"Ibéria 20|22", é o novo disco que assinala os 20 anos de carreira do guitarrista e compositor Manuel de Oliveira, é um novo encontro com os músicos espanhóis, Jorge Pardo e Carles Benavent, fundadores do sexteto de Paco de Lucía, e com os quais, mantem uma estreita e muito especial cumplicidade, desde o seu primeiro disco, "Ibéria", lançado em 2002. No momento em que celebra 20 anos de carreira, “Ibéria 20|22 perfila-se como um novo capítulo no percurso do compositor e guitarrista. Manuel de Oliveira é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - Fronteira, território, comunidade e identidade serão, serão sempre palavra-chave na sua música?
Manuel de Oliveira - O meu instinto criativo foi sempre inclinado para testar os limites territoriais de
uma identidade. No fundo, ou mesmo, a princípio, a posição de onde parto para o
processo criativo reflete uma certa forma de estar na vida, na dimensão artística, por
exemplo, antes dos resultados estéticos ou conceptuais, há uma atitude mais
intuitiva do que intelectual, por isso mesmo lhe chamo instinto, porque a princípio, é
resultado de um movimento de sobrevivência, de questionar ou desobedecer a ideias
rígidas e ir ao encontro de territórios e linguagens mais amplas, mais livres acima de
tudo. Talvez seja por isso que as culturas urbanas sempre captaram a minha atenção,
no fado, no flamenco, no tango, no blues ou no jazz, a sobrevivência, a
desobediência ou a comunidade, são o grande motor destas culturas.
PR - “Ibéria 20|22” marca um novo encontro com os músicos espanhóis Jorge Pardo
e Carles Benavent. Cumplicidade é a palavra que melhor os define?
Manuel de Oliveira - Não sei se a melhor, mas com certeza uma das mais importantes. Antes mesmo da
amizade que desenvolvemos ao longo de mais de 20 anos, o facto de eu ser, desde
criança, um enorme admirador de Paco de Lucia, e logo, o Jorge Pardo e o Carles
Benavent, fazerem parte de uma família musical que talvez tenha sido a minha
maior influencia como músico e compositor, é um fator determinante no nosso
encontro e na nossa relação. Claro que isso não chega para o passo seguinte, há de
facto uma grande cumplicidade na forma como nos relacionamos com a música,
quer no trabalho desenvolvido com o Paco de Lucia e no flamenco em geral, estes
músicos são uns descobridores, pois desafiaram as fronteiras do flamenco a um
nível histórico e essa liberdade através da qual se relacionam com a música é
determinante na forma como nos relacionamos.
Como compositores, são três mundos bem distintos, aqueles onde nos movemos
criativamente, e neste disco tivemos a possibilidade de levar essa cumplicidade a um
outro nível, pelo tempo que tivemos para criar e para gravar.
PR - O primeiro single, “O céu da Figueira” é um tema inspirado no silêncio e num
largo e profundo horizonte, características dominantes, em grande parte, dos
lugares da Beira Alta e Alto Douro. De que forma surgiu este tema?
Manuel de Oliveira - Os lugares e a forma como a vida acontece por onde me movo, é algo que eu aprecio
muito observar e me deixar envolver e essa experiência acaba sempre por ser objeto
de transformação artística. Tive a oportunidade de fazer uma residência artística e,
Figueira de Castelo Rodrigo, em 2021, e este tema é uma das criações resultantes
dessa experiência.
Decidi gravar neste disco o tema “O Céu de Figueira”, como uma espécie de
convite, dirigido por mim, a Sandra Martins e o João Frade, ao Jorge Pardo e ao
Carles Benavent, como uma espécie de momento transitório entre o nosso disco
“Entre-Lugar” (2020), que é uma música mais contemplativa, e o universo de "Ibéria 20|22".
PR - Onde quando poderemos ouvir em palco as canções deste “Ibéria 20 | 22”?
Manuel de Oliveira - Teremos já um concerto muito especial no dia 17 de Novembro, no Festival Guimarães
Jazz. É um concerto de celebração de 20 anos de carreira e do projeto IBÉRIA, que é o
título do meu primeiro álbum de originais. O concerto, para além do Jorge Pardo e do
Carles Benavent, terá a participação da Orquestra de Guimarães, dirigida pelo maestro
Carlos Garcia, também responsável pelos arranjos de uma seleção de 11 obras do
"universo" de "IBÉRIA", que iremos apresentar neste formato sinfónico. Connosco
teremos ainda o Miguel Veras (guitarra), o Quiné Teles (bateria) e o Mário Gonçalves
(percussão).
Este concerto é a estreia deste formato sinfónico que, em 2023, irá repetir-se em outros
lugares. No próximo ano também iremos estar em digressão com vários formatos dentro
do que chamamos a TOUR 20, que irá percorrer praticamente todo o país e saltaremos
também fronteiras, para Espanha e não só.
PR - Que memórias guarda de 20 anos de carreira?
Manuel de Oliveira - É difícil eleger memórias concretas destes 20 anos. Para já acho que 20 anos é
muito pouco para um percurso de carreira e resisti bastante em sinalizar este
marco, por isso mesmo. Por outro lado, é um exercício retrospetivo muito
enriquecedor, olhar para o que concretizei criativamente, que é algo que eu não
me agarro muito, mas também me permitiu ter uma visão da evolução do meu
percurso. Não deixa de ser um bom ponto de partida para o futuro.
A retrospetiva faz também reavivar muitas memórias, naturalmente, e não
elegendo nenhuma em específico, a sensação constante é de gratidão, por ter tido
a possibilidade e a coragem da concretização, dentro de um género musical
bastante difícil de encontrar espaço e contexto no nosso país, mas acima de tudo,
a gratidão por todas as pessoas com quem tive oportunidade de crescer ao longo
do caminho.
Mas há uma memória que posso partilhar, um pouco cómica, que é o Chic Corea
me ter convidado para participar no concerto dele em Madrid (2003), no Festival
Emociona Jazz, onde estava também a fazer concerto com o Benavent e o Pardo
e eu não ter aparecido porque não compreendi que ele me tinha convidado para
tocar, mas sim para assistir ao concerto. No final do concerto quando o fui
cumprimentar, ele perguntou me porque é que eu não quis tocar. É algo que me
assola até hoje.

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