RMF - A mensagem de Amália independentemente de ser muito sofrida, penosa e dolorosa é/foi uma mensagem muito clara. Só ela como ninguém soube transmitir todo o sofrimento que o Fado necessita e acarreta. Só ela soube cantar um país, um povo, uma alma e um destino. Só ela, considerando-a eu, o próprio Fado soube cantar e transmitir a saudade, a ausência, a lonjura, o amor, a morte. Talvez por tanto sofrimento transportado, todo um povo, todo um país se reviu/revê ainda hoje passados dez anos do seu desaparecimento, naquela que nasceu povo, e povo morreu.
PR - Que ‘segredos’ explicam a identificação de todo um povo com a voz e a figura de Amália?
RMF - Talvez o facto de Amália ter nascido muito pobre, ter saboreado o sabor da miséria, da fome, do frio, das privações, talvez por tudo isto, o povo, que na altura padecia dos mesmos males, viu nela o exemplo, o seu próprio espelho, a sua própria dignidade, o seu próprio ‘eu’. Talvez a simplicidade das pessoas as identifiquem mais do que a separação de um vedetismo existente, mas nunca usado no sentido lato do termo. O facto de Amália repetir vezes sem conta que tinha nascido povo, que pertencia ao povo e, que com ele se identificava, explicasse este fenómeno amaliano de popularidade vivido ao longo de 50 anos de carreira e mais dez, após a sua morte física. Os seus segredos, se é que se poderiam considerar segredos, eram tão simples, claros e objectivos como a própria Amália.
PR - António Variações, um grande admirador de Amália, cantou um dia: “ Todos nós temos/Amália na voz/ E tem na sua voz/ A voz de todos nós”. Este foi a melhor homenagem que um povo inteiro lhe podia fazer?
RMF - Talvez seja uma das homenagens, não a melhor homenagem. Sabe que Portugal, por altura do PREC foi muito injusto para com a fadista. Injuriou-a, caluniou-a, ridicularizou-a, apelidou-a de fascista, de informadora da PIDE, de tudo o que havia de mais baixo, pobre e humilhante. Esses que a apontaram, hoje passados dez anos da data do seu desaparecimento elogiam-na com os mais brilhantes louros, atribuem-lhe as mais honrosas distinções. No entanto, nessa altura fatídica do PREC, Amália morreu um pouco. Se o seu único pecado tinha sido levar o nome de Portugal ao Mundo, se o seu único pecado tinha sido o facto de ter nascido em Portugal, num país que se encontrava na altura mais do que isolado e que, sem qualquer interesse político, ela levou com a sua Voz, toda a alma lusa, os seus/nossos poetas, o nosso folclore, se isso era ser fascista, então, com muita honra e orgulho, ela o foi. Agora, perante um Coliseu a abarrotar em que durante mais de cinco minutos todo um povo a aclamou de pé gritando o seu nome, como se de um refrão se tratasse, se, ao longo de diversos concertos, todo um público cantava em coro os seus fados, isso sim foram as melhores homenagens que lhe puderam fazer. AMÁLIA e os seus FADOS mantinham-se no coração de todo um povo, quer se gostasse ou não. A imponente e simples figura, a voz rouca que lhe vinha da alma, transportava qualquer simples mortal ao Paraíso. E o facto de ter tido por unanimidade HONRAS de PANTEÃO NACIONAL isso sim foi o reconhecimento dos reconhecimentos daquela que levou aos quatro cantos do mundo a língua de Camões.
PR - Passados que são 10 anos sobre a morte da Fadista, acredita que Amália será sempre o/um símbolo de Portugal?
RMF - Como dizia David Mourão Ferreira, Amália era um heterónimo feminino de Portugal. Eu, no meu livro, Amália a divina voz dos Poetas e de Portugal fui mais longe e, polemicamente atrevi-me a dizer que “ modernamente e sem desrespeito pelos símbolos quase sagrados de um país, Amália Rodrigues fecha com Camões e Pessoa, o triângulo de heterónimos ao acrescentarmos o seu nome à bandeira e ao hino que nos definem mundialmente como país e como povo”. Amália quer queiramos quer não era um cartão de visita de Portugal no estrangeiro. Ela foi a primeira a divulgar a Cultura Portuguesa, através da sua Voz e do Fado no estrangeiro/no mundo. Portugal era facilmente identificado através do seu nome. Amália soube , pela sua personalidade e obra, ser a voz do subconsciente colectivo de todo um povo. Amália fez mais pelos grandes poetas portugueses que todos os estudos que sobre eles se fizeram. A cantá-los, restituiu-os ao povo português, seu natural destinatário. Com a sua voz, a poesia portuguesa subiu ao povo. Que mais podemos acrescentar para a considerar um dos símbolos de Portugal? Acho que rigorosamente, nada!
PR - Para além de Professor, é também fadista profissional. Qual é o Fado de Amália, que o ‘toca’ particularmente? Porquê?
RMF - São dois os fados de Amália que me tocam particularmente e que canto sempre nos meus concertos de fado. São eles ESTRANHA FORMA DE VIDA e POVO QUE LAVAS NO RIO. O primeiro porque na realidade só conhecendo bem Amália como eu conheci, pode entender a profundidade deste poema de autoria da fadista. Todo o poema respira uma angústia, uma ansiedade e uma resignação. Pois quer queiramos, quer não, todos nós temos uma estranha forma de vida. O segundo destrói-me aos poucos cada vez que o canto. A humildade, a simplicidade de pertencermos e, sobretudo de sermos POVO, independentemente de todas as habilitações literárias que possuamos, estão patentes neste enorme poema do Pedro Homem de Mello. Este poema é a afirmação telúrica de pertença a um povo que jamais se deixa comprar ou vender e não abdica da sua identidade e raízes. Eu também sou assim!
18 comentários:
É uma honra ser teu amigo pessoal. Uma pessoa como tu surpreendes-me a cada dia que passa. Só uma sensibilidade como a tua para responderes da forma que respondes, sempre tão claro, tão objectivo, tão TU!
Partiu Amália mas deixou-te como seu porta-voz!
Rui Ribeiro
Quando me disseram nem queria acreditar. ès mesmo tu, e sempre tão elegante na forma como abordas o tema AMÁLIA.
Tenho muito orgulho em poder fazer parte do teu leque de amigas.
Um beijo e quanto ao livro, UM VERDADEIRO TESOURO LITERÁRIO.
Isabel Potes, médica
Sempre o mesmo tom, a mesma elegância, o mesmo savoir faire. Parabens pelo livro e pela entrevista, ambos excelentes.
Rui Coelho
AMÁLIA, AMÁLIA, SEMPRE AMÁLIA. E quem mais digno e isento para falar da diva, o Dr. Rui Martins Ferreira, também seu afilhado.
Parabens por tudo! Continue assim sempre com a sua simples e modesta simplicidade.Gosto muito de si. Um beijinho
Alice Amaro, actriz
Como colega e amiga do Rui só me resta dar-lhe os meus sinceros parabens por tudo o que tem feito. O livro é uma obra-prima. A entrevista fabulosa.
Beijinho.
Isabel Oliveira, professora universitária
Quero dar-lhe os meus sinceros parabens por a sua intervista fantástica, vê-se como se emociona quando fala de Amália, é uma honra para mim ser seu aluno no efa sec.
Antonio Santos.
Entrevista arrebatadora. Fala-se com a alma e com paixão. Depois do livro, da televisão e de tantos colóquios, uma entrevista única sobre Amália. Parabens, Dr. Rui Martins Ferreira
Julieta Ferreira, amaliana
È uma honra ver o meu professor distinguido de forma ou formas tão simples e tão bonitas.
Adorei a sua entrevista ao Portugal Rebelde. Só uma pessoa como o senhor para falar com tanta alma sobre a sua madrinha. Acompanho sempre de perto todas as noticias que o envolvem. Boa sorte para o lançamento do seu livro no Funchal, no próximo dia 19 de Novembro. De certeza que a ilha das mais belas flores do mundo render-se-á aos seus encantos. Um beijinho
Ana Silva, estudante universitária
Uma entrevista única! Parabéns ao entrevistado.
João Pedro Cabral, estudante
AMÁLIA, AMÁLIA, SEMPRE AMÁLIA.
QUE LIVRO! QUE ENTREVISTA! MUITOS PARABÉNS.
Fernando Mendes, engenheiro
Um livro do tamanho do mundo!
Paulo Braga, empresário
Parabéns Rui pela tua excelente entrevista. Quem te conhece não estranha e já está habituado. Felicidades enormes!!!!!!!!!!!!!!
Paulo Viana, engenheiro
Goxtei! Minha setora falou no livro e axei k seria otimo para oferecer à minha mãe.
Ela adurou a surpresa!
Entrevista fantástica sobre um tema e um livro absolutamente fascinantes.
Parabéns ao seu autor. Sei que muitas escolas secundárias e até universidades o adoptaram devido à sua correcção e rigor literário. Uma verdadeira MARAVILHA!
Parabens ao Dr. Rui Martins Ferreira
Ludovina Matias, professora de Português
Foi uma honra poder ler o seu fabuloso livro e a sua magnifica entrevista. Muitas felicidades.
Isabel Diegues, médica
Emociona-me saber que há alguém a dedicar-se de coração à grande alma que foi AMÁLIA!
António Couto, agente funerário.
Uma entrevista muito bem cuidada/eleborada sobre um tema apaixonante e, nosso: Amália Rodrigues. Parabens ao Dr. Rui Martins Ferreira, pelo seu EXCELENTE trabalho.
Helder Couto, técnico informático
Um trabalho e uma entrevista únicos!
Rute Paiva
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