De ouvido e coração é um projeto musical da autoria do compositor e pianista Amílcar Vasques-Dias em parceria com Luís Pacheco Cunha, que recria e reinventa a obra de José Afonso, movendo-se num universo entre a música erudita, o jazz e o flamenco, mas permanecendo fiel à sua matriz original. De ouvido e coração foi editado em CD e em versão digital, incluindo interpretações de doze temas de José Afonso, como sejam os emblemáticos “Que amor não me engana”, “Venham mais cinco”, “Vejam bem”, “Traz outro amigo também”, “Cantigas do Maio”, ou “Eu fui ver a minha amada”, e outras composições, tais como “A mulher da erva”, “Balada do Outono” ou “Cantar Alentejano (Catarina Eufémia)”. Amílcar Vasques-Dias é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
Portugal Rebelde - Como surgiu a ideia para recriar e reinventar a obra de José Afonso,
num universo entre a música erudita, o jazz e o flamenco?
Amílcar Dias - A ideia surgiu após o meu encontro com José Afonso em Novembro
de 1978, em Amesterdão, aquando de uma sua ‘tournée’ na Holanda,
em que o acompanhei como tradutor. Eu tinha ido para a Holanda em
1974, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, para estudar
Composição e Música Eletroacústica, no Conservatório Real de Haia.
Já tinha editado na Holanda três partituras de músicas de José
Afonso, para a orquestra de metais, piano e contrabaixo ‘De
Volharding’
(‘A Persistência’ em português), na editora Donemus-Amsterdam:
Coro da Primavera, Cantar Alentejano e Grândola Vila Morena, com o
título Cantares Portugueses de José Afonso. Para esta edição
precisava da autorização do próprio autor que ma concedeu,
abrangendo toda a sua produção musical.
Na minha abordagem à música de José Afonso, tive desde o início a
intenção de a envolver em ‘moldura’ clássica/erudita, acrescentando
eventualmente algo ‘meu’ nos arranjos para violino, piano e voz.
A influência do jazz vem do meu próprio gosto e da minha
aprendizagem com o meu estimado professor/compositor Louis
Andriessen, fundador da já referida orquestra ‘De Volharding’! A
influência do flamenco vem bastante mais tarde, quando pensei em
convidar a cant«ora Esther Merino para integrar o projeto ‘de ouvido
e coração’!
PR - Houve sempre a preocupação de permanecer fiel à matriz original?
Amílcar Dias - Nunca quis que os meus arranjos fossem ‘cópias’ da música de José
Afonso! Muito menos depois de conversar com ele em 1978 sobre
Música e músicas, em que me afirmou: ‘gosto de acrescentar ‘algo
meu’ à música de outros’! É isso que mantém a música viva...!’
Nas ‘melodias’, procurei ser ‘fiel’ às canções originais. Acho, no
entanto, que é bastante óbvio para quem ouve este CD, que, desde a
escolha dos instrumentos, às diferentes características das vozes dos
intérpretes, aos andamentos mais livres, à escrita harmónica e
tímbrica do piano, às múltiplas sonoridades do violino do Luís
Pacheco Cunha, acrescentei ‘algo meu’ à música de José Afonso.
Gosto sempre de referir a origem do nome do CD: ‘de ouvido e
coração’, que surge a partir da resposta de José Afonso ao jornalista
da rádio Hilversum 4, no Concertgebouw de Amesterdão (1978), em
que José Afonso diz - em francês – que ‘não sabe música’, que faz
música ‘de ouvido e coração’!
Pois...não concordo! Eu tenho a certeza que ele conhecia Música e
sabia o que queria para compor a sua música!
PR - Há alguma razão para a escolha destes 12 temas que compõem este
disco?
Amílcar Dias - Cantar Alentejano, eu sempre pensei que esta canção devia fazer
parte do projeto, pelo seu significado humano, político e musical.
Todo o arranjo instrumental e vocal vai no sentido de acentuar o
caracter dramático da canção. A interpretação da cantora Esther
Merino realça profundamente os acontecimentos relatados no poema
de José Afonso.
Em concerto, a Esther cantava sempre uma canção do repertório
flamenco, ‘Nana del caballo grande’, uma canção de Federico Garcia
Llorca com arranjo meu. Ora, o José Afonso também tinha uma
canção de embalar e assim, Esther começou também a cantar a
‘Canção de Embalar’, de José Afonso!
Que Amor Não Me Engana, interpretado por Ricardo Ribeiro, José
Afonso mostra conhecer e saber sobre canto gregoriano.
Requintadamente, José Afonso usa as primeiras notas do Kyrie da
Missa Orbis factor ‘de trás para a frente’...!
A canção tem um caracter serenamente litúrgico e claro que entrou
nas minhas escolhas.
Ó Que Janela Tão Alta, José Afonso cantou para mim, nesse tal
encontro num banco de jardim, esta linda canção de Trás-os-Montes
– que eu não conhecia – e que transcrevi numa folha do seu
‘caderninho’. A sua linda voz subiu até ao registo agudo - perfazendo
um intervalo de 10ª com a nota grave - e eu comentei que na música
tradicional não se usava uma tessitura tão extensa. Ao que ele – que
conhecia bem as potencialidades tímbricas da sua voz - naturalmente
me respondeu: ’Ah, é que eu gosto de acrescentar algo meu à música
de outros!’
Esta canção tradicional, que José Afonso me ensinou, tinha que fazer
parte deste CD. Que eu saiba, José Afonso nunca gravou esta canção.
Cantigas Do Maio, José Afonso devia estar muito inspirado quando
compôs esta canção. Na versão instrumental, o Luís Pacheco Cunha,
brilha no seu violino explorando intensamente os registos agudo,
médio e grave em sonoridades poéticas e apaixonadas...
Eu Fui Ver A Minha Amada, é uma composição de minha autoria,
sobre quadras de caracter popular de José Afonso. Ficaria ‘perfeita’
pelo tenor Carlos Guilherme, cantor lírico do Teatro Nacional de S.
Carlos. Acompanha-nos neste projeto há mais de 20 anos cantando
ainda Traz Outro Amigo Também.
Quando regressei a Portugal em 1988, na 1ª experiência pública que
tive ao piano, com música de José Afonso, apresentei uma
‘sequência’ de três canções em forma de ‘sonata’ contemporânea:
Vejam Bem, Cantar Alentejano e Mulher DA Erva.
A Mulher DA Erva, partitura para violino e piano, é - quanto a mim
- a prova de que José Afonso conhecia música de Claude Debussy,
nomeadamente o ‘Prélude à l’aprés-midi d’un faune’ que o terá
inspirado na composição do 1º tema desta canção (Velha da terra
morena)! Eu próprio estudei intensamente esta obra – que
admiro/adoro.
As outras músicas instrumentais, Venham Mais Cinco e Balada Do Sino, fazem parte do repertório inicial deste projeto.
Vejam Bem, gosto de tocar esta canção em harmonias ‘bartokianas’.
É a única em piano solo e que encerra o CD: "De Ouvido e Coração.
PR - Este disco conta com as colaborações de Ricardo Ribeiro, da cantora
espanhola Esther Merino, e dos cantores líricos Carlos Guilherme e Natasa
Sibalic. Quer falar-nos um pouco destas participações?
Amílcar Dias - O tenor Carlos Guilherme, cantor lírico sobejamente conhecido do
Teatro Nacional de S. Carlos, foi o primeiro intérprete convidado,
ainda nos anos 90, a participar nos concertos realizados de norte a
sul do país com este projeto.
A soprano lírica Natasa Sibalic, com a sua voz ‘coloratura’, uma voz
leve e de extrema agilidade, - e que em concerto e neste CD canta a
Balada Do Outono -, era o contraponto ideal à voz da cantora
flamenca Esther Merino, de voz grave e dramática. Ambas
começaram a participar em De Ouvido E Coração em 2012,
enriquecendo o projeto em diversidade de cores vocais e modos tão
diferentes de estar em palco.
O intérprete/cantor Ricardo Ribeiro, convidado para participar na
gravação do CD, mostrou especial prazer em interpretar a canção
‘Que amor não me engana’.
PR - Há alguma das canções do Zeca presente neste disco, que o toca em
particular? Porquê?
Amílcar Dias - A Mulher Da Erva, eu gostava tanto desta canção, que escrevi nos
anos 80, Velha, para soprano, violino e piano sobre versos do poema
de José Afonso. Tocou-me o dramatismo do poema: ‘Saia rota
subindo a estrada...’ e, musicalmente, a ‘referência’ à música de
Debussy...
Julgo que se ouve e se percebe neste CD o quanto os dois intérpretes
amam esta canção!
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