01/04/2022

SERGE FRITZ | Discurso Direto


Serge Fritz é um alter ego de Sérgio Freitas, músico de Braga com formação em piano, teclista com colaborações, em estúdio e ao vivo, com nomes tão diversos como Sensible Soccers, Pz, Old Jerusalem, Mind da Gap ou We Trust. É membro do coletivo de improvisação Zany Dislexic Band e co-fundador da Meifumado Fonogramas. Atualmente toca com Sensible Soccers e Pz. Munido de teclados, sintetizadores e caixa de ritmos, Serge Fritz produziu um álbum instrumental, "gandulo", que ao longo das suas 11 faixas revisita subconscientemente alguns dos lugares esconsos que pululam o seu universo particular, numa tradução que pode originar ambientes cinemáticos, música improvisada com laivos de jazz e hip-hop, narrativas de pendor camerístico ou ingénuas melodias pop. Serge Fritz é hoje meu convidado em "Discurso Direto".
 
Portugal Rebelde - “Gandulo” é uma espécie de diário de vadiagem pessoal, que procura refletir a volatilidade dos tempos, dos modos e das modas? 

Serge Fritz - Acaba por ser, no sentido em que, com exceção da primeira faixa, foi gravado num período concentrado de tempo no qual fui registando ideias e improvisos diariamente e, como tal, transparecerá, creio eu, alguma da carga emocional vivida durante o confinamento pandémico, com tudo o que implicou quer ao nível emocional quer do ponto de vista da vida prática. O “gandulo” acaba então por ser um diário desse tempo, com todas as volatilidades e ambivalências de humor, pensamento ou atitude face ao ambiente que me rodeia. Para além disso, a sonoridade patente no álbum é bastante representativa do meu gosto e acaba por englobar retrospetivamente algumas dos matizes que constam no meu trabalho anterior enquanto músico. 

PR - O título deste disco remete-nos também para a vida de folgazão. Ainda te revês no “Gandulo”? 

Serge Fritz - Não serei propriamente um gandulo, pelo menos na sua conotação mais comum, embora também me porte mal aqui e ali, como todos nós, aliás. Mas este título para o álbum funciona como leitmotiv mental para o que se passa musicalmente no desenrolar do disco. É uma palavra que eu adoro, muito ligada à minha infância e com um som e uma grafia muito bonitos. de resto, acho que uma dose de gandulice de vez em quando, faz bem à cabeça e ao corpo. 

PR - Há um lado cinematográfico nos 11 temas deste disco? 

Serge Fritz - Penso que sim, sobretudo temas como “brava”, “alodoxafobia” ou “o coração num bolso” têm uma carga cinemática bastante presente e que acaba por remeter o ouvinte, assim espero, para determinados contextos emocionais, pictóricos ou outros com alguma facilidade. Na verdade, é um campo onde me sinto bem e no qual adoraria desenvolver mais trabalho. 

PR - “Brava” é a primeira amostra deste disco, inspirada nas canções de trabalho. O título deste tema leva a alcunha da tua avó. Esta foi a forma de lhe prestares este tributo? 

Serge Fritz - A “brava” é a única música deste disco que já existia. Aparecia-me recorrentemente quando estava ao piano e não sei porquê houve uma altura em que dei por mim a pensar na minha avó enquanto entrava na harmonia dela. Então, no meu cérebro ficou arrumada como música da avó micas. Não lhe chamaria tributo, mas antes um carinho para quem gosta de mim como ela gostava. Acabei por gravá-la com o João Moreira no seu estúdio no Porto, ainda antes da pandemia. Houve um momento engraçado com ele, perguntou-me, na hora de fazer o save as, como se chamava a música e eu respondi, “miquinhas” (era assim que eu tratava a minha avó, ou “micas”) e o João achou que eu estava a gozar! A filha dele é “micas” também, percebi eu mais tarde! 

PR - Para terminar, há intenções de mostrar ao vivo as canções deste disco? Há alguma data agendada? 

Serge Fritz - Sou um bocado sazonal, pelo menos com o piano sou bastante sazonal. Preciso da temperatura mais amena ou calor mesmo. Todos os anos existe um dia em que vou ao piano e o lado físico responde doutra maneira, mais ágil, fica mais fácil. É sinal de que a época vai começar! No Inverno e no Outono também toco, mas é com solinho que normalmente ando para a frente. Com o “gandulo” acontecerá o mesmo. Vou esperar pelos dias maiores e quentinhos, talvez lá para Maio haja fumo branco.

Sem comentários:

/>