Depois de "Fado Promessa", em 2012 e "Ser Fado", em 2015,"Através do Fado" é o terceiro álbum gravado e produzido em Portugal. Aqui Telmo Pires, assume também a responsabilidade de coprodutor, ao lado de Davide Zaccaria, músico e produtor dos álbuns anteriores. Nos últimos anos, Telmo Pires foi conquistando o público e os media pela Europa, sendo o seu nome associado não só a uma nova voz, mas também a uma nova imagem e postura no Fado contemporâneo. Hoje em "Discurso Direto" é meu convidado o fadista Telmo Pires.
Portugal Rebelde - Optou por gravar este “Através do Fado” em estúdio ao vivo com os músicos que o acompanham em palco. A essência do seu fado passa muito por aqui?
Telmo Pires - Tentei neste álbum guardar ou captar uma certa energia que (para mim) só acontece ao vivo, em palco. Vejo-me também mais como artista de palco do que de estúdio. As duas coisas têm as suas vantagens. O fazer musica juntos, o sentirmos, o respirarmos juntos tem uma elevada qualidade que consegue transportar melhor o sentimento, a emoção do tema. Foi essa a razão de (desta vez) gravarmos juntos "ao vivo" em estúdio. A ultima vez que o fiz, foi em 2009 num álbum só de voz e piano.
PR - Neste disco canta, “Uma Flor de Verde Pinho”, um tema de Manuel Alegre/José Niza. Este é um fado que há muito queria cantar. Porquê?
Telmo Pires - As vozes de Amália e Carlos do Carmo foram as que me mais marcaram, já desde miúdo. São a razão por qual eu, mais tarde, como adolescente fui re-descobrir o Fado. Não tenho a certeza, mas acho que "Uma flor de verde pinho" terá sido a primeira canção que ouvi na voz de Carlos do Carmo. Talvez por, ainda hoje, cada vez que a oiço, imediatamente ser transportado para um outro tempo. Um tempo muito longe do "agora", algo quase perdido no passado. Sempre quis fazer uma homenagem seja a Carlos do Carmo, seja a esse tema lindíssimo... mas só agora me atrevi. Tudo tem o seu tempo... e senti que o momento certo tinha chegado.
PR - Em “Era uma vez" criou um Fado canção melódico “que entra logo no ouvido". Este Fado fala ironicamente de um problema que afeta a cidade de Lisboa. A cidade está a mudar muito?
Telmo Pires - Sim, completamente. A vida inteira é feita de mudanças. E sempre surgem coisas boas e também menos boas. Tudo tem dois lados. Espero que Lisboa, respectivamente: os responsáveis, consigam além de toda a modernização, ondas de turistas, manter a alma e a essência de Lisboa. Espero que não aconteçam erros como em outras cidades europeias que quase viraram parques de diversões. O turista em si adora Lisboa precisamente por ainda ter alguns sítios, bairros, paisagens únicas. Quando tudo estiver vendido (o que está a acontecer há muito tempo), quando o centro de Lisboa se transformar num gigante hotel (o que está a acontecer), quando não houver espaço nem a possibilidade financeira de alugar ou comprar um apartamento para a população (já agora é impossível) porque está tudo dedicado a pessoas com capital elevado que vêm de fora, quando as casas de Alfama, Bairro Alto e Graça forem só alugadas pelo Airbnb (o que está a acontecer)... vamo-nos lembrar muito de Amália que já cantava "Lisboa....., não sejas francesa!"
PR - “Só o meu canto”, foi o single de avanço deste novo disco. De que é que o fado deste poema nos dá conta?
Telmo Pires - Perdemos muito tempo com o que é efémero. Damos muito valor ao que pensamos que possuímos. Mas só nós próprios nos pertencemos. Temos que ser nós a cuidar de nós próprios e seguir a voz que temos, que nos conduz, que nos leva para onde devemos estar e a sermos quem devemos ser. O que está na nossa natureza de ser, de se cumprir. Quer dizer: acreditar e confiar na nossa nossa intuição. Somos energia. Todo o resto ... morre.
PR - Depois da edição deste disco, há a intenção de o “mostrar” nos palcos portugueses e da Europa?
Telmo Pires - Sim, claro! O objetivo é sempre estar perto do nosso publico. O concerto é a forma perfeita. Estamos a trabalhar com uma nova equipa em tornar muitas ideias realidade! Sei que vou estar este ano novamente pela Europa fora e espero também de aturar mais no nosso país.
PR - Para terminar, o que vê “através do Fado”?
Telmo Pires - Tudo!

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