06/05/2023

AMÍLCAR VASQUES-DIAS | Discurso Direto


De ouvido e coração é um projeto musical da autoria do compositor e pianista Amílcar Vasques-Dias em parceria com Luís Pacheco Cunha, que recria e reinventa a obra de José Afonso, movendo-se num universo entre a música erudita, o jazz e o flamenco, mas permanecendo fiel à sua matriz original. De ouvido e coração foi editado em CD e em versão digital, incluindo interpretações de doze temas de José Afonso, como sejam os emblemáticos “Que amor não me engana”, “Venham mais cinco”, “Vejam bem”, “Traz outro amigo também”, “Cantigas do Maio”, ou “Eu fui ver a minha amada”, e outras composições, tais como “A mulher da erva”, “Balada do Outono” ou “Cantar Alentejano (Catarina Eufémia)”. Amílcar Vasques-Dias é hoje meu convidado em "Discurso Direto".

Portugal Rebelde - Como surgiu a ideia para recriar e reinventar a obra de José Afonso, num universo entre a música erudita, o jazz e o flamenco? ​

Amílcar Dias -  A ideia surgiu após o meu encontro com José Afonso em Novembro de 1978, em Amesterdão, aquando de uma sua ‘tournée’ na Holanda, em que o acompanhei como tradutor. Eu tinha ido para a Holanda em 1974, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, para estudar Composição e Música Eletroacústica, no Conservatório Real de Haia. Já tinha editado na Holanda três partituras de músicas de José Afonso, para a orquestra de metais, piano e contrabaixo ‘De Volharding’ (‘A Persistência’ em português), na editora Donemus-Amsterdam: Coro da Primavera, Cantar Alentejano e Grândola Vila Morena, com o título Cantares Portugueses de José Afonso. Para esta edição precisava da autorização do próprio autor que ma concedeu, abrangendo toda a sua produção musical. Na minha abordagem à música de José Afonso, tive desde o início a intenção de a envolver em ‘moldura’ clássica/erudita, acrescentando eventualmente algo ‘meu’ nos arranjos para violino, piano e voz. A influência do jazz vem do meu próprio gosto e da minha aprendizagem com o meu estimado professor/compositor Louis Andriessen, fundador da já referida orquestra ‘De Volharding’! A influência do flamenco vem bastante mais tarde, quando pensei em convidar a cant«ora Esther Merino para integrar o projeto ‘de ouvido e coração’! 

PR - Houve sempre a preocupação de permanecer fiel à matriz original? 

Amílcar Dias - Nunca quis que os meus arranjos fossem ‘cópias’ da música de José Afonso! Muito menos depois de conversar com ele em 1978 sobre Música e músicas, em que me afirmou: ‘gosto de acrescentar ‘algo meu’ à música de outros’! É isso que mantém a música viva...!’ Nas ‘melodias’, procurei ser ‘fiel’ às canções originais. Acho, no entanto, que é bastante óbvio para quem ouve este CD, que, desde a escolha dos instrumentos, às diferentes características das vozes dos intérpretes, aos andamentos mais livres, à escrita harmónica e tímbrica do piano, às múltiplas sonoridades do violino do Luís Pacheco Cunha, acrescentei ‘algo meu’ à música de José Afonso. Gosto sempre de referir a origem do nome do CD: ‘de ouvido e coração’, que surge a partir da resposta de José Afonso ao jornalista da rádio Hilversum 4, no Concertgebouw de Amesterdão (1978), em que José Afonso diz - em francês – que ‘não sabe música’, que faz música ‘de ouvido e coração’! Pois...não concordo! Eu tenho a certeza que ele conhecia Música e sabia o que queria para compor a sua música! 

PR - Há alguma razão para a escolha destes 12 temas que compõem este disco?   

Amílcar Dias - Cantar Alentejano, eu sempre pensei que esta canção devia fazer parte do projeto, pelo seu significado humano, político e musical. Todo o arranjo instrumental e vocal vai no sentido de acentuar o caracter dramático da canção. A interpretação da cantora Esther Merino realça profundamente os acontecimentos relatados no poema de José Afonso. Em concerto, a Esther cantava sempre uma canção do repertório flamenco, ‘Nana del caballo grande’, uma canção de Federico Garcia Llorca com arranjo meu. Ora, o José Afonso também tinha uma canção de embalar e assim, Esther começou também a cantar a ‘Canção de Embalar’, de José Afonso! Que Amor Não Me Engana, interpretado por Ricardo Ribeiro, José Afonso mostra conhecer e saber sobre canto gregoriano. Requintadamente, José Afonso usa as primeiras notas do Kyrie da Missa Orbis factor ‘de trás para a frente’...! A canção tem um caracter serenamente litúrgico e claro que entrou nas minhas escolhas. Ó Que Janela Tão Alta, José Afonso cantou para mim, nesse tal encontro num banco de jardim, esta linda canção de Trás-os-Montes – que eu não conhecia – e que transcrevi numa folha do seu ‘caderninho’. A sua linda voz subiu até ao registo agudo - perfazendo um intervalo de 10ª com a nota grave - e eu comentei que na música tradicional não se usava uma tessitura tão extensa. Ao que ele – que conhecia bem as potencialidades tímbricas da sua voz - naturalmente me respondeu: ’Ah, é que eu gosto de acrescentar algo meu à música de outros!’ Esta canção tradicional, que José Afonso me ensinou, tinha que fazer parte deste CD. Que eu saiba, José Afonso nunca gravou esta canção. Cantigas Do Maio, José Afonso devia estar muito inspirado quando compôs esta canção. Na versão instrumental, o Luís Pacheco Cunha, brilha no seu violino explorando intensamente os registos agudo, médio e grave em sonoridades poéticas e apaixonadas... Eu Fui Ver A Minha Amada, é uma composição de minha autoria, sobre quadras de caracter popular de José Afonso. Ficaria ‘perfeita’ pelo tenor Carlos Guilherme, cantor lírico do Teatro Nacional de S. Carlos. Acompanha-nos neste projeto há mais de 20 anos cantando ainda Traz Outro Amigo Também. Quando regressei a Portugal em 1988, na 1ª experiência pública que tive ao piano, com música de José Afonso, apresentei uma ‘sequência’ de três canções em forma de ‘sonata’ contemporânea: Vejam Bem, Cantar Alentejano e Mulher DA Erva. A Mulher DA Erva, partitura para violino e piano, é - quanto a mim - a prova de que José Afonso conhecia música de Claude Debussy, nomeadamente o ‘Prélude à l’aprés-midi d’un faune’ que o terá inspirado na composição do 1º tema desta canção (Velha da terra morena)! Eu próprio estudei intensamente esta obra – que admiro/adoro. As outras músicas instrumentais, Venham Mais Cinco e Balada Do Sino, fazem parte do repertório inicial deste projeto. Vejam Bem, gosto de tocar esta canção em harmonias ‘bartokianas’. É a única em piano solo e que encerra o CD: "De Ouvido e Coração. 

PR - Este disco conta com as colaborações de Ricardo Ribeiro, da cantora espanhola Esther Merino, e dos cantores líricos Carlos Guilherme e Natasa Sibalic. Quer falar-nos um pouco destas participações?

Amílcar Dias - O tenor Carlos Guilherme, cantor lírico sobejamente conhecido do Teatro Nacional de S. Carlos, foi o primeiro intérprete convidado, ainda nos anos 90, a participar nos concertos realizados de norte a sul do país com este projeto. A soprano lírica Natasa Sibalic, com a sua voz ‘coloratura’, uma voz leve e de extrema agilidade, - e que em concerto e neste CD canta a Balada Do Outono -, era o contraponto ideal à voz da cantora flamenca Esther Merino, de voz grave e dramática. Ambas começaram a participar em De Ouvido E Coração em 2012, enriquecendo o projeto em diversidade de cores vocais e modos tão diferentes de estar em palco. O intérprete/cantor Ricardo Ribeiro, convidado para participar na gravação do CD, mostrou especial prazer em interpretar a canção ‘Que amor não me engana’. 

PR - Há alguma das canções do Zeca presente neste disco, que o toca em particular? Porquê? 

Amílcar Dias - A Mulher Da Erva, eu gostava tanto desta canção, que escrevi nos anos 80, Velha, para soprano, violino e piano sobre versos do poema de José Afonso. Tocou-me o dramatismo do poema: ‘Saia rota subindo a estrada...’ e, musicalmente, a ‘referência’ à música de Debussy... Julgo que se ouve e se percebe neste CD o quanto os dois intérpretes amam esta canção!

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