02/07/2013

GRUTERA | Discurso Direto


Hoje fazemo-nos ao mar com um homem que o conhece como ninguém, não tivesse ele nascido na Nazaré, uma terra que creseceu a olhar o mar. Chama-se Guilherme Efe e é o rosto do projeto Grutera. "Palavras Gastas" é o seu álbum de estreia, um disco belíssimo, que vamos descobrir em "Discurso Direto" com o "mestre" das guitarras.

Portugal Rebelde - Antes de mais, como e quando é que o projeto Grutera se fez ao "mar"?

Guilherme Efe - Numa pausa das bandas, no início de 2012, comecei a explorar as guitarras acústicas e clássicas e a aprender técnicas de fingerstyle. Precisei daquilo não sei explicar porquê, mas preenchia-me. Comecei logo a compor, sem sequer ter estudado outros artistas do género. Mas nunca tinha pensado ou imaginado em fazer nenhum projeto com esse material, nem em aproveitar os temas para as bandas. No verão de 2012, um amigo meu e realizador pediu-me para gravar alguns temas para utilizar como banda sonora de uma curta. O feedback foi bastante bom e fui gravando e fazendo mais coisas com o nome Grutera. Até aí nunca pensei que o pessoal fosse ligar a um tipo “só” a tocar guitarra.

PR - Norberto lobo e Filho da Mãe são as referências maiores para este projeto? 

GE - Posso dizer que sim. Mas para este álbum não foram porque a maior parte dos temas já estavam feitos quando comecei a ouvir o trabalho deles. Foram mais um boost para criar o projeto, porque, como já disse, também foi através deles que percebi que as pessoas gostavam de ouvir “só” guitarra. Deu-se o click com uma reportagem sobre guitarristas com eles e o Frankie Chavez, e eu percebi “secalhar também posso fazer isto”. Mas sim, hoje em dia já posso associa-los a referências, assim como o Tó Trips, e algumas coisas do Vicente Amigo. (Não gosto muito de guitarristas com um estilo muito marcado (flamenco, clássico, etc.), daí gostar tanto da fusão de guitarristas portugueses menos tradicionais, como o Norberto e do Filho da Mãe.)

PR - ”Pedra Mole” foi um dos temas selecionados para integrar a compilação “Novos Talentos Fnac 2013”. Esta é a “janela” que procuravas para dar a conhecer o projeto Grutera?

GE - Não penso muito nisso, sinceramente. Apesar de ficar extremamente grato pelo reconhecimento em estar presente na compilação. Não sei se vai abrir, ou não, novas janelas. Sei que até agora não me posso queixar de nada. Desde que saiu o álbum tenho tido concertos todas as semanas, em sítios que gosto e onde sou bem tratado e recebido. O que é que posso pedir mais? É para isso que andamos cá. Em grande parte a culpa tem sido da Covilhete na Mão que reconhece alguma qualidade neste projeto. Se os Novos Talentos fizerem com que as salas passem a ser de maior dimensão e tenham mais público, perfeito. Mas eu gosto é de tocar ao vivo e fazer música, se me derem um local para o fazerem e algumas pessoas para ouvirem, fico contente.

PR - Numa frase apenas – ou talvez duas – como caracterizarias este “Palavras Gastas”?

GE - Para mim é “Expressão”.

PR - Este disco foi apresentado recentemente em concerto, no Porto. Qual foi o “feedback” que recebeste do público?

GE - Foi bastante positivo, as pessoas que vêm ter contigo é porque gostaram. Se não tiverem gostado não vêm, por isso fica-se sempre com uma visão um bocado destorcida (risos). Mas foi uma noite incrível, espero voltar a tocar lá e com Indignu, penso que os dois concertos se encaixaram na perfeição, toda a gente com que falei disse isso.

PR - O que é que sentes quando te fazes ao “mar” de uma guitarra?

GE - Se for uma das minhas relaxa-me, é como estar com alguém de quem gosto. Se for nova, é diferente, é como se estivesse a conhecer alguém, faço muitas “perguntas” à espera que ela responda. No geral, as guitarras acústicas e clássicas, principalmente quando tocadas só com as mãos, sem palhetas ou outros métodos, têm uma identidade brutal. Tudo depende da pessoa que toca, é muito físico e emocional, há pouca mecânica. Se é verdade que duas pessoas nunca tocam a mesma música, no mesmo instrumento, da mesma forma, eu acho isso ainda mais verdade e percebível nas guitarras tocadas desta forma, existem demasiados factores pessoais que influenciam a resposta da guitarra. Por isso é que acho que são o objecto mais pessoal que tenho. É difícil dizer o que sinto delas, porque isso também depende do que lhes estou a dar. No fundo, é como as pessoas.

PR - Para terminar, por onde passa o futuro próximo de Grutera?

GE - Passa por continuar tocar, cada vez melhor, continuar a compor, explorar mais técnicas e aperfeiçoar a que já tenho para me tornar cada vez mais competente. Tenho pelo menos mais 10 anos de evolução. Os anos aliados à prática fazem muita diferença. Para mim, os velhos que tocam bem, tocam melhor que os novos que tocam bem... é como se dissessem as mesma coisa mas com mais certeza e controlo, ou até utilizassem outras palavras mas adequadas. Depois também é necessário continuar a trabalhar para fazer chegar a música ao maior número de pessoas possível e quanto a isso a Covilhete na Mão tem trabalhado forte. Mais concretamente, em princípio, já me licenciei e, apesar de continuar a estudar (mestrado), a prioridade vai passar a ser, finalmente, a música. Já estou a pensar num novo álbum com temas novos e com participações de pessoal com muito talento que pode enriquecer as músicas. Temos já o exemplo da Inês Amorim, na Pedra Mole. De resto, é darem-me uma cadeira que eu toco.


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