem preço, acreditem! Os “meus” músicos não têm preço. E o
meu abraço neles é eterno. Depois, porque, ao produzir o concerto sozinho e
quase em apoios financeiros, acabo por ter em cima de mim essa tensão toda.
Felizmente o Liceu Camões está sempre ao meu lado e a cedência do Auditório
foi seguramente um dos fatores essenciais para que este concerto se faça.
Acredito que quando as pessoas se entregam assim umas às outras, o mundo é
bem melhor e o amor mostra a sua força. E o Liceu Camões comigo e eu com o
Liceu Camões temos esta relação de amantes. Encontramo-nos quando
queremos e precisamos. Para ficar bem melhor. Iremos, pois, celebrar o amor,
sim. O amor que nos une uns aos outros e que estará ligado por estas canções.
O amor que faz parte das nossas formas de estar e que saberemos viver com
todos os que lá estiverem. E a sala está quase cheia!

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