Amélia Muge é uma reconhecida cantora e criadora muito eclética, fazendo revisitações que vão às raízes da música tradicional, passando pelos desafios de fusão multicultural e pelas linguagens mais contemporâneas. Pioneira em Portugal do canto individual a vozes e de criação de ambientes vocais, Amélia Muge foi desenvolvendo potenciais tímbricos numa interação com samples feitos a partir da sua voz. Esta é uma componente que tem vindo a utilizar regularmente na maioria dos seus trabalhos. O disco "Amélias" surge na continuidade deste canto com vozes dela própria e são essas vozes que realizam a base do acompanhamento, num resultado inesperado e único. É uma homenagem à riqueza do canto feminino em grupo, muito dele à Capela e as composições, originais, trazem memórias sonoras dessa expressão vocal primordial, numa leitura mais contemporânea que não lhe retira a raiz comum, ao revisitar outras e novas abordagens. Hoje em "Discurso Direto" é minha convidada Amélia Muge.
Portugal Rebelde - Quando começou a pensar “Amélias”, que ideias tinhas para este disco?
Amélia Muge - Não contava, como ninguém contava, com o confinamento que reduziu
tremendamente os recursos disponíveis face às medidas de isolamento que a pandemia nos impôs. As fragilidades, no mundo das artes, já existiam e agudizaram-se. O Amélias surgiu neste contexto. O que fazer tendo-me a mim e as minhas memórias, experiências e vontades, o José Martins arranjador e produtor e ainda um pequeno estúdio caseiro? As vozes surgiram assim, não só porque para mim a voz colectiva, maioritariamente à capella, sempre esteve presente na minha vida, como foi com grupos vocais que tive das experiências mais emotivas e significativas. E, como toda a gente, também estava com aquela sensação de impotência. Parecia que uma voz sozinha era pouco.
Por outro lado, depois do meu último trabalho : Arquipélagos - Passagens na continuidade do que já tinha vindo a desenvolver com a Grécia e com dezenas de músicos portugueses e gregos, tinha vontade de me voltar para um trabalho menos cansativo em termos de produção e regressar, de algum modo, “a casa”, depois de tantas viagens. Não contava é que a casa tivesse que ser encarada como espaço de confinamento.
PR - Trinta anos após a estreia discográfica com “Múgica”, brinda-nos com um disco onde a voz se multiplica. Sente que é um “regresso” á sua infância?
Não há regressos à infância. Há memórias, sentires que recriamos dessas memórias e, no caso do canto coletivo, eu cresci a ouvi-lo nas ruas, em Moçambique. Essas canções, os embalos rítmicos da infância, a marcação dos embalos com o pé no chão ou as mãos batendo no corpo, cantos feitos dentro de um coletivo de crianças e amas que se juntavam, ao ar livre, ficaram impressas em mim. Não me lembro como eram exatamente as melodias, mas ficou um ouvido para este canto coletivo que tem acompanhado toda a minha vida e que, nos meus trabalhos, foi desenvolvendo uma componente de criação de várias vozes de mim que foram construindo paisagens sonoras muito minhas e que neste Amélias estão muito mais aprofundadas. Todas os outros “encontros”, mais profissionais ou ocasionais, ou comunitários, vêm no decorrer dessa “ marca”. Não são um retorno a nada. São uma continuidade que torna presente o que vai sendo.
PR - “Amélias” conta com dois convidados muito especiais – José Salgueiro e António José Martins. Que contributos trouxeram para este disco?
Amélia Muge - O José Martins não é bem um convidado. É um parceiro e fundamental, com os arranjos que criou, para a sonoridade deste disco. Aliás são dele a grande parte dos arranjos no meu trabalho em geral. Arranjos que, como sempre, foram sendo criados num ambiente de desenvolvimento gradual de ideias musicais e não só, que ajudam a criar para a canção um cenário, como se cada tema, tivesse, como dizia o José Mário Branco, um desafio teatral que o ambiente sonoro teria de traduzir. Há de facto neste CD duas outras presenças: a do José Salgueiro e da Catarina Anacleto que queríamos muito, devido à nossa amizade e cumplicidade. Ter percussões era uma solução que, embora não necessária, era desejável para um melhor equilíbrio entre graves e agudos, em termos gerais. A Catarina, com o cello, contribuiu para reforçar o ambiente em especial o d’A prenda dos amantes, único tema em que canto praticamente a solo. Costumo dizer que é um momento de pausa, onde as outras vozes se sentam para escutar. Apenas uma, mais teimosa, fica, para uma ajudinha no refrão.
PR - Numa recente entrevista ao Ípsilon, disse que “gostaria muito que estas vozes servissem de algum consolo, de alguma respiração nestes tempos (de pandemia e de guerra). A música e a voz continuam a ter o poder de acalmar e amparar?
Amélia Muge - Entre muitas outras coisas sim, embora também possa ter o efeito contrário, o efeito de reforço das ideologias mais radicais ou de incitamento à guerra, por exemplo (ninguém esquece a voz de Hitler ou de outros ditadores). É, digamos, um instrumento poderoso. Se isso pode ser considerado uma arma, eu gosto de ver, em termos de instrumento, a música mais como um tear, capaz de estabelecer tramas, unir pontas, criar um tecido comum. Aí, é claro que a possibilidade de consolo e amparo, de criação de sentimentos de pertença capazes de acalmar e unir para o desenvolvimento da humanidade fazem todo o sentido. No contexto de guerra em que vivemos, é sempre um momento particularmente emocionante ouvir um músico tocando em frente ao conservatório destruído, ou uma criança, ou uma série de coros por toda a Europa apelando, ao mesmo tempo, à paz. No último Natal estava na Póvoa do Varzim e ouvi um coro de crianças da paróquia de Beiriz. Cantaram maravilhosamente mas... de máscara. É uma sensação de voz amordaçada que comprova o que estou a dizer e que nos faz sentir a importância da voz de uma forma muito óbvia. Mesmo “amordaçadas”, as crianças desse coro com as suas canções de Natal, transmitiram esse consolo de que falava. Gostaria muito, que, independentemente da temática de cada canção, o Amélias desse às pessoas, com as suas vozes todas, a vontade de fecharem os olhos... para encontrarem nessas vozes, a força para respirar melhor. Seja lá o que isso for para cada um.
PR - Com a edição de “Amélias” encerra-se um ciclo?
Amélia Muge - Embora tivesse, quer na infância quer na juventude, em especial com a minha irmã, Teresa Muge, participações em vários eventos e concertos, chegando até a gravar dois discos, considero que todas essas experiências passadas fizeram parte de um “estar ali” nunca muito pensado como tal e muito menos em termos da criação de um projeto artístico, profissionalmente falando. Decorreram da aprendizagem musical e da participação em programas criados pela rádio em Moçambique, em que fomos participando desde crianças.
A partir do CD Múgica (trocadilho com o meu nome de família) e sobretudo do conhecimento, no terreno cultural e artístico, do que poderia ser o meu trabalho, com que opções me identificava mais, dentro dos projetos existentes na música portuguesa e que me parecia mais interessante desenvolver (sobretudo os que se furtavam sempre às evidências), fui, nestes 30 anos que decorreram, diversificando os meus campos de actuação, que na verdade, nunca se restringiram ao domínio musical de CD e concertos. O escrever para outros foi-se tornando cada vez mais importante, bem como a conceção ou orientação de projetos artísticos coletivos, a criação de peças para teatro ou o trabalho de adaptação de canções e direção de atores, especialmente dentro do audiovisual para crianças. Hoje considero estes últimos campos que referi cada vez mais importantes, bem como a minha colaboração na criação e reforço de redes alternativas de promoção e circulação de obras artísticas que não encontram no espaço dos media atuais (especialmente o televisivo) a sua melhor forma de comunicação, com raras exceções. Penso que essas redes poderão tirar partido das redes sociais existentes, desenvolver contactos e criar encontros mais naturalmente ligados à compreensão do que andamos a fazer e que podem complementar de uma forma única e, nalguns casos, mais significativa até, o trabalho dos media convencionais. Vocês, Portugal Rebelde, são um bom exemplo do que estou a dizer. É neste contexto que me apetece começar a trabalhar mais intensamente, deixando a produção de novos CDs para um segundo plano. Por isso, vamos continuar a dialogar por aí, certamente. Obrigada pelo convite para esta entrevista.

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