Não é assim tão estranho que Éme e Moxila, dois artistas de sensibilidades e percursos tão diferentes, avancem para um disco a meias. Afinal, havia o dueto na canção popular "Muito Chorei Eu No Domingo à Tarde", que fecha o álbum do Éme "Domingo à Tarde" (2017), que indicava que esta cumplicidade poderia dar frutos maiores, e o facto de se terem apresentado juntos ao vivo inúmeras vezes.
Foi no final de 2019, depois de receberem um apoio da Fundação GDA, que decidiram encontrar-se a meio caminho entre a produção caseira do "Natal Gentil", uma tradição natalícia de Moxila iniciada em 2014, e o mais dispendioso "Domingo à Tarde" para escreverem, tocarem e produzirem um disco totalmente a meias. Para esse encontro, recrutaram para gravar e co-produzir Manel Lourenço, o cantautor de Lisboa conhecido como Primeira Dama.
Com um misto de pragmatismo e intransigência artística, as características únicas da Moxila não se diluem nas do Éme e vice-versa, saindo a identidade de cada um reforçada, e criando também uma nova identidade de conjunto.
Com uma temática em grande medida doméstica, os temas do álbum não se confinam no dia-a-dia de um T1 na zona velha de uma cidade, havendo um lado bucólico que, contrastando com esse, pauta alguma da tensão presente no disco.
Com Vasco Alves na gaita de foles, Sallim, Maria Reis e Lourenço Crespo no coro, Francisca Aires Mateus no violino e Manel Lourenço a intervir com órgão e percussões, a abordagem DIY nos arranjos é inegável. Éme e Moxila tocaram cavaquinho, braguinha, banjo, flauta, melódica, harmónica, baixo, guitarra entre outros, e quando não sabiam tocar o instrumento necessário, aprendiam.
Como canta a Moxila em "Não é o que parece": "o erro vem do imprevisto/ e é isso que se quer."
O espírito lúdico e artístico com que é abordada a variedade de instrumentos presente neste disco é herdeiro da cena indie dos Pastels, da Cherry Red Records, das Marine Girls, dos Magnetic Fields mas também dos territórios mais ancestrais como o do vira minhoto, da desgarrada, da chula de Zeca Afonso a B Fachada, do folclore chileno de Violeta Parra, dos "Afro-sambas" de Baden Powell e Vinicius de Moraes, ou dos corridos mexicanos de Juan Cirerol.
A componente visual também é bastante importante para este disco. Tanto a capa como os vídeos para os temas "Assalto" e "Relaxado", feitos pela Mariana Pita (Moxila), representam uma estética que já vem sendo trabalhada pela artista ao longo de vários anos de filmes de animação que não se desligam completamente do seu trabalho musical.
"Éme e Moxila" é um disco sobre o presente que também olha para o passado, é um disco que olha para um idílio quotidiano e, apesar de acreditar nele, o desmonta com humor e algum realismo mas, sobretudo, é um disco que consegue conciliar as pulsões individualistas de cada um dos seus intervenientes numa obra plena de companheirismo, amor e humanismo e é isso que o torna num álbum único no panorama nacional.

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