A Orquestra de Foles é um projecto musical da Associação Gaita-de-Foles: uma formação composta por instrumentos tradicionais onde se incluem meia dúzia de gaitas e um quarteto de percussão. Jogando com ritmos improváveis, arranjos arrojados e reportório diversificado, é um grupo capaz de, com um sopro, levar a gaita-de-foles ao lugar de destaque que merece. Na rua ou no palco, esta sinfonia de foles, ponteiros, roncos, peles e aros, promete o rigor de uma orquestra com a irreverência dos gaiteiros. A Orquestra de Foles, é hoje minha convidada em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - "Orquestra de Foles", álbum recentemente editado, é o fruto da perseverança do trabalho desenvolvido pela Associação Portuguesa para o Estudo e Divulgação da Gaita de Foles?
Oquestra de Foles - Conjuntamente com outras edições já produzidas pela Associação Gaita de Foles, como por exemplo o livro+DVD do gaiteiro Joaquim Roque da zona de Torres Vedras, este registo é sem dúvida fruto do trabalho de muitos anos (são já 16 anos!) que a associação tem levado a cabo. Esta edição da Orquestra de Foles acaba por ser um registo de muitas músicas que fomos aprendendo em primeira mão com gaiteiros portugueses mais antigos, sendo que muitas delas faziam já parte do reportório das outras bandas que associação já dinamizou: Gaitafolia e Cornes. Para além das músicas, o CD possui ainda um pequeno livro com muita informação sobre a Associação, os instrumentos, as gaitas-de-foles e a percussão em Portugal, os gaiteiros e o reportório que é, na sua maioria, português (embora também tenhamos temas da Galiza, Zamora e até composições originais). É importante referir esta ligação a Portugal, porque muitas vezes este instrumento não se associa de imediato ao nosso país e, no entanto, ele esteve (e está) fortemente presente, existindo um reportório e também instrumentos com características diferenciadoras em várias regiões do país.
PR - Um dos objetivos desta edição visa ajudar a que gaita de foles seja novamente reconhecida e partilhada por todo o país?
Orquestra de Foles - Entendemos que há muito trabalho a fazer para estudar e divulgar a gaita-de- foles em Portugal (instrumentistas, reportório, instrumentos, práticas, aspectos culturais, etc). Esse sempre foi o objectivo maior de todos os projectos da Associação Gaita-de-Foles e o motivo da sua criação. Mas temos de ser realistas e regozijar-nos com o facto de, actualmente, a gaita-de-foles já merecer muito mais destaque e reconhecimento do que merecia há 15 anos atrás. São já centenas os novos gaiteiros e grupos de gaiteiros, multiplicam-se as associações, escolas e músicos que dão aulas de gaita-de-fole em todo o país. O trabalho da associação, como o de muitos outros indivíduos e instituições, foi e tem sido uma parte importante como catalisador deste ressurgimento e esta edição é mais um contributo para este objectivo.
PR - “A rapsódia do Ti Carriço” e “A rapsódia do Ti Roque” são dois dos 10 temas que compõem este trabalho. Esta foi a forma que encontraram para homenagear estes gaiteiros?
Orquestra de Foles - Sem dúvida que sim. Aliás, o arranjo musical da “Rapsódia do Ti Carriço”, que inclui 4 temas do seu reportório, foi feito especialmente para uma homenagem a este gaiteiro que decorreu na Mealhada, próximo da sua terra natal. Foi para nós um grande privilégio contribuir para esse evento, e acabou por ficar no nosso álbum. É algo que acontece com naturalidade uma vez que temos sempre tido contacto directo com vários gaiteiros e é deles que aprendemos muito do nosso reportório. É também muito gratificante perceber que eles gostam do nosso trabalho e se sentem orgulhosos de ver as suas músicas revividas e registadas por outros.
PR - Associada ao gaiteiro, está sempre a “caixa” e o bombo. Há alguma região do país em que estes instrumentos não tenham tanta prevalência?
Orquestra de Foles - A formação usual é de facto o gaiteiro, a caixa e o bombo, no entanto, em algumas regiões do país, existem outro tipo de formações como no caso dos famosos Zés-Pereiras, da zona do Minho, que são grupos de percussão de caixas e bombos em grande número acompanhados por gaita-de-foles e outros aerofones. Na Estremadura, também é usual encontrar gaiteiros a tocar sem qualquer acompanhamento. Isto acontece especialmente, mas não só, em romarias na zona oeste que se denominam círios. Por exemplo, o Tio Roque, de que já falámos, acompanhou os círios na zona de Torres Vedras sendo que essa tarefa é agora também desempenhada por alguns membros da Orquestra de Foles. É um perfeito exemplo da forma como acabamos por colaborar e vivenciar a gaita-de-foles, de perto e no presente, nos seus mais variados contextos.
PR - Para além da música, a Orquestra de Foles está também, a dar atenção à construção da Gaita de Foles. Esta também é outra forma de preservar este instrumento?
Orquestra de Foles - A construção do instrumento é algo que nos interessa bastante na medida em que nos dá um conhecimento muito mais abrangente sobre o mesmo. Acaba também por ser um bom motivo para a investigação aprofundada das diferentes morfologias das gaitas-de-foles, abrindo caminhos e novas ideias que se põem em prática em instrumentos recentes a par da inovação intrínseca a estes processos. Neste momento existem diversos construtores de gaitas-de-fole em Portugal que fizeram investigação histórica, recolheram e observaram vários modelos de gaitas e as suas diferenças e que estão a construir gaitas também elas diferentes entre si. As novas ferramentas e tecnologias permitiram facilitar e aprimorar a construção sendo que a evolução que se deu neste campo na última década acompanhou, como não poderia deixar de ser, um aumento no número de gaiteiros. Como grupo musical, e apesar da construção não ser, neste momento, algo a que nos dediquemos directamente, é muito importante que haja instrumentos variados e de qualidade que nos permitam tocar em conjunto e afinados. O nosso objectivo último é no fundo fazer aquilo que mais gostamos: a música.
PR - Dos temas que compõem este disco, há algum tema que o toque em particular? Porquê?
Orquestra de Foles - Temos de salientar dois temas de que já falámos: a “Rapsódia do Ti Roque” e a “Rapsódia do Ti Carriço”. Porque são temas que têm um arranjo bastante interessante e diversificado, porque dão muito gozo a tocar, porque têm uma ligação forte a gaiteiros que ainda hoje estão vivos (e que ainda tocam apesar da idade avançada) e porque resumem quase na íntegra o trabalho da associação: recolha, vivência, arranjos mais contemporâneos sobre composições mais antigas, registo e divulgação da gaita-de-foles e suas peculiaridades.

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